Deixar a tragédia dos refugiados "quebrar" a UE sairá muito caro

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em Estocolmo (Suécia)
  • Darko Vojinovic/AP

    Mesmo com o frio, a marcha dos refugiados prossegue

    Mesmo com o frio, a marcha dos refugiados prossegue

Atualmente em seu último ano de mandato, o presidente Barack Obama está no "modo de legado". Ele tem muito para se orgulhar. Mas, se ele não quiser que suas realizações sejam enlameadas pela política externa, ele deve redobrar seus esforços neste ano para conter a crise de refugiados do Oriente Médio, antes que deixe de ser um problema humanitário gigantesco e se torne um problema geoestratégico gigantesco, que destrói o aliado mais importante dos EUA: a União Europeia.

Eu sei que colocar a "União Europeia" como tema principal de uma coluna publicada nos EUA é o mesmo que colocar um aviso de "Não leia". Talvez eu devesse chamá-la de "A União Europeia de Trump", seria mais viral. Mas, para os dois leitores que chegaram até aqui, o assunto é muito importante.

Os colapsos da Síria, da Somália, da Eritreia, do Mali, dp Chade e do Iêmen e as derrubadas da Líbia, do Iraque e do Afeganistão -sem o acompanhamento adequado de nossa parte, por parte da Otan ou das elites locais- geraram a pior crise de refugiados desde a Segunda Guerra Mundial. Essa onda de migrantes e refugiados é uma tragédia humana, e o fluxo que sai da Síria e da Líbia, em particular, está desestabilizando todos os pontos vizinhos de decência: Tunísia, Jordânia, Líbano, Turquia e Curdistão. E agora também está corroendo o tecido da UE.

Por que os americanos devem se preocupar? Porque a União Europeia é os Estados Unidos da Europa, ou seja, o outro grande centro do mundo da democracia e da oportunidade econômica. Ela tem suas deficiências militares, mas, com sua riqueza e valores liberais, a UE tornou-se a principal parceira dos Estados Unidos no combate às alterações climáticas, na gestão do Irã e da Rússia e na contenção de distúrbios no Oriente Médio e na África.

Esta parceria amplia o poder americano e, se a UE estiver mancando ou quebrada, os Estados Unidos terão de fazer muito mais ao redor do mundo e com muito menos ajuda.

Em um seminário em Davos, Suíça, patrocinado pelo Centro de Wilson, entrevistei David Miliband, presidente do Comitê Internacional de Resgate, que supervisiona as operações de socorro em mais de 30 países afetados pela guerra. Ele falou de vários pontos cruciais.

Em primeiro lugar, uma em cada 122 pessoas no planeta hoje está "fugindo de um conflito", numa altura em que as guerras entre nações "estão em uma baixa recorde", disse Miliband, ex-secretário de Relações Exteriores britânico. Por quê? Porque temos quase 30 guerras civis em curso em Estados fracos, que são "incapazes de satisfazer as necessidades básicas dos cidadãos ou conter a guerra civil".

Em segundo lugar, disse ele, no ano passado, o comitê de resgate auxiliou 23 milhões de refugiados e pessoas deslocadas internamente. Cerca de 50% dos que vão para a Europa saem diretamente da Síria e a maior parte do resto vem do Iraque, Afeganistão, Somália e Eritreia. Enquanto isso, o sistema internacional de ajuda humanitária "está sendo superado pelos números".

No ano passado, dentro do bloco da UE, houve 56 milhões de travessias de caminhões entre os países e, todos os dias, 1,7 milhão de travessias de pessoas. A manutenção da livre circulação de caminhões, do comércio e das pessoas é um enorme "prêmio econômico", mas não vai se sustentar se os países da UE se sentirem inundados por refugiados que não podem ser devidamente registrados ou absorvidos, segundo Miliband.

Cada vez mais países estão vedando suas fronteiras, e partidos contrários à imigração estão surgindo em todos os lugares. A Suécia impôs controles de fronteira, e o partido ultranacionalista Democratas da Suécia, que era marginal, tornou-se um dos maiores. Muitos na Alemanha, na Suécia e na Áustria, que aceitaram a maior parte dos refugiados até agora, querem cortar a Grécia da zona livre da UE para viagens internas sem passaporte, se a Grécia, que é a primeira porta de entrada de muitos refugiados, não for capaz de segurá-los.

Nos últimos dias, líderes nacionais e autoridades da UE advertiam que "a zona europeia livre de passaportes poderia se desintegrar dentro de semanas e gerar um risco de dissolução da União", segundo o jornal "The Guardian".

A chanceler da Alemanha, Angela Merkel, tinha boas intenções quando abriu seu país para 1,1 milhão de imigrantes árabes, africanos e afegãos, no ano passado, mas também foi imprudente de sua parte pensar que tantos imigrantes, principalmente muçulmanos, poderiam ser adequadamente absorvidos tão rapidamente na sociedade de língua alemã, em um país que levou duas décadas e bilhões de dólares para absorver os alemães orientais. A política de portas abertas de Merkel atraiu ainda mais refugiados à UE e, agora que os alemães querem interromper o fluxo, seus vizinhos não querem aceitá-los.

"Esta crise de refugiados é uma verdadeira seta apontada para o coração da União Europeia", disse Miliband. "Não há uma solução que se limite às fronteiras da Europa." Enquanto houver uma "guerra sem lei e sem fim na Síria", o fluxo de refugiados continuará, com todas as suas implicações desestabilizadoras.

Obama não causou esse problema na Síria e não pode corrigi-lo sozinho. Por outro lado, o problema não vai ser resolvido sem a liderança dos EUA. Eu compartilhei da cautela do presidente em enviar tropas à Síria. Mas agora, acredito que precisamos pensar em estabelecer algum tipo de zona de segurança dos EUA/UE /Otan dentro da Síria e da Líbia, para criar espaços onde os refugiados possam permanecer nesses países. Não é uma solução para todos os problemas, nem é livre de custos, mas deixar esta tragédia de refugiados quebrar a UE vai sair muito mais caro.

Tradutor: Deborah Weinberg

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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