Sistema Galileo, semelhante ao GPS, é vitória europeia na Terra e no céu

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Stephane Corvaja/ ESA/ AFP

    17.nov.2016 - Foguete Ariane 5 com quatro satélites do sistema Galileo é lançado em Kourou, na Guiana Francesa

    17.nov.2016 - Foguete Ariane 5 com quatro satélites do sistema Galileo é lançado em Kourou, na Guiana Francesa

Na última quinta-feira (15), a União Europeia (UE) alcançou uma grande vitória: Galileo começou a operar. Sistema de geolocalização similar ao GPS americano ou, numa escala mais modesta, ao sistema de navegação russo Glonass, ao chinês Beidou e ao indiano IRNSS, que começará a funcionar numa escala regional em 2017, Galileo atravessou muitas dificuldades antes de se instalar no espaço. Além de várias outras vantagens, Galileo tem uma precisão dez vezes melhor que o GPS no solo, ou seja, menos de um metro contra dez metros.

Desde o lançamento do projeto, em 1999, os Estados Unidos começaram a questionar a iniciativa. Depois do atentado de 11 de setembro de 2001, as pressões americanas aumentaram. Em dezembro do mesmo ano, o então vice-ministro da Defesa dos Estados Unidos, Paulo Wolfowitz, enviou uma mensagem aos ministros de Defesa da UE externando "preocupações" sobre as interferências que Galileo poderia ter sobre o GPS militar americano (que é criptografado) no caso de operações militares da Otan.

A intenção do Pentágono de obstruir o acesso ao GPS civil durante a invasão do Iraque em 2003, para impedir sua utilização pelos inimigos, como já ocorrera na guerra do Kosovo (1999) e na guerra do Kuait (1998-1999), mostrou a vulnerabilidade da Europa e do resto do mundo ao controle dos Estados Unidos sobre o sistema de geolocalização americano que também orienta as atividades civis do planeta inteiro.

A UE decidiu então acelerar a preparação de Galileo. Porém, no interior da UE, havia divergências. Enquanto a França e a Alemanha apoiavam o projeto, o Reino Unido, a Holanda e outros países mais próximos dos Estados Unidos exprimiam suas reservas. No meio tempo as tensões diminuíram facilitando o entendimento entre europeus e americanos. Em 2004, as duas partes negociaram um acordo de compatibilidade entre os dois sistemas de navegação. Ainda houve problemas entre os europeus a respeito da participação de cada país na construção e no financiamento dos 30 satélites que estarão girando numa órbita situada a 23 km da Terra em 2020.

Desde o dia 15 de dezembro, com 15 satélites já lançados, Galileo orienta alguns milhares de motoristas. Por enquanto, só os proprietários do smartphone Aquarius X5 Plus, da empresa espanhola BQ, que tem um chip compatível com o GPS, podem utilizar Galileo. Mas os administradores europeus contam com o aperfeiçoamento e a extensão do sistema. No médio prazo o objetivo é assegurar a independência da UE e incorporar os serviços ligados aos sistemas de posicionamento por satélite que representam atualmente 10% do PIB europeu e corresponderão a 30% do PIB em 2030. Sem contar com os serviços existentes e em desenvolvimento noutros lugares do mundo.

Galileo consolida vários desafios. Num momento em que no Brasil e em vários países do mundo, a começar pelos Estados Unidos, a intervenção do Estado na economia é vilipendiada e considerada obsoleta, deve ser registrado que o financiamento dos 13 bilhões de euros investidos em Galileo provém do orçamento público da UE. Mas é sobretudo a independência estratégica da UE, prelúdio de um futuro sistema de defesa europeu autônomo com relação aos Estados Unidos, que suscitará restrições entre os americanos e, sobretudo, na administração Trump. Talvez um twitter do futuro presidente escancare, desde logo, a rivalidade entre europeus e americanos no espaço.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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