Cidade do Níger é ponto de encontro de ilegais em fuga da África

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em Agadez (Níger)
  • Akintunde Akinleye/Reuters

    Imigrantes viajam com seus pertences em cima de caminhão em Agadez (Níger)

    Imigrantes viajam com seus pertences em cima de caminhão em Agadez (Níger)

É segunda-feira, e isso quer dizer dia de mudança em Agadez, a encruzilhada no deserto no norte do Níger que é a principal plataforma de lançamento de migrantes que deixam a África Ocidental.

Fugindo da agricultura devastada, da superpopulação e do desemprego, migrantes de uma dúzia de países se reúnem aqui em caravanas toda segunda-feira à noite e fazem uma corrida louca pelo Saara até a Líbia, esperando eventualmente cruzar o Mediterrâneo e chegar à Europa.

Esse encontro de caravanas é uma cena e tanto a se presenciar. Embora seja noite, ainda faz mais de 40ºC e há pouco mais que uma lua crescente para iluminar. Então, de repente, o deserto ganha vida.

Usando o serviço de mensagens WhatsApp em seus celulares, os contrabandistas locais, que são ligados a redes de traficantes que se estendem pela África Ocidental, começam a coordenar o carregamento furtivo de migrantes que estavam em esconderijos e porões por toda a cidade. Eles se reuniram durante toda a semana, vindos de Senegal, Serra Leoa, Nigéria, Costa do Marfim, Libéria, Chade, Guiné, Camarões, Mali e de outras cidades do Níger.

Issouf Sanogo/AFP
Vista aérea de Agadez (Níger)

Com 15 a 20 homens --nenhuma mulher-- amontoados na traseira de cada caminhonete Toyota, com os braços e as pernas vazando pelas laterais, os veículos surgem de becos e seguem carros-batedores que dispararam à frente para garantir que não há policiais ou guardas de fronteira que não foram subornados, à espreita.

É como ver uma sinfonia, mas você não tem ideia de onde está o regente. Afinal, todos se reúnem em um ponto de encontro ao norte da cidade, formando uma caravana gigantesca de 100 a 200 veículos --a quantidade de força necessária para afastar os bandidos do deserto.

Pobre Níger. Agadez, com seus labirintos de prédios de barro ornamentados, é um notável sítio do Patrimônio Mundial da Unesco, mas a cidade foi abandonada pelos turistas depois de ataques nas redondezas pelo Boko Haram e outros grupos jihadistas. Assim, segundo me explicou um contrabandista, os carros e ônibus da indústria de turismo hoje são utilizados na indústria da migração.

Hoje há recrutadores autônomos ligados a traficantes de pessoas em toda a África Ocidental que apelam às mães de meninos para pagar os US$ 400 a US$ 500 (R$ 1.400 a R$ 1.757) necessários para enviá-los em busca de trabalho na Líbia ou na Europa. Poucos conseguem, mas outros continuam vindo.

Akintunde Akinleye/Reuters
Imigrantes ilegais esperam para embarcar em ônibus que vão de Niamey para "centro de imigração" em Agadez

Estou no posto de controle da estrada de Agadez vendo esse desfile. Enquanto os Toyotas passam depressa, levantando poeira, pintam a estrada no deserto com surpreendentes silhuetas,

iluminadas pela lua, de rapazes de pé em silêncio na traseira de cada veículo. A ideia de que sua Terra Prometida seja a Líbia devastada pela guerra nos mostra como é desesperada a situação que estão abandonando. Entre 9 mil e 10 mil homens fazem essa viagem todos os meses.

Poucos concordam em falar, nervosos. Um grupo de rapazes muito jovens de outra parte do Níger me diz que na verdade está entrando na corrida para garimpar ouro em Djado, no extremo norte do Níger. Outros cinco são mais típicos e contam em francês com sotaque do Senegal uma história conhecida: não há trabalho na aldeia, não há trabalho na cidade, eles vão para o norte.

Akintunde Akinleye /Reuters

Assim como a revolução na Síria foi detonada em parte pela pior seca de quatro anos na história moderna do país --mais superpopulação, tensões climáticas e a internet--, o mesmo vale para esta onda migratória africana.

É por isso que estou aqui, filmando um episódio da série "Anos de Vida em Perigo", sobre a mudança climática no planeta, que será transmitida pelo canal National Geographic no próximo outono. Estou viajando com Monique Barbut, chefe da Convenção da ONU de Combate à Desertificação, e Adamou Chaifou, ministro do Meio Ambiente do Níger.

Chaifou explica que a África Ocidental sofreu duas décadas de seca intermitente. Os períodos secos levam as pessoas desesperadas a desmatar as encostas de morros para obter lenha para cozinhar ou vender, mas agora há chuvas cada vez mais violentas que lavam com facilidade o solo despido de árvores. 

Enquanto isso, a população explode --as mães no Níger têm em média sete filhos--, porque os casais continuam tendo muitos filhos como forma de seguridade social, e a cada ano mais terra fértil é comida pela desertificação.

"Hoje perdemos para a desertificação 100 mil hectares de terra arável todos os anos", diz Chaifou. "E perdemos entre 60 mil e 80 mil hectares de floresta por ano."

Como todo mundo pode lembrar, diz ele, a estação de chuvas "começava em junho e durava até outubro. Hoje temos mais chuvas fortes em abril, e você precisa plantar logo depois da chuva".

Joe Penney/Reuters

Mas então vem a seca de novo durante um ou dois meses, e depois as chuvas voltam muito mais intensas que antes, causando inundações que lavam as plantações. "Isso é consequência da mudança climática", acrescenta ele, causada principalmente pelas emissões do norte industrial, e não do Níger ou de seus vizinhos.

Segundo Barbut, da ONU, "a desertificação atua como gatilho, e a mudança climática funciona como amplificador dos desafios políticos que presenciamos hoje: migrantes econômicos, conflitos interétnicos e extremismo".

Ela mostra três mapas da África com um contorno ovalado ao redor de alguns pontos agrupados no meio do continente. Mapa nº 1: as regiões mais vulneráveis à desertificação na África em 2008. Mapa nº 2: conflitos e rebeliões por alimentos na África em 2007-2008. Mapa nº 3: ataques terroristas na África em 2012.

Os três perímetros cobrem o mesmo território.
 

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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