Angela Merkel e uma política alemã mais discreta

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Markus Schreiber/AP

Nos últimos vinte anos, a história da Alemanha reunificada conheceu várias peripécias. Em novembro de 1989, duas semanas apenas após a queda do Muro de Berlin, Helmuth Kohl, chefe do governo da Alemanha ocidental, deu um grande passo à frente.

Agindo sozinho, sem discutir o tema com sua base parlamentar e, mais grave ainda, com seus aliados europeus, Kohl propôs um plano em dez pontos para reunificar as duas Alemanhas. Margareth Thatcher, então primeira-ministra britânica, e François Mitterrand, presidente da França, expressaram sua insatisfação.

Conversas privadas entre os dois líderes, cujo teor foi revelado em 2009, revelaram que Thatcher e Mitterrand ficaram bastante alarmados. Ambos tinham más lembranças da Alemanha nazista e temiam que a reunificação fizesse renascer o expansionismo alemão na Europa. Mitterrand chegou a dizer para Thatcher que a Alemanha reunificada poderia ser mais impetuosa ainda do que no tempo de Hitler.

Anos depois, em abril de 2013, no auge da crise financeira na Grécia e do arrocho da União Europeia, e da Alemanha, sobre o governo de Atenas, voltou-se a fazer, de maneira muito menos discreta e muito mais radical, a aproximação entre a nova Alemanha reunificada e seu passado tenebroso.

Em Atenas, manifestantes brandiram cartazes com o rosto de Angela Merkel caricaturado com o bigode de Hitler. Na mesma época, governo grego encaminhou ao governo alemão um pedido de indenização pelas destruições e atrocidades que as tropas nazistas haviam cometido na Grécia durante a guerra. Tais incidentes consternaram muitos alemães sinceramente engajados no projeto de uma Alemanha e de uma UE pacíficas e prósperas.

Esses episódios, e as dificuldades para a formação do novo governo alemão, que se arrastam há cinco meses e estorvam a liderança de Angela Merkel na UE, levaram os dirigentes do país a assumir um papel mais judicioso.

Numa entrevista recente, Olaf Scholz, prefeito de Hamburgo, membro destacado do partido social democrata (SPD) e provável ministro de Finanças do governo de coalizão que dirigirá o país, deu sinais que a Alemanha agirá com mais discrição na UE.

Numa óbvia alusão às exigências impostas pelo governo de Berlim à Espanha, Portugal e Grécia na crise econômica que afetou os três países, Scholz disse que a Alemanha "não tem que ditar aos outros países europeus como eles devem ser governados".

Na mesma perspectiva, sem citar Wolfgang Schäuble, o precedente ministro de Finanças, democrata cristão, que durante oito anos foi o principal promotor da austeridade econômica na UE, Olaf Scholz declarou: "certamente foram cometidos erros".

No jornal norte-americano The Washington Post, Rick Noack, correspondente em Berlim, faz um balanço dos altos e baixos do prestígio alemão na Europa nos anos recentes.

É interessante observar, que os próprios alemães estão convencidos que seu país não deve se arvorar em líder na UE ou do mundo livre. Assim, uma sondagem recente, mostrou que 52% dos alemães consideram que seu país deve ter um papel mais discreto na UE.

Resta que outra sondagem, da Gallup, realizada no mês de janeiro, com amostragem em 134 países, indica que a Alemanha ocupa agora o primeiro lugar nas lista dos países líderes globais, na frente dos Estados Unidos, da China e da Rússia.  

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

UOL Cursos Online

Todos os cursos