Trump e Romney abrem debate sério sobre economia, mas ambos falam besteira

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Rick Bowmer/AP

    3.mar.2016 - Mitt Romney ataca Donald Trump em discurso em Salt Lake City

    3.mar.2016 - Mitt Romney ataca Donald Trump em discurso em Salt Lake City

Os debates formais entre os possíveis candidatos republicanos superaram todas as expectativas. Até os cínicos mais empedernidos não poderiam ter imaginado que os candidatos desceriam tanto e continuariam concentrados em insultos pessoais. Mas na semana passada, fora de cena, houve na verdade um debate sério sobre política econômica entre Donald Trump e Mitt Romney, que está tentando bloquear a nomeação do primeiro.

Infelizmente, os dois falam besteiras. Você está surpreso?

O ponto de partida desse debate é o desvio de Trump da ortodoxia do livre mercado sobre o comércio internacional. Ataques aos imigrantes ainda são o tema central da campanha do principal candidato republicano, mas ele abriu uma segunda frente sobre deficits comerciais, que afirma serem causados pela manipulação monetária de outros países, especialmente a China. Essa manipulação, diz ele, está "roubando dos americanos bilhões de dólares em capital e milhões de empregos".

Sua solução são "taxas compensatórias" --basicamente tarifas alfandegárias-- semelhantes às que habitualmente impomos quando países estrangeiros estão subsidiando exportações, em violação a acordos comerciais.

Romney afirma estar chocado. Em seu discurso contra Trump na semana passada, ele advertiu que se "O Donald" se tornar presidente os EUA "mergulharão em uma profunda recessão". Por quê? O único motivo específico que ele deu foi que essas tarifas "instigariam uma guerra comercial, o que elevaria os preços aos consumidores, mataria nossos empregos ligados à exportação e levaria empresários e empresas de todos os matizes a abandonar os EUA".

Isso é muito engraçado se você se lembrar de alguma coisa da campanha de 2012. Na época, ao aceitar o apoio de Trump, Romney elogiou o empresário (que já era conhecido como um "birther" [alguém que acredita que Obama não nasceu nos EUA e portanto não poderia ser presidente]), como uma pessoa com "extraordinária habilidade para compreender como funciona nossa economia".

Mas, espere, a coisa fica melhor: na época, Romney estava dizendo quase exatamente as mesmas coisas que Trump diz hoje. Ele prometeu --você adivinhou-- declarar a China uma manipuladora de câmbio, enquanto atacava o presidente Barack Obama por não fazer isso. E ele descartou preocupações sobre iniciar uma guerra comercial declarando que já estava a caminho: "É uma silenciosa, e eles estão ganhando".

Mais importante que a estranha história de Romney aqui, porém, é o fato de que sua análise econômica está toda errada. O protecionismo pode ser muito prejudicial, tornando as economias menos eficientes e reduzindo o crescimento em longo prazo. Mas ele não causa recessões.

Por que não? Uma guerra comercial não reduz o emprego nas indústrias de exportação? Sim, e também aumenta o emprego nas indústrias que competem com as importações. Na verdade, uma guerra comercial mundial, por definição, reduziria as importações exatamente na mesma medida em que reduz as exportações. Não há motivo para supor que o efeito líquido sobre o emprego seria fortemente negativo.

Mas o protecionismo não causou a Grande Depressão? Não, o protecionismo foi uma consequência da depressão, e não sua causa. Aliás, se você quiser um exemplo de uma política que realmente teve muito a ver com a expansão da Grande Depressão, seria o padrão ouro --que Ted Cruz quer restaurar.

Assim, Romney está falando besteira. E Trump também.

Cinco anos atrás, a queixa de Trump de que a manipulação cambial pelos chineses estava custando empregos nos EUA tinha certa validade --na verdade, economistas sérios defendiam a mesma tese. Mas hoje em dia a China está em grande dificuldade e tenta manter alto o valor de sua moeda, e não baixo: as reservas cambiais estão despencando diante da enorme fuga de capitais, no ritmo de US$ 1 trilhão no último ano.

E a China não é a única. Ao redor do mundo, o capital está fugindo das economias em dificuldades --incluindo, aliás, a zona do euro, que hoje tende a ter maiores superavits comerciais que a China. E grande parte desse capital em fuga está rumando para os EUA, fazendo o dólar subir e tornando nossas indústrias menos competitivas. É um problema real: os fundamentos econômicos dos EUA são bastante fortes, mas corremos o risco, na verdade, de importar fraqueza econômica do resto do mundo. Mas não é um problema que possamos abordar criticando estrangeiros que imaginamos falsamente estarem ganhando às nossas custas.

O que podemos fazer para combater a fraqueza econômica importada? Esse é um grande tema, mas uma coisa é certa: diante das pressões do exterior, e da preocupante força do dólar, o Federal Reserve realmente precisa evitar o aumento das taxas de juros. Eu já falei que Trump quer que as taxas subam? Não somente isso, mas ele é um teórico da conspiração completo, declarando que Janet Yellen, a presidente do Fed, está mantendo as taxas de juros baixas como um favor a Obama, que "quer estar fora jogando golfe daqui a um ano".

Então é isso. A boa notícia é que houve um verdadeiro debate sobre política econômica no Partido Republicano na semana passada. A má é que foi política lixo dos dois lados. 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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