As entrelinhas da visita de Obama à Europa

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Kai Pfaffenbach/AP

Quando Obama iniciou sua primeira campanha presidencial, em 2007, a mídia europeia e americana apontou sua inexperiência internacional e seu desinteresse pela atualidade do Velho Continente.

Até então, ele só havia feito uma breve visita a Londres, embora conhecesse o Quênia e a Indonésia por razões familiares. Apoiadores de Hillary Clinton, concorrente de Obama nas primárias democratas, também sublinharam sua pouca familiaridade com a Europa ocidental, principal aliada dos Estados Unidos. No decurso dos dois mandatos do presidente americano, marcados por numerosas viagens à Europa e reuniões com dirigentes europeus, o quadro mudou bastante.

Agora, na sua viagem ao Reino Unido e à Alemanha, Obama foi acolhido com grande simpatia e mesmo com entusiasmo pelos setores favoráveis à consolidação da UE (União Europeia).

De fato, em Londres, há dois meses do referendo que decidirá sobre a saída do Reino Unido da UE --chamado de Brexit--, Obama manifestou-se sem ambiguidade em favor da permanência dos britânicos na UE.

No meio de uma campanha pelo referendo que divide e acende a opinião pública, a intervenção de Obama foi muito mal recebida pelos partidários do Brexit. O semanário conservador The Spectator, favorável à saída da UE, classificou de "arrogante" a intervenção de um presidente que se acha "King Barack".

Um dos líderes do Brexit, o prefeito de Londres Boris Johnson, foi menos sutil ainda. Alegando que Obama nutria sentimentos antibritânicos, Johson atribui o fato à sua ascendência "meio queniana" (o Quênia, onde nasceu o pai do presidente americano, foi colônia britânica até 1963).

Prevendo esse tipo de reação, Obama situou o debate numa perspectiva mais elevada. Referindo-se aos soldados americanos mortos na Primeira e na Segunda Guerra para defender o Reino Unido e as outras democracias europeias, Obama escreveu num artigo publicado no "Telegraph" no dia de sua chegada à Londres: "as dezenas de milhares de americanos que repousam nos cemitérios europeus são um testemunho silencioso de quanto a nossa prosperidade e segurança estão verdadeiramente interligadas".

Em Hannover, na Alemanha, onde se encontrou com Angela Merkel, mas também com o presidente francês François Hollande, com Mateo Renzi, o primeiro-ministro italiano e David Cameron, o chefe do governo britânico, Obama exortou novamente os europeus a manterem-se unidos.

"Se uma Europa unificada, pacífica, liberal, pluralística e com uma economia de mercado começa a duvidar dela mesma … ela estará empoderando os que argumentam que a democracia é inviável".

Comentando o discurso, o "Guardian" observou: "foi uma fala elogiosa [para os europeus] e havia bastantes clichês, mas ninguém melhor que Obama para elevar um clichê ao seu mais alto nível".

Deixando de lado a ironia, o editorial do jornal londrino sublinha que, apesar de ter privilegiado desde seu primeiro mandato o eixo EUA-Ásia, Obama acabou percebendo que Washington não pode negligenciar um Oriente Médio caótico ou uma Europa periclitante.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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