Opinião: O Partido Republicano acabou

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

  • Gerry Broome/AP

Esta coluna afirma há algum tempo que só há uma coisa pior que a autocracia de partido único, que é a democracia de partido único. Uma autocracia unipartidária pelo menos pode ordenar que as coisas sejam feitas.

A democracia unipartidária --isto é, um sistema bipartidário onde só um partido se interessa por governar e o outro está em constante modo de bloqueio, o que caracterizou os EUA nos últimos anos-- é muito pior. Ela não pode fazer nada grande, difícil ou importante.

Poderemos sobreviver a alguns anos desse impasse em Washington, mas certamente não poderemos suportar mais quatro ou oito anos sem que se instale uma verdadeira decadência, e isso explica pelo que eu torço nas eleições deste outono: espero que Hillary Clinton ganhe nos 50 Estados e os democratas assumam a Presidência, a Câmara, o Senado e, efetivamente, a Suprema Corte.

Essa é a melhor coisa que poderia acontecer aos EUA, pelo menos nos próximos dois anos --que Donald Trump não apenas seja derrotado, mas esmagado nas urnas. Isso teria diversas vantagens para nosso país.

Primeiro, se Hillary tiver uma vitória avassaladora, teremos a oportunidade (dependendo do tamanho da maioria democrata no Senado) de aprovar leis de bom senso sobre armas. Isso significaria restabelecer a proibição de armas de assalto, que foi aprovada como parte da lei criminal federal em 1994, mas expirou após dez anos, e tornar ilegal a compra de uma arma por qualquer pessoa na lista de vigilância de terroristas.

Não quero tocar em nenhum direito dos cidadãos contido na Segunda Emenda, mas a ideia de não podermos restringir as armas militares que são cada vez mais usadas em chacinas desafia o bom senso --mas isso não pode ser reparado enquanto o Partido Republicano de hoje controlar qualquer poder do governo.

Se Hillary vencer de maneira avassaladora, poderemos tomar empréstimos de US$ 100 bilhões com taxas de juros quase zero para reconstruir a infraestrutura nacional, para enfrentar a vergonhosa manutenção adiada de estradas, pontes, aeroportos e ferrovias com sua bitola inadequada e criar mais empregos industriais que estimulariam o crescimento.

Se Hillary vencer de maneira avassaladora, teremos a chance de criar um imposto de carbono que estimularia a produção de energia limpa e nos permitiria reduzir os impostos corporativos e pessoais, o que também ajudaria a fomentar o crescimento.

Se Hillary tiver uma vitória avassaladora, poderemos consertar o que precisa ser consertado no Obamacare, sem ter de jogar fora a coisa toda. Neste momento temos o pior dos mundos: o Partido Republicano não quer participar de qualquer aperfeiçoamento no Obamacare nem oferece uma alternativa crível para ele.

Ao mesmo tempo, se Hillary esmagar Trump em novembro, será enviada pelo povo americano a mensagem de que o jogo que ele fez para se tornar o nomeado republicano --colocando o preconceito na corrente dominante; xingamentos; insultando mulheres, deficientes, latinos e muçulmanos; reenviando postagens de grupos de ódio; ignorando a Constituição; dispondo-se a mentir e inventar coisas com uma facilidade e uma regularidade jamais vistas na campanha presidencial-- nunca mais deve ser tentado por ninguém. A mensagem do eleitor --"Vá embora"-- seria ensurdecedora.

Finalmente, se Trump presidir a uma derrota republicana devastadora em todos os ramos do governo, o Partido Republicano será obrigado a fazer o que precisava fazer há muito tempo: tirar um tempo no banco. Nesse banco os republicanos poderiam puxar uma folha de papel em branco e em um lado definir as maiores forças que moldam o mundo hoje --e os desafios e oportunidades que elas representam para os EUA-- e do outro lado definir políticas conservadoras, baseadas no mercado, para abordá-las.
Nosso país precisa de um partido saudável de centro-direita capaz de competir com um partido saudável de centro-esquerda. Neste momento, o Partido Republicano não é um partido saudável de centro-direita. É uma confusão de conservadores religiosos; homens brancos enraivecidos que temem estar se tornando uma minoria em seu próprio país e odeiam o comércio; adversários do controle de armas; pessoas antiaborto; donos de pequenas empresas contrários à regulamentação e ao livre mercado; e empresários a favor e contra o livre comércio.

O partido já se manteve unido pela Guerra Fria. Mas conforme isso desapareceu, ele só se manteve unido ao se alugar para quem quer que pudesse energizar sua base e mantê-lo no poder --Sarah Palin, Rush Limbaugh, o Tea Party, a Associação Nacional do Rifle. Mas em seu núcleo não havia um denominador comum, nem uma visão do mundo, nem um esquema conservador real.

O partido se transformou em um jardim bagunçado e malcuidado, e Donald Trump foi como uma espécie invasora que acabou dominando a coisa toda.

Os líderes do partido ainda podem se chamar de republicanos. Eles podem até fazer uma convenção com muitos balões de elefantes republicanos. Mas a verdade é que o partido acabou. Os republicanos conscientes começaram a admitir isso. John Boehner desistiu de ser presidente da Câmara porque sabia que seu grupo havia se tornado um hospício, incapaz de governar.

Uma vitória de Hillary em novembro obrigaria mais republicanos a começar a reconstruir um partido de centro-direita pronto para governar e se comprometer. E uma vitória de Hillary também significaria que ela poderia governar do lugar onde reside sua verdadeira alma política --a centro-esquerda, e não a extrema-esquerda.
Não faço previsões sobre quem vencerá em novembro. Mas certamente sei pelo que estou rezando, e por quê.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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