Novos planos dos EUA para o Afeganistão e o Iraque

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Jim Young/Reuters

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente afegão, Hamid Karzai

    O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o presidente afegão, Hamid Karzai

Maureen Dowd está de férias hoje.

Existem muitas diferenças entre o Iraque e o Afeganistão, mas os dois países se parecem em um aspecto crítico. Em ambos, os “bandidos”, os jihadistas violentos, estão perdendo. E, também em ambos, ainda não está claro se os “mocinhos” revelar-se-ão de fato bons indivíduos.

E a grande questão enfrentada pela equipe de Obama nos dois países é: deveríamos nos preocupar com isso? Deveríamos nos preocupar com o fato de esses países serem governados por líderes decentes ou por elementos que parecem figurantes de “Os Sopranos”, traficantes e ladrões de petróleo – contanto que nós pudéssemos simplesmente bater em retirada?

Mas neste estágio nós temos que nos preocupar – e eis aqui por que.

Ultimamente, tenho lido várias análises criticando o presidente Barack Obama e o vice-presidente Joe Biden por terem atacado tão duramente a corrupção praticada pelo presidente afegão Hamid Karzai. Segundo o argumento desses analistas, Karzai é o melhor que nós conseguimos. Ele nos ajudou no nosso objetivo primário de degradar a Al Qaeda e fazer boas coisas, como escolas para garotas. É verdade que ele fraudou a sua eleição, mas Karzai ainda é mais popular do que qualquer outro indivíduo no Afeganistão e teria vencido de qualquer maneira (Mas, se isso é verdade, por que ele roubou a eleição? Deixem para lá.).

Isso ecoa as argumentações realistas ouvidas durante a Guerra Fria, questionando por que tínhamos que apoiar vários tiranos. O que ocorria dentro dos países deles não era importante, afirmava esse argumento. O que importava era o lado ao qual eles estavam aliados no campo externo na nossa grande luta contra o comunismo soviético.

A equipe de Bush adotou essa espécie de abordagem “neo-realista” para o Afeganistão. Ela não tinha o desejo de construir um Estado lá. Assim que Karzai foi colocado no poder, o presidente Bush ignorou a corrupção do líder afegão e dos seus amigos. Tudo o que a equipe de Bush desejava era que Karzai mantivesse o país unido de forma que os Estados Unidos pudessem usá-lo como uma base para perseguir a Al Qaeda no Afeganistão e no Paquistão. Francamente, essa abordagem mais discreta me pareceu bem sensata porque eu nunca achei que o Afeganistão fosse tão importante assim. Mas, infelizmente, o governo Karzai tornou-se tão podre e incapaz de atender às necessidades do povo que muitos afegãos voltaram-se novamente para o Taleban.

Assim, a equipe de Obama apresentou uma nova estratégia: nós temos que derrotar o Taleban no Afeganistão se quisermos manter a Al Qaeda sob controle lá e no Paquistão – e a única forma de fazer isso é erradicando-os das cidades e nomeando policiais, juízes e burocratas afegãos decentes – ou seja, com uma boa governança – após a retirada do Taleban. A ideia de Obama é que, até certo ponto, o idealismo é o novo realismo no Afeganistão: para protegermos os nossos interesses centrais, para atingirmos até mesmo as nossas metas limitadas de esmagarmos a Al Qaeda e os seus aliados, nós temos que fazer algo que pareça muito idealista – fornecer uma melhor governança aos afegãos.

Eu ainda gostaria que nós tivéssemos optado por uma alternativa menos intrusiva; sou um cético em relação a essa operação toda. Mas eu entendo a lógica da estratégia de Obama e, considerando essa lógica, ele teve razão ao admoestar Karzai – mesmo publicamente. Se uma governança decente é um fator fundamental para a nossa estratégia, é importante que os afegãos vejam e escutem onde nós nos situamos quanto a essas questões. Caso contrário, onde é que eles encontrarão a coragem para lutar por uma melhor governança? Nós temos que ajudar a aperfeiçoar a sociedade afegã inteira. Não se esqueçam de que o desgoverno de Karzai foi o motivo pelo qual nós estamos enviando novamente mais tropas para o Afeganistão. Karzai é tanto a causa quanto o beneficiário desse envio de tropas. Eu tenho certeza de que essa nova remessa de soldados derrotará os maus elementos mas, se os “mocinhos” não forem melhores, todo esse esforço será em vão.

Na Guerra Fria, tudo o que importava era saber se um determinado país era nosso aliado. O que importa na guerra de Obama no Afeganistão é se o povo afegão é aliado do seu próprio governo e se os integrantes do povo são aliados entre si. Só então nós poderemos sair e deixar atrás de nós algo de estável, decente e auto-sustentável.

Ao contrário do Afeganistão, a guerra no Iraque foi, no seu núcleo, sempre movida mais por idealismo do que por realismo. É uma guerra que nos foi vendida sob a alegação de que havia armas de destruição em massa no Iraque. Mas, na verdade, aquele foi um exercício raro de projeção revolucionária do poder dos Estados Unidos. O objetivo imediato era derrubar a ditadura genocida de Saddam Hussein. Mas o maior objetivo era ajudar os iraquianos a criar um modelo democrático que pudesse inspirar reformas no mundo árabe e proporcionar à juventude daquele país uma chance de um futuro melhor. Novamente, a história do Iraque está longe de uma conclusão, mas não há como não se animar com as recentes eleições naquele país e com a forma como os eleitores iraquianos apoiaram partidos multiétnicos e modernizadores.

Assim, embora Obama tenha assumido a presidência olhando tanto para o Iraque quanto para o Afeganistão como locais onde nós precisamos nos concentrar mais em proteger os nossos interesses do que em promover os nossos ideais, agora que está no poder, ele é obrigado a promover uma abordagem mais idealista para ambos os países. O mundo será um lugar melhor se essa estratégia funcionar, mas isso é algo que exigirá vigilância constante. Quando Karzai tenta acabar com uma comissão eleitoral independente, isso tem importância. Quando o primeiro-ministro iraquiano, Nouri al-Maliki, recusa-se a aceitar uma contagem de votos certificada pela Organização das Nações Unidas (ONU) que o coloca em segundo lugar, isso também tem importância.

Conforme eu disse antes, amigos não deixam amigos dirigir embriagados – especialmente quando nós ainda estamos no banco de trás ao lado de uma criança chamada Democracia.

Tradutor: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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