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Atribulações dos chineses fora da China

Reuters
Trabalhador inspeciona carros importados no porto de Qingdao, na China Imagem: Reuters
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

30/09/2018 21h16

No romance As atribulações de um chinês na China (1879), Jules Verne narra as encrencas de Kin-Fo. Rico negociante de Xangai, Kin-Fo investiu sua fortuna num banco da Califórnia.

Mas o banco se meteu em aventuras que abalaram a fortuna de Kin-Fo e transformaram sua vida num caos. Jules Verne, ilustrador do expansionismo ocidental, marcava no romance o primeiro contato dos chineses com o capitalismo americano.

Nas últimas décadas, as economias da China e dos Estados Unidos se imbricaram num grau inédito. Agora, o governo Trump inverte o movimento e inicia um confronto tarifário que abre a guerra comercial sino-americana. Como na estória de Kin-Fo, as peripécias da economia americana vão transformar a vida dos chineses num caos?

Não dá para saber ainda. Porém, a China já sofre o impacto das restrições comerciais decretadas por Trump. Na última segunda-feira (24), uma tarifa de 10% sobre US$ 200 bilhões de importações chinesas se somou aos 25% que o governo americano já havia aplicado aos produtos chineses.

A China havia replicado com uma taxa de 25% sobre US$ 60 bilhões de importações americanas. Consequentemente, as indústrias chinesas tiraram o pé o acelerador. O que o governo de Beijing fará agora?

Na realidade, a China tem mais perder que os Estados Unidos. Dependentes da tecnologia americana na sua cadeia industrial, os chineses exportam mais (US$ 500 bilhões em 2017), do que importam dos EUA (US$130 bilhões).

Além disso, o montante das vendas chinesas para os EUA representa 19% de suas exportações, enquanto as exportações americanas para China se reduzem a 8% do total das exportações dos Estados Unidos. A persistência do conflito conduzirá a uma reorientação da cadeia de suprimentos chinesa.

A China deverá deslocar parte de suas indústrias para os países asiáticos ou para o México para contornar a barreira tarifária americana. Da mesma forma, Beijing ficará mais dependente de suas redes comerciais asiáticas.

Tal contexto levará a China a reforçar suas posições políticas e militares em países tributários de seus investimentos. Tais são as atribulações dos chineses fora da China no atual estágio das relações sino-americanas.

Nos últimos dias, foi anunciado que a China criará uma unidade militar antiterrorista apta a intervir rapidamente dentro e fora de seu território. A Nova Rota da Seda (NRS), combinando vias marítimas e terrestres de comércio conectando a China ao norte da África e à Europa, alterou a geopolítica chinesa.

Países-chaves para a logística da NRS, como a Malásia, o Sri-Lanka e Paquistão, são agora cruciais para os interesses chineses. Sucede que nem todos os setores desses países estão contentes com a crescente ingerência chinesa.

Recentemente, o primeiro-ministro da Malásia, Mahatir  Mohamad, que nasceu em 1925, lutou contra a ocupação japonesa e combateu o colonialismo inglês no seu país, advertiu que a NRS pode se transformar numa "nova versão do colonialismo".

Relatando o fato, o Financial Times, jornal londrino que sabe muito sobre os velhos e novos sistemas coloniais, manchetou "A China pode se tornar uma potência colonial".