No pós-Brexit, França pode reduzir domínio linguístico e geopolítico do Reino Unido

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

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Com a oficialização do processo de saída do Reino Unido da União Europeia, assinado hoje pela primeira-ministra Theresa May, começam a aparecer os efeitos concretos e por vezes inesperados do Brexit.

Segundo uma fonte diplomática citada pelo jornal londrino The Independent, o francês Michel Barnier, chefe da equipe da UE que negociará o Brexit com o Reino Unido, exigirá que sua língua materna seja utilizada como idioma de trabalho nas reuniões e nos documentos elaborados pelas duas partes.

Embora uma porta-voz da UE afirme que nenhuma decisão foi tomada sobre este ponto, e que o próprio Barnier tenha dito no ano passado que se entenderia com Londres a respeito da língua a ser utilizadas nas negociações, a equipe de especialistas europeus coordenada por ele para tratar dos trâmites do Brexit fala predominantemente francês em suas reuniões.

O fato chama atenção por causa da situação paradoxal criada pelo Brexit: após a saída do Reino Unido, não haverá nenhum país da UE cuja língua oficial seja o inglês. De fato, os dois outros países anglófonos, a Irlanda e Malta, ao aderir à UE optaram por sua língua nacional, respectivamente o gaélico e o maltês.

É quase certo que o inglês continuará sendo utilizado como língua de trabalho na UE. A maioria dos dirigentes e parlamentares europeus fala inglês, língua que é utilizada na generalidade das instâncias da UE, e mesmo nas discussões entre seus dois principais fundadores, a França e a Alemanha. Cabe também notar que a eliminação do inglês como língua de trabalho complicaria mais ainda os serviços de tradução da UE --um dos maiores do mundo--, que já contam com 5.100 tradutores e intérpretes.

A partir do século XVII o francês começou a substituir o latim como língua de trabalho e de referência nas reuniões entre os países europeus e nos documentos diplomáticos. Esta dominação linguística durou até o fim da Primeira Guerra, e mais precisamente até o Tratado de Versalhes (1919) que selou o fim da guerra.

Fazendo cessar a exclusividade da língua francesa nos tratados internacionais, observada desde 1714, os documentos do Tratado de Versalhes tiveram versões oficiais em francês e inglês. Daí para frente, o inglês acentuou sua predominância na Europa e no resto do mundo. A descolonização do pós-guerra e a emergência de países de fala inglesa na África e na Ásia, assim como a expansão da cultura americana, consolidaram a hegemonia do idioma.

Resta que o Brexit criou uma situação mais favorável à afirmação do francês como língua internacional. Dentre as 23 línguas oficiais restantes da UE, as faladas em mais países do mundo, como língua materna ou segundo idioma, são, o francês (51), o espanhol (31), o alemão (18) e o português (12).

O francês e o espanhol são também duas das seis línguas oficiais da ONU (junto com o inglês, o árabe, o chinês e o russo). Porém, a França tem um trunfo suplementar sobre Espanha,  Alemanha e Portugal na medida em que passará a ser o único país da UE com o estatuto de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU.

Antes do Brexit, o Reino Unido, também membro permanente do Conselho de Segurança, equilibrava o peso da influência internacional da França no seio da UE. No pós-Brexit, o desequilíbrio geopolítico em favor da França terá consequências na UE. E não apenas no plano linguístico.

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Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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