Manipulações feitas por bancos causam escândalo de US$ 300 trilhões

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Ben Stansall/AFP Photo

    Agência do Royal Bank of Scotland em Londres

    Agência do Royal Bank of Scotland em Londres

No meio dos escândalos de corrupção registrados aquém e além-mar, o caso do LIBOR, que foi julgado em Nova York na semana passada, passou meio despercebido em nossas paragens. Como sabem os interessados no assunto, o LIBOR (London Interbank Offered Rate), fixado em Londres diariamente, concerne a taxa de juros dos empréstimos interbancários de curto e médio prazo.

Estabelecido por meio da consulta diária feita a uma série de bancos, o LIBOR impacta muito além do Reino Unido e serve de referência a todas as praças financeiras do mundo. Segundo o Tesouro Britânico, o conjunto de instrumentos financeiros baseados no LIBOR atinge a soma extravagante de 300 trilhões de dólares. Daí o interesse que pauta o assunto desde 2008, quando as primeiras suspeitas de manipulação do LIBOR surgiram nos Estados Unidos. Apavorados com a crise que começava, alguns grandes bancos começaram a alterar sua declaração diária sobre a taxa de empréstimo para simular uma boa situação financeira.  Na sequência das denúncias, começaram os processos.

Em 2011, a Royal Bank of Scotland é envolvida na trapaça e em julho de 2012 ocorre o primeiro grande escândalo. Bob Diamond, o poderoso diretor de Barclays, pede demissão de seu posto na sequência de um processo que desemboca numa multa de 60 milhões de libras no Reino Unido e de 200 milhões de dólares nos Estados Unidos. Em dezembro, a fraude do LIBOR atinge o banco suíço UBS, o qual paga 1,2 bilhões de dólares de multa nos Estados Unidos, 160 milhões de libras no Reino Unido e 59 milhões de francos na Suíça.

No mesmo mês do ano seguinte, e pelos mesmos crimes, a União Europeia aplica uma multa de 1,7 bilhão de euros em cinco bancos (Deutsche Bank, Societe Generale, Royal Bank of Scotland, JP Morgan e Citigroup) e em um agente financeiro britânico. Em abril do ano passado a Deutsche Bank é de novo multada em 2,5 bilhões por manipulações do LIBOR feitas nos mercados britânico e americano. Enfim, em agosto de 2015, Tom Hayes, ex-trader do UBS e do Citigroup pegou 14 anos de cadeia na sequência de um processo realizado em Londres. Mesmo reduzida em seguida para 11 anos, a pena consitui um dos recorde para crimes de colarinho branco no Reino Unido. Na semana passada, dois ex-banqueiros britânicos foram condenados por um tribunal nova-iorquino.

O descrédito dos bancos aumenta quando se sabe também que no último mês de Janeiro, a Goldman Sachs aceitou pagar uma multa de 5,1 bilhões de dólares às autoridades americanas para encerrar as investigações sobre delitos hipotecários praticados entre 2005 e 2007, que em fevereiro o banco espanhol Bankia anunciou o pagamento de 2 bilhões de euros a investidores prejudicados por sua gestão,  e que novas multas deverão ser pagas pelo Royal Bank of Scotland. Como escreveu o Financial Times num artigo que recapitula todas essas ruinosas trapaças: é preciso mudar as  práticas e a cultura dos bancos.  

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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