Brexit: o fantasma do Império Britânico

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

A decisão do eleitorado britânico de sair União Europeia (EU) continuará provocando vagas de choque por muito tempo. Há dezenas de opiniões e análises interessantes sobre as razões e as consequências do voto no Brexit. 

Manipulado por demagogos xenófobos e proposto por David Cameron na presunção de que o Brexit seria derrotado, o referendo trouxe muitas surpresas. Os perdedores ficaram perplexos, mas os vencedores estão começando a ficar assustados, como o demonstra o movimento em favor de um novo referendo. Confirmando que muitos votaram sem refletir, os dois temas mais procurados nos últimos dias no Google no Reino Unido são: "O que é a UE?" e "O que significa deixar a UE?" 

Um esclarecedor estudo de Will Davies, da Universidade de Londres, observa que o voto no Brexit tem raízes na crise dos anos 1970, na desindustrialização causada pela perda de competividade inglesa. Junto com outros autores, Davies mostra que muitos setores beneficiados por polpudas subvenções europeias, sobretudo na agricultura, votaram pelo Brexit. Ou seja, o voto vencedor no referendo captou um descontentamento social e identitário que tem pouco a ver com o funcionamento da UE. Para achar uma comparação na história brasileira recente, seria como se, em 1993, irritados com a inflação de 2.477% que assolava o país, os eleitores tivessem votado pela instauração da monarquia. 

É preciso observar que, mesmo cheio de reticências, o Reino Unido permaneceu 43 anos na União Europeia (UE). No meio tempo operou-se uma grande imbricação institucional, econômica e social entre os britânicos e o continente. Londres terá de negociar um divórcio e, logo em seguida, um "recasamento" comercial com os países membros da UE, destino de 44% de suas exportações. Acresce que os dirigentes europeus, para desestimular iniciativas similares em outros países da UE, não vão dar moleza para o Reino Unido.

A propaganda em favor da saída da UE usou abundantemente citações de Churchill que estimulavam o nacionalismo britânico na luta contra Hitler. Professora de história internacional na Universidade de Oxford, Margaret MacMillan observa que a campanha do Brexit foi também alimentada pela nostalgia da perda do império – que Churchill exaltava em seus discursos pronunciando gostosamente "the British empiiire!" – e pela diminuição do prestígio internacional britânico.

Na verdade, além de gerar uma ideia equivocada sobre a influência internacional do país, a época imperial deixou outros problemas para o Reino Unido. Parte dos problemas imigratórios que o Reino Unido conhece, e que pesaram bastante no Brexit, vem justamente dos desequilíbrios criados no Médio Oriente pelos imperialismos britânico e francês.

Graças à imensidade dos territórios coloniais britânicos na América, na Ásia e na África, o inglês tornou-se a língua dominante mundial. Em todos os cantos do planeta, mas também na Europa de Leste, principalmente na Polônia, de onde saem muitos imigrantes para o Reino Unido, o inglês tornou-se a língua mais usada depois da língua materna. Boa parte desses imigrantes asiáticos, africanos e europeus continuarão se dirigindo para o Reino Unido. Com Brexit ou sem Brexit.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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