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O fantasma da emigração e as eleições nos EUA e na Europa

17.out.2018 - Hondurenhos participam de uma caravana em direção aos Estados Unidos, atraindo novos migrantes ao longo do caminho - ORLANDO ESTRADA/AFP
17.out.2018 - Hondurenhos participam de uma caravana em direção aos Estados Unidos, atraindo novos migrantes ao longo do caminho Imagem: ORLANDO ESTRADA/AFP
Luiz Felipe de Alencastro

Cientista político e historiador, professor emérito da Universidade de e Paris-Sorbonne e professor da Escola de Economia de São Paulo - FGV. É membro da Academia Europaea.

23/10/2018 15h39

A marcha dos hondurenhos que cruzaram o território da Guatemala e agora atravessam o México para entrar legal ou ilegalmente nos Estados Unidos tomou conta da campanha eleitoral americana. Como é sabido, no próximo dia 6, a totalidade (435) dos cargos de representantes e um terço (33) de senadores serão disputados em eleições nacionais. Além disso, haverá votações para governador em 36 estados, para as assembleias estaduais e muitas outras disputas eleitorais municipais.

No Senado, o desafio para os democratas é maior, visto que 22 dos 33 cargos a serem renovados pertencem atualmente a senadores democratas. Por isso, é provável que a frágil maioria (51 dos 100 senadores) detida atualmente pelos republicanos será mantida e talvez ampliada. Nat Silver, do website FiveThirtyEight, do canal ABC News, considerado um dos mais respeitados organismos de sondagens americanos, calcula que os republicanos têm uma probabilidade de 80% de manter a maioria no Senado.

Na Casa dos Representantes o cenário se inverte, com Nat Turner apontando 86% de chances de maioria. A perda da atual maioria de deputados republicanos representará um sério embaraço ao governo e à possibilidade de reeleição de Donald Trump em 2020. Investigações, denúncias e, eventualmente a abertura de um processo de impeachment, com poucas de chances de passar no Senado, mas politicamente danoso para Trump, poderiam ser iniciadas pela maioria democrata.

Nestas circunstâncias, como analisou o New York Times, Trump e os republicanos entoaram de novo os ataques ao perigo da imigração para influenciar o resultado em seu favor, como na bem-sucedida campanha de 2016 que os levou à Casa Branca. Num ataque destituído de fundamento (“unsubstantiated charge”), expressão que boa parte da mídia americana se habitou a colar nas declarações de Trump, ele disse que “desconhecidos do Oriente Médio”, estavam andando com os refugiados hondurenhos em direção à fronteira americana.

O alarme sobre os perigos da imigração legal e clandestina foi também usado, com sucesso, na Europa, pelos partidos de direita e extrema-direita. Um dos casos mais recentes e mais emblemáticos, é o da Itália. Formado por uma coalizão entre a Liga (ex-Liga do Norte) e o Movimento 5 Estrelas, o governo italiano eleito em março deste ano é dirigido por Giuseppe Conte mas, de fato, dominado pelo ministro do Interior, Matteo Salvini, líder da Liga. Contrário à União Europeia (UE), da qual a Itália é um dos seis países fundadores, Salvini tem um discurso anti-imigrantista, com ameaça de “jogar no mar” imigrantes residentes na Itália, anti-islâmico, atacando até os ciganos italianos que ele lamentou não poder expulsar do país.

Ao contrário de sua política discriminatória, à qual a opinião pública italiana e mais geralmente europeia faz vista grossa, a bronca de Salvini e de seu governo contra a UE trouxe prejuízos imediatos. Em 2016, Salvini, num dos seus ataques mais virulentos contra a moeda única europeia classificou o euro como “um crime contra a humanidade”. Contudo, com uma dívida pública que corresponde a 131% do PIB do país, o governo italiano não pode se confrontar à UE. Assim, ontem mesmo, perante os correspondentes de jornais estrangeiros em Roma, o chefe de governo, Giuseppe Conte, declarou que “não há nenhuma chance” de a Itália sair da zona euro ou da União Europeia.

Apesar de influenciar eleições, o problema da imigração está saindo do foco das preocupações dos europeus. Uma análise do instituto de sondagem Pew Research Center, publicada ontem (22), mostra que depois do pico causado pela grande movimento imigratório de 2015, no auge da guerra civil na Síria, a porcentagem dos cidadãos preocupadas com a chegada de estrangeiros, que atingiu 76% na Alemanha, baixou agora para uma média de 23% em oito países chaves do continente: Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Espanha, Holanda, Suécia e Dinamarca. Porém, a maioria dos cidadãos europeus espera que os imigrantes aprendam a língua e os costumes de seu novo país, assim como suas instituições e suas leis.

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