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Plano para implementar Brexit vira barraco em Salzburgo

A primeira-ministra britânica, Theresa May - Joel Rouse/Reuters
A primeira-ministra britânica, Theresa May Imagem: Joel Rouse/Reuters
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

21/09/2018 22h33

Salzburgo é uma cidade histórica austríaca. Ali nasceram o compositor Mozart e o maestro Karajan. A tradição citadina de música clássica é constantemente renovada em festivais, concertos e óperas.

Todavia, apesar da tradição musical, da bela paisagem e do clima agradável deste final de verão, a conferência de cúpula da União Europeia (UE), realizada na cidade nesta quinta-feira (20), acabou mal.

Sucede que a primeira-ministra britânica, Theresa May, recebeu uma resposta negativa, beirando a indelicadeza, ao apresentar seu plano para implementar o Brexit. May não esperava por isso. Daí a expressão que pontuam as manchetes dos jornais britânicos: "A emboscada de Salzburgo".

Segundo fontes autorizadas, numa reunião fechada, o presidente francês, Emmanuel Macron, foi intratável na rejeição do plano de May e afirmou que os líderes do movimento pelo Brexit haviam mentido aos eleitores ingleses: "Quem disse [durante a campanha pelo Brexit] que era fácil viver sem a Europa, que tudo daria certo e que [o Brexit] traria muito dinheiro de volta...[para o Reino Unido] mentiu". Em outras palavras, a cúpula de Salzburgo terminou num barraco.

Nas complexas relações anglo-francesas, os ingleses detestam receber lições de democracia, sobretudo dos franceses, que conheceram dois séculos e meio (de 1789 até 1961) de revoluções, golpes e tentativas de golpe muitas vezes sangrentas.

Ao passo que os ingleses se orgulham de suas duas revoluções no século 17 que criaram, em 1689, a primeira monarquia constitucional do mundo. 

Concretamente, a primeira-ministra britânica volta para Londres mais enfraquecida. De fato, Theresa May havia elaborado, no começo de julho, um programa que seguia uma via moderada para o Brexit.

Intitulado "plano de Chequers" (nome de uma das residências do governo), o programa desagradou os parlamentares conservadores partidários de uma ruptura radical com a UE.

Na sequência, dois ministros importantes desta ala do partido conservador pediram demissão do governo. Na circunstância, Theresa May esperava receber em Salzburgo o apoio dos líderes da UE ao plano de Chequers.

Com isso poderia consolidar sua autoridade sobre sua base parlamentar e tranquilizar a opinião pública britânica.

Mas o fiasco de Salzburgo e o desmonte do plano de Chequers, que o polonês Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, considera agora enterrado, abalaram o governo britânico.

Theresa May se prepara para encarar os setores de seu partido que se opunham ao plano de Chequers, tido como uma traição aos eleitores que optaram majoritariamente em favor do Brexit.

O pomo da discórdia em Salzburgo foi a questão irlandesa. 

No desdobramento do Brexit, a UE propôs para a Irlanda do Norte, parte integrante do Reino Unido, uma solução diferenciada.

Saíam a Escócia, o País de Gales e a Inglaterra, mas a Irlanda do Norte permanecia integrada à República irlandesa numa união comercial e alfandegária sob a égide da UE. A primeira-ministra recusou, alegando que tal solução iria "desagregar" a economia e o quadro constitucional britânico. 

Como em muitos divórcios, os dois lados acham que têm razão. Resta que foram os britânicos que pediram para sair da UE. Como em todo divórcio, quem decidiu pular fora fica numa situação desfavorável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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