PUBLICIDADE
Topo

Na China, apps resolvem (quase) todos os seus problemas

Iwi Onodera/UOL
Imagem: Iwi Onodera/UOL

24/12/2016 09h01

É perto da hora do almoço em Xangai e Li Huanhuan está com fome.

Mas em vez de sair de seu escritório e caminhar à praça de alimentação mais próxima, ela, que trabalha em uma agência de publicidade, pega seu smartphone e usa o aplicativo Ele.me, que faz entregas de comida.

Em vários outros países do mundo, pedidos online -- especialmente para comida -- são cada vez mais comuns. E contam com uma oferta aparentemente ilimitada de apps, com finalidades variando da carona ao compartilhamento de quartos.

Mas na China o conceito atingiu outro patamar.

Se Li está atrasada para um compromisso e precisa de um táxi, ela chama um utilizando o Didi Chuxing, a versão chinesa do Uber.

Mas e se precisar de massagista, de um cozinheiro em sua casa, ou mesmo de uma babá? Assim como muitos chineses, ela recorre ao smartphone.

A demanda por apps na China é muito maior do que no Ocidente graças a uma crescente classe média tecnófila e a uma política de preços baixos do comércio.

Sem falar que o número de pessoas que pode baixar um app é crescente: os números oficiais dão conta de que, em junho 2015, o país registrava 688 milhões de usuários de internet, quase 20 milhões a mais do que em dezembro 2014. E quase 90% deles usam os celulares para acessar a rede.

Esses usuários, conhecidos na China como "O2O" (online para offline), compram produtos e serviços sem parcimônia. Segundo a empresa de pesquisas iResearch, o mercado para O2O para serviços tipo "lifestyle" movimentará US$ 240 milhões (R$ 785 milhões) em 2018, praticamente dobrando o tamanho de 2015.

"O sucesso dessa indústria é sua habilidade para oferecer eficiência e conveniência ao consumidor", diz Mark Zhang, fundador do Ele.me, um dos maiores aplicativos de entrega de comida da China.

O negócio teve início há oito anos para suprir as necessidades de estudantes da Universidade de Xangai, mas cresceu ao ponto de hoje contar com 70 milhões de usuários e atender 5 milhões de pedidos por dia.

A título de comparação, a companhia norte-americana Grubhub, dona dos apps Grubhub e Seamless, tem 7,4 milhões de usuários ativos e lida com uma média diária de "apenas" 217 mil pedidos.

Subsídios pesados, proliferação de smartphones e pagamentos online simples e seguros ajudaram o crescimento da indústria das apps de entrega na China.

Somado a isso, o país tem custos de trabalho e logísticos mais baixos do que em muitos mercados desenvolvidos, o que derruba o preço dos serviços, como explica Wan Yuche, analista de mercado da empresa China Market Research Group. O custo básico de entregas, por exemplo, é de US$ 1 (R$ 3,27).

Nos primeiros anos de desenvolvimento do mercado chinês do O2O, empresas de entrega de comida, varejo e transporte lideraram a "corrida do ouro", assim como no mercado norte-americano e europeu.

Agora, porém, mais e mais chineses querem serviços, como estética, entretenimento, viagens e mesmo a organização de casamentos online.

"Esses serviços são uma necessidade na China e a demanda é inelástica", diz Wan Yong, CEO da Ayibang, app que ajuda a encontrar domésticas, babás e removedores de mudança.

"O ritmo de vida nas grandes cidades só vai aumentar e os consumidores chineses não terão tempo para buscar esses serviços sem a ajuda de apps", completa.

Wan diz que o setor está apenas começando a amadurecer e deve crescer imensamente nos próximos dois anos.

Isso porque, na medida em que os chineses enriquecem, as empresas vão ter de refinar produtos e serviços, avalia ele.

O app Ayibang, que iniciou os trabalhos em agosto de 2013, hoje está presente em 30 cidades da China, oferecendo acesso a babás e mesmo reparos a móveis e imóveis.

E não apenas consumidores se beneficiam disso. Microempresários e autônomos também ganharam acesso mais amplo a potenciais clientes.

Ye Xiaorong, uma empregada doméstica de 43 anos de Pequim, diz que a demanda por seus serviços cresceu imensamente desde que se filiou ao Ayibang, em março.

"Antes, não tinha emprego ou salário fixo", conta Ye, que ganhava a vida fazendo bicos como mototáxi pirata na saída de estações do metrô, oferecendo corridas partindo de US$ 0,75 (R$ 2,45).

Agora, todas as manhãs, ela recebe uma mensagem com as escalas de trabalho e trabalha por pelo menos sete horas diárias.

"Isso me dá um senso de responsabilidade e um salário regular", explica a doméstica.

Já Li Huanhuan acredita que os aplicativos mudaram a maneira com que sua geração faz compras.

"Se minha mãe tivesse fome ou precisasse de roupas, ela tinha que caminhar até as lojas. Eu? Faço tudo do meu telefone", ressalta.