Atribulações dos chineses fora da China

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Reuters

    Trabalhador inspeciona carros importados no porto de Qingdao, na China

    Trabalhador inspeciona carros importados no porto de Qingdao, na China

No romance As atribulações de um chinês na China (1879), Jules Verne narra as encrencas de Kin-Fo. Rico negociante de Xangai, Kin-Fo investiu sua fortuna num banco da Califórnia.

Mas o banco se meteu em aventuras que abalaram a fortuna de Kin-Fo e transformaram sua vida num caos. Jules Verne, ilustrador do expansionismo ocidental, marcava no romance o primeiro contato dos chineses com o capitalismo americano.

Nas últimas décadas, as economias da China e dos Estados Unidos se imbricaram num grau inédito. Agora, o governo Trump inverte o movimento e inicia um confronto tarifário que abre a guerra comercial sino-americana. Como na estória de Kin-Fo, as peripécias da economia americana vão transformar a vida dos chineses num caos?

Não dá para saber ainda. Porém, a China já sofre o impacto das restrições comerciais decretadas por Trump. Na última segunda-feira (24), uma tarifa de 10% sobre US$ 200 bilhões de importações chinesas se somou aos 25% que o governo americano já havia aplicado aos produtos chineses.

A China havia replicado com uma taxa de 25% sobre US$ 60 bilhões de importações americanas. Consequentemente, as indústrias chinesas tiraram o pé o acelerador. O que o governo de Beijing fará agora?

Na realidade, a China tem mais perder que os Estados Unidos. Dependentes da tecnologia americana na sua cadeia industrial, os chineses exportam mais (US$ 500 bilhões em 2017), do que importam dos EUA (US$130 bilhões).

Além disso, o montante das vendas chinesas para os EUA representa 19% de suas exportações, enquanto as exportações americanas para China se reduzem a 8% do total das exportações dos Estados Unidos. A persistência do conflito conduzirá a uma reorientação da cadeia de suprimentos chinesa.

A China deverá deslocar parte de suas indústrias para os países asiáticos ou para o México para contornar a barreira tarifária americana. Da mesma forma, Beijing ficará mais dependente de suas redes comerciais asiáticas.

Tal contexto levará a China a reforçar suas posições políticas e militares em países tributários de seus investimentos. Tais são as atribulações dos chineses fora da China no atual estágio das relações sino-americanas.

Nos últimos dias, foi anunciado que a China criará uma unidade militar antiterrorista apta a intervir rapidamente dentro e fora de seu território. A Nova Rota da Seda (NRS), combinando vias marítimas e terrestres de comércio conectando a China ao norte da África e à Europa, alterou a geopolítica chinesa.

Países-chaves para a logística da NRS, como a Malásia, o Sri-Lanka e Paquistão, são agora cruciais para os interesses chineses. Sucede que nem todos os setores desses países estão contentes com a crescente ingerência chinesa.

Recentemente, o primeiro-ministro da Malásia, Mahatir  Mohamad, que nasceu em 1925, lutou contra a ocupação japonesa e combateu o colonialismo inglês no seu país, advertiu que a NRS pode se transformar numa "nova versão do colonialismo".

Relatando o fato, o Financial Times, jornal londrino que sabe muito sobre os velhos e novos sistemas coloniais, manchetou "A China pode se tornar uma potência colonial".

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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