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Balaio do Kotscho

Medo de Lula faz Bolsonaro radicalizar; o "voto impresso" é só um pretexto

Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cumprimenta apoiadores na motociata em Florianópolis - Douglas Abreu/iShoot/Agência O Globo
Presidente Jair Bolsonaro (sem partido) cumprimenta apoiadores na motociata em Florianópolis Imagem: Douglas Abreu/iShoot/Agência O Globo
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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

07/08/2021 18h27

Passamos o ano até agora discutindo se vamos ter impeachment ou golpe, mas isso faz mal à nossa jovem democracia.

Nem uma coisa nem outra: as duas hipóteses parecem cada vez mais distantes. Mais provável, no momento, é que o Tribunal Superior Eleitoral declare a inelegibilidade de Bolsonaro pelo conjunto de 11 crimes praticados contra o Estado Democrático de Direito. Resta saber se haverá tempo para o seu julgamento antes das eleições.

Enquanto o TSE inicia as investigações no inquérito instaurado esta semana, o presidente continua viajando pelo país em sua campanha pela reeleição, colocando seu destino "nas mãos de Deus e do povo", como disse hoje em Florianópolis.

Entre uma motociata e outra, o capitão continua ameaçando o país e suas instituições, com essa história de "voto impresso auditável", apenas um pretexto para justificar o golpe de fancaria ou servir de desculpa para uma provável derrota.

Bolsonaro ataca as urnas eletrônicas, os ministros dos tribunais superiores e Lula, porque são esses os três fatores que podem impedir a sua reeleição e deixá-lo sem foro privilegiado para se defender das denúncias como um mortal comum.

"Não pensem o ladrão de nove dedos e seus amigos que vão contar os votos dentro de uma sala secreta. Não continuem nos provocando, não queiram nos ameaçar", proclamou do alto de um caminhão-palanque, após mais uma motociata, a sua principal bandeira eleitoral.

A escalada retórica do presidente coincide com a volta de Lula à disputa eleitoral, depois de o Supremo Tribunal Eleitoral anular suas condenações pela Lava Jato.

Sem que o principal inimigo tenha até agora iniciado sua campanha, o que faz Bolsonaro sair "das quatro linhas da Constituição", são as pesquisas para 2022, que a cada rodada mostram o aumento da vantagem do petista, já ultrapassando os 20 pontos.

Encurralado pela CPI da Covid e pelo Judiciário, com a economia no buraco, sem conseguir até agora apresentar um plano factível de governo para o pós-pandemia (nem antes ele tinha), Bolsonaro corre para os braços dos devotos, como se isso fosse uma demonstração de força popular.

A cada dia, o capitão vai aumentando o tom das ofensas, até xingar a mãe de Luís Roberto Barroso, o fleugmático presidente do TSE, que se recusa a entrar no bate-boca.

Sexta-feira, em Joinville, num evento com empresários, Bolsonaro disse que parte do STF quer "a volta da corrupção e da impunidade", mas negou que tenha ofendido qualquer ministro da corte. Assim somente fornece mais material para fundamentar os processos.

"Apenas falei da ficha do senhor Barroso, defensor do terrorista Cesare Battisti, favorável ao aborto, da liberação das drogas, da redução da idade para estupro de vulnerável". E advertiu a plateia: "Ele quer que nossas filhas e netas de 12 anos tenham relações sexuais sem problema nenhum".

Nunca um presidente da República tinha ido tão longe nos ataques a membros de um outro poder.

Aonde Bolsonaro quer chegar? Ao alegar fraudes numa eleição que ainda nem aconteceu, Bolsonaro segue os passos do seu êmulo republicano Donald Trump, que não se deu muito bem no ataque ao Capitólio, como sabemos, e foi obrigado pelas urnas a passar o comando do país ao democrata Joe Biden. As alegradas fraudes eram apenas uma desculpa para justificar a derrota aos seus apoiadores.

Há muito que Bolsonaro deixou de governar o país, entregue aos cuidados de seus generais e do Centrão, para se apresentar apenas como candidato.

Se pensa que é mais esperto do que Trump, pode quebrar a cara, e perder a liberdade tão clamada em seus discursos para agradar o rebanho mais fiel.

Bolsonaro é especialista em inverter o ônus da prova e acusar os adversários exatamente dos malfeitos por ele praticados à luz do dia.

É falsa a tão falada polarização em que o país estaria vivendo. Não existe polarização com um lado só, nem essa "guerra" que ele está procurando para mudar de assunto e esconder toda sua covardia.

Por mais que ele não queira, vamos ter eleições e o vencedor tomará posse no dia marcado.

O país está cansado dessa lenga-lenga golpista movida a motociatas e palavrões.

O Brasil não merece isso.

Vida que segue.