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Entre avanços e recuos, Europa se anima com a Grécia e se preocupa com a Itália

19.jun.2018 - Merkel e Macron durante encontro em Meseberg, na Alemanha - REUTERS/Hannibal Hanschke
19.jun.2018 - Merkel e Macron durante encontro em Meseberg, na Alemanha Imagem: REUTERS/Hannibal Hanschke
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

23/06/2018 12h45

Numa época de rupturas de pactos, guerras tarifárias e ultranacionalismo, a União Europeia (UE) deu dois pequenos passos adiante na afirmação do euro e do espaço econômico europeu. Na última quarta-feira (20), reunidos em Meseberg, perto de Berlim, Angela Merkel e Emmanuel Macron fizeram propostas conjuntas para a economia da UE. Em acordo com o presidente francês, a chefe do governo alemão apoiou o projeto de criar um orçamento comum da zona euro e um Fundo Monetário Europeu.

Tais medidas facilitarão a resistência do euro aos choques financeiros, os investimentos públicos e a convergência das economias dos países da zona euro. A outra novidade promissora para a Europa foi o acordo entre o FMI e a UE para cessar a tutela financeira e reestruturar a dívida da Grécia. A partir de agosto, a dívida grega, que corresponde a 178% do país, será aliviada, dando mais margem de manobra ao governo grego.

A Grécia ainda não se recuperou do impacto da crise iniciada em 2010. Há ainda desemprego e centenas de milhares de gregos só obtiveram empregos temporários com baixos salários. Mas o PIB grego cresceu 1,4% em 2017 e 2,3% nos três primeiros meses deste ano, configurando a mais alta taxa de crescimento anualizado da última década.

Depois da recuperação da Irlanda, de Portugal e da Espanha, a Grécia é assim o quarto dos cinco países do grupo dos PIIGS (acrônimo pejorativo criado para designar os países mais vulneráveis da zona euro) a sair do sufoco econômico e financeiro.

Resta o caso do quinto PIIGS, a Itália, recentemente agravado com a posse de um governo hostil às instituições europeias. Tomada isoladamente a Itália parece estar numa situação menos grave que a da Grécia, na medida em que a dívida pública do país representa 131% do PIB. Mas o problema ganha toda sua dimensão quando se toma em conta que a Itália é a terceira economia da zona euro. 

Acresce que o homem forte do governo italiano, o ministro do Interior Matteo Salvini, dirigente da Liga, multiplica declarações xenófobas e anti-UE. Assessorado por conselheiros favoráveis a um "Italixit", isto é, à saída da Itália da zona euro, Salvini declarou ao semanário alemão Spiegel: "veremos no ano que vem se a Europa unificada continuará a existir". Na circunstância, Matteo Salvini se referia às suas exigências para a flexibilização das regras orçamentárias europeias, como também à falta de solidariedade dos outros países da UE com a Itália no caso do afluxo de refugiados e imigrantes que desembarcam no país.

Na reunião de cúpula franco-alemã em Meseberg, referida acima, Angela Merkel e Emmanuel Macron propuseram um reforço das fronteiras externas da UE e a criação de um órgão europeu destinado a harmonizar a legislação e as práticas europeias de gestão dos pedidos de asilo. Resta saber quando e como tal política entrará em efeito. No meio tempo, as tensões intra-europeias a respeito da crise dos refugiados se acentuam. 

Como lembrou a revista Economist nesta semana, a exploração populista do tema da imigração legal ou ilegal explica, em boa medida, a vitória do Brexit e a eleição de Donald Trump. Haverá um terceiro desastre desta natureza no próximo ano, quando Salvini e seu governo preparem o Italixit?

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