O que Umberto Eco faria se comandasse o mundo

Umberto Eco

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  • Peter Kollanyi/EFE

Só posso dar uma resposta polêmica sobre o que eu faria se governasse o mundo porque não há nenhuma chance de isso acontecer. Na medida em que envelheci, comecei a odiar a humanidade. Portanto, se eu tivesse um poder absoluto, deixaria que ela continuasse em seu caminho de autodestruição. Ela seria destruída e eu ficaria mais feliz.

Pessoas como eu são intelectuais: nós fazemos o nosso trabalho, escrevemos artigos, temos maneiras de protestar, mas não podemos mudar o mundo. Tudo o que podemos fazer é apoiar a política de empatia.

A chanceler Angela Merkel fez uma declaração positiva quando encorajou o povo alemão a acolher refugiados sírios. Ela mudou a imagem do povo alemão em todo o mundo --não serão mais vistos como a SS de Adolf Hitler. Isso é o que um político pode fazer.

Os jovens precisam ser ensinados a filtrar e a questionar as informações que recebem pela internet, em vez de aceitá-las pelo valor de face. É uma tarefa difícil. Eu uso a Wikipedia e sei que posso confiar nela 99% do tempo, mas as pessoas dizem na minha página que eu fui o primeiro de 13 filhos e que casei-me com a filha do meu editor. Nada disso é verdade. Até isso pode ser sujeito à manipulação. Um dos meus netos tem 15 anos e diz que muitos de seus amigos acreditam nas teorias de conspiração que leem na internet. Não há controle de qualidade, um enorme problema.

Todos os governos devem procurar melhorar a educação. Antes da Primeira Guerra Mundial, apenas cerca de 20% das pessoas na Itália tinham o primário. Hoje, o problema são as universidades. O risco é reduzirmos os requisitos para o ingresso a fim de permitir a mais pessoas o acesso ao ensino superior, mas desta forma diminuir a qualidade. Isto foi feito na Itália recentemente e foi uma tragédia. Agora, os três primeiros anos da universidade são muito fáceis, os alunos não precisam ler livros com mais de cem páginas. Quem está no poder precisa entender que você tem de ser desafiado para crescer. Quando eu estava na universidade, li milhares de páginas e não morri!

O ensino das línguas é a única coisa que eu tornaria obrigatória nas escolas. Se o conceito de Europa existe, ele se baseia no conhecimento comum da linguagem. Em dois de seus maiores países, França e Reino Unido, a maioria das pessoas parece saber apenas a sua própria língua. Não faz muito tempo, as pessoas na Inglaterra eram fluentes em latim. Há uma história de um general inglês enviado para a província indiana de Sindh no século 19, durante uma revolta. Como uma brincadeira, ele enviou um telegrama a Londres em latim dizendo "Peccavi", ou "eu pequei". O incrível não foi apenas o fato de ele fazer uma brincadeira em latim, mas que seus colegas em Londres entenderam. Meu neto está estudando grego há dois anos. Ele ainda não pode ler Homero no original, mas desenvolveu uma compreensão da civilização grega. É parte de algo chamado de "encyclios", que significa "educação circular" --de onde vem a palavra "enciclopédia".

Os homens são animais religiosos. Os cães não são religiosos. É verdade que eles latem para a lua, mas provavelmente não é por motivos religiosos. Os seres humanos têm a tendência de procurar uma razão em suas situações. Há uma bela frase atribuída a G.K. Chesterton: "Quando os homens não acreditam mais em Deus, não significa que eles não acreditam em nada, eles acreditam em tudo". O governante do mundo não pode eliminar a religião. Você pode ser ateu ou descrente, mas você tem que reconhecer que a grande maioria dos seres humanos precisa de algumas crenças religiosas.

Karl Marx disse que a religião é o ópio do povo, que mantém as pessoas tranquilas. Mas também pode ser a cocaína do povo. Ela tem uma dupla função: respondendo a algumas questões fundamentais e às vezes levando as pessoas a lutarem contra os não crentes. É uma característica da humanidade, da mesma forma que os seres humanos são a única espécie capaz de amar.

Por fim, se eu fosse governante do mundo, eu gostaria de obrigar as pessoas a ler todos os meus livros, de modo que elas se tornassem tão inteligentes quanto eu e não acreditassem que devamos ter um governante do mundo! Fico irritado com críticas positivas quando são positivas por razões erradas. E às vezes sou tocado por uma crítica negativa porque ela percebe que eu entendi algo de verdadeiro. Às vezes fico irritado com críticas negativas porque, a meu ver, são estúpidas, mas tudo bem, faz parte do jogo.

Tradutor: Deborah Weinberg

Umberto Eco

Umberto Eco é professor de semiótica, crítico literário e romancista. É autor de "O Nome da Rosa" e "O Pêndulo de Foucalt".

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