Da rota da seda ao TPP: China implementa novas redes de comércio

Luiz Felipe de Alencastro

Luiz Felipe de Alencastro

  • Han Yuqing/ Xinhua

    Imagem aérea de terminal no porto Lianyungang, na província Jiangsu, na China

    Imagem aérea de terminal no porto Lianyungang, na província Jiangsu, na China

Muitos editorialistas têm salientado a preeminência que a China ganhará no Pacífico com o abandono, pelo novo presidente americano, do Tratado de Parceria Transpacífico (TPP). Na verdade, a expansão da influência chinesa é um projeto de longo prazo com movimentos alternados que combinam as oportunidades do presente com a reconstrução das redes do passado.

Assim, os feitos do almirante Zheng He (1371-1435), comandante da frota dos imperadores Ming que navegou do Mar da China até o Oceano Índico, são evocados e adaptados às circunstâncias dos interesses de Pequim. De maneira geral, Zheng He é apresentado pelas autoridades chinesas como um comandante respeitoso da paz e do comércio entre a China e os povos asiáticos e africanos, sem projetos de conquista, ao inverso de Colombo, Vasco da Gama e outros heróis da conquista colonial europeia.

Nas regiões de presença islâmica, a religião de Zheng He, um muçulmano que falava mandarim e árabe, é salientada como prova do multiculturalismo da China. Nas suas expedições do início do século 14, Zheng He seguiu o braço marítimo da Rota da Seda, a mais antiga e mais longa rede de trocas mundiais, unindo a China à Europa. Mas o essencial do comércio e dos intercâmbios culturais e políticos se fazia pelos braços terrestres e intercontinentais da Rota da Seda, celebrizada por Marco Polo.

Implementadas por Pequim, as novas rotas da seda também combinam vias marítimas e terrestres, compondo a mais decisiva estratégia comercial e geopolítica da China desde os tempos de Zheng He. Nenhuma outra potência mundial elabora um projeto desta dimensão. Sob a iniciativa de Pequim, as novas rotas unem a China à Europa, envolvendo 60 países, entre eles a Rússia, o Irã, a Índia e o Paquistão, que representam 60% da população e 70% do PIB mundial.

No xadrez da política internacional, a China completou uma jogada altamente simbólica e proveitosa ao assumir, em agosto passado, o controle do porto grego de Pireu, porto chave do Mediterrâneo, por onde se irradiou a cultura e o poderio ateniense na Antiguidade Clássica. Em seguida, no mês de outubro, a China inaugurou o corredor econômico sino-paquistanês (CPEC). Cobrindo 3 mil km de rodovias, estradas de ferro e transporte tubular, o CPEC liga a província chinesa de Xinjiang ao porto paquistanês de Gwadar, próximo do Golfo Pérsico. Mais abaixo, perto do sudeste da Índia, a China financia o mega-projeto de expansão do porto de Colombo, no Sri Lanka, zona estratégica de todo o Oceano Índico. Outros projetos com participação chinesa ligados às novas rotas da seda estão em curso na Ásia, na Europa e no Oriente Médio.

Frente a tal desafio membros do governo Trump fizeram declarações inquietantes. No ano passado, antes das eleições presidenciais, Steve Bannon, o todo poderoso conselheiro extremista de Trump, declarou que nos próximos 10 anos haveria uma guerra entre os Estados Unidos e a China no Mar da China.  Dadas a extensão e a multiplicidade dos interesses chineses nas novas rotas da seda, um conflito armado entre Washington e Pequim não ficaria restrito ao Mar da China, como agourou Bannon.

Sinal dos tempos, no seu editorial de domingo (5), o New York Times evocou, pela primeira vez em décadas, a possibilidade de os Estados Unidos se envolverem numa guerra nuclear.

Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

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