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Em meio a ideias intolerantes, Arábia Saudita ganha "resistência à resistência"

Reuters/Arquivo
Imagem: Reuters/Arquivo

Thomas Friedman

Em Riad (Arábia Saudita)

26/11/2015 00h01

A Arábia Saudita é um país sobre o qual é mais fácil escrever de longe, de onde você pode simplesmente criticá-lo como fonte da versão mais austera e antipluralista do Islã --cujas versões mais extremas foram abraçadas pelo Estado Islâmico. O que me confunde é quando vou para lá e conheço pessoas que realmente gosto e vejo contratendências intrigantes.

Na semana passada, eu vim para cá à procura de pistas sobre as raízes do Estado Islâmico, que atraiu cerca de 1.000 jovens sauditas para suas fileiras. Não vou fingir que penetrei nas mesquitas dos jovens barbados, impregnadas de Islã salafista/wahabista, que não falam inglês e onde o Estado Islâmico atrai recrutas --algumas das vozes mais populares no Twitter são de incendiários religiosos-- e esses líderes religiosos ainda controlam o sistema judiciário e sentenciam blogueiros liberais a serem açoitados, e que ainda estão em negação a respeito de quanto o mundo está frustrado com a ideologia que exportam.

Mas também me deparei com algo que desconhecia: algo está em agitação nessa sociedade. Esta não é a Arábia Saudita dos nossos avós. "Na verdade, não é mais nem mesmo a Arábia Saudita do meu pai --nem mesmo a Arábia Saudita da minha geração", me disse o ministro das Relações Exteriores do país, Adel al-Jubeir, 52.

Por exemplo, eu fui recebido pelo Centro Jovem Rei Salman, uma impressionante fundação de ensino que, entre outras coisas, está traduzindo os vídeos da Academia Khan para o árabe. Ele me convidou para fazer uma palestra sobre como as grandes forças tecnológicas estão afetando o local de trabalho. Eu não sabia o que esperar, porém mais de 500 pessoas compareceram, enchendo a sala, com aproximadamente metade delas mulheres, que se sentaram em seus próprios setores, trajando os vestidos tradicionais pretos.

Houve uma reação no Twitter sobre o motivo para ser dada uma plataforma a um colunista que critica a exportação pela Arábia Saudita da ideologia salafista. Mas a recepção à minha palestra (não remunerada) foi calorosa e as perguntas da plateia eram profundas e perspicazes sobre como preparar seus filhos para o século 21.

Parece que os conservadores daqui agora têm muito mais concorrência pela futura identidade do país, graças a várias tendências convergentes. Primeiro, a maioria dos sauditas em menos de 30 anos. Segundo, há uma década, o rei Abdullah disse que pagaria toda despesa para qualquer saudita que quisesse estudar no exterior. Isso resultou em 200 mil sauditas estudando no exterior atualmente (incluindo 100 mil nos Estados Unidos), e agora 30 mil estão voltando por ano trazendo diplomas ocidentais e ingressando na força de trabalho. Agora se vê mais mulheres nos escritórios em toda parte, e vários altos funcionários me sussurraram sobre a frequência com que os mesmos conservadores que condenam mulheres no local de trabalho, fazem discretamente lobby junto a eles para conseguir boas escolas ou empregos para suas filhas.

Finalmente, enquanto esse inchaço jovem explodia aqui, o mesmo ocorreu com o Twitter e YouTube --uma bênção para uma sociedade fechada. Os jovens sauditas usam o Twitter para questionar o governo e conversar uns com os outros sobre os assuntos do dia, produzindo mais de 50 milhões de tweets por mês.

O que falta é uma liderança pronta para canalizar essa energia em reforma. Aí entra o filho do novo rei Salman, Mohammed bin Salman, o vice-príncipe-herdeiro de 30 anos, que, juntamente com o príncipe herdeiro, Mohammed bin Nayef, deu início à missão de transformar a forma como a Arábia Saudita é governada.

Eu passei uma noite com Mohammed bin Salman em seu gabinete e saí de lá esgotado. Com rajadas de energia, ele expôs seus planos em detalhes. Seus principais projetos estão em um painel de governo online que exibe de modo transparente as metas de cada ministério, com indicadores de desempenho mensais sobre os quais cada ministério precisa prestar contas. Sua ideia é fazer com que todo o país esteja engajado no desempenho do governo. Os ministros lhe dirão: desde a chegada de Mohammed, grandes decisões que levavam dois anos agora levam duas semanas.

"As mudanças fundamentais são nossa dependência excessiva do petróleo e a forma como preparamos e gastamos nosso orçamento", explicou Mohammed. Seu plano é reduzir os subsídios aos sauditas ricos, que não mais contam com gás, eletricidade e água baratos, possivelmente implantar um imposto sobre valor agregado e um imposto de "pecado" sobre cigarros e bebidas açucaradas, e privatizar e cobrar impostos tanto de minas quanto de terras ociosas, de formas a gerar bilhões --de modo que mesmo se o petróleo cair abaixo de US$ 30 o barril, Riad contará com receita suficiente para continuar construindo o país sem esgotar suas economias. Ele também está criando incentivos para que os sauditas troquem empregos públicos pelo setor privado.

Segundo Mohammed, "70% dos sauditas têm menos de 30 anos e o ponto de vista deles é diferente dos outros 30%. Estou trabalhando para criar para eles um país no qual queiram viver no futuro".

Isso é uma miragem ou um oásis? Não sei. Será que produzirá uma Arábia Saudita mais aberta ou uma Arábia Saudita conservadora mais eficiente? Não sei. Mas com certeza vale a pena observar.

"Estamos sentindo um pulso como nunca vimos antes", disse Mohammed Abdullah Aljadaan, presidente da Autoridade Saudita de Mercado de Capital, "e temos um exemplo no governo como nunca vimos antes".

Resumindo: ainda há cantos sombrios aqui exportando ideias intolerantes. Mas agora eles parecem contar com uma concorrência real tanto nas bases quanto na liderança, que busca estabelecer sua legitimidade com base no desempenho, não apenas em piedade ou nome de família. Como um educador saudita me disse: "Ainda há resistência a mudanças", mas agora há muito mais "resistência à resistência".

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