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Balaio do Kotscho

Paulo Freire, Frei Betto e eu: "Essa Escola chamada Vida", livro em um dia

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Ricardo Kotscho

Ricardo Kotscho, 72, paulistano e são-paulino, é jornalista desde 1964, tem duas filhas e 19 livros publicados. Já trabalhou em praticamente todos os principais veículos de mídia impressa e eletrônica. Foi Secretário de Imprensa e Divulgação da Presidência da República (2003-2004). Entre outras premiações, foi um dos cinco jornalistas brasileiros contemplados com o Troféu Especial de Direitos Humanos da ONU, em 2008, ano em que começou a publicar o blog Balaio do Kotscho, onde escreve sobre a cena política, esportes, cultura e histórias do cotidiano

Colunista do UOL

20/09/2021 10h55

Em 1985, Paulo Freire chamou Frei Betto para fazerem juntos um livro sobre educação popular _ mais que um novo ensaio, o testemunho de uma vida, daí o título.

E os dois me chamaram para servir de mediador da conversa para depois editar o livro.

Marcamos a gravação para um fim de semana, na minha antiga casa do Butantã.

Botei o velho gravador em cima da mesa, apertei o botão, e nada. Nenhum de nós sabia operar o aparelho (eu não usava gravador nas minhas reportagens, só um bloco de anotações).

Tivemos que esperar minha mulher, a Mara, voltar da feira para dar início ao trabalho.

Mesmo assim, encerramos o serviço antes do jantar.

O livro de 96 páginas foi produzido num único dia.

Depois, foi só degravar e editar, sem mudar uma vírgula, porque os dois falavam já com texto final, com pontuação e tudo, como se estivessem escrevendo.

A Editora Ática rodou várias edições no Brasil durante anos e o livro foi editado também em outros países (Alemanha, França e Itália, entre outros).

Mas não sobrou nenhum exemplar aqui em casa e tive que recorrer ao jornalista e professor Rodrigo Simon, meu genro, para escrever um texto sobre o centenário do Paulo Freire, que segue abaixo.

"Essa Escola Chamada Vida" ainda pode ser encontrado nas livrarias virtuais da internet, a preços que variam de R$ 29,80 (Estante Virtual) a R$ 89,00 (Amazon).

*

Por Rodrigo Simon (*)

Não fosse o Brasil governado atualmente por um grupo de pessoas sem qualquer proximidade ou interesse pelo universo da educação, estaríamos vivendo uma semana de festa. Afinal, há exatos cem anos, nascia o filósofo Paulo Freire, não apenas o maior educador brasileiro, mas um dos maiores pensadores do mundo.

Para os incautos que ainda insistem em se deixar ludibriar pelo papo furado bolsonarista e neste exato momento já sentem os dedos coçando pela vontade de dizer que Freire é o grande responsável pela fracasso (ou "fracaço", como pensaria Weintraub) da educação no Brasil, vou direto ao assunto: sugiro uma rápida pesquisa no Google (que neste domingo homenageou o educador em seu doodle) para que possam ir além da boçalidade do governo de plantão e finalmente descobrir a importância desse pernambucano que é referência para o campo da educação em todo o mundo.

Como para alguns o argumento tosco será de que a imprensa e as universidades brasileiras estão dominadas pelos comunistas, blá, blá, blá, a busca pode acontecer diretamente nos sites de Princeton, Harvard, Stanford, Yale, Cambridge, Oxford ou em qualquer uma das maiores e mais prestigiadas universidades do mundo - a gosto do freguês.

Um bom começo pode ser buscar no Google a pesquisa pesquisa que o professor Elliott Green, da London School of Economics, na Inglaterra, fez sobre os 25 livros mais citados nos estudos de ciências sociais no mundo. Um spoiler: "Pedagogia do Oprimido", mais conhecido livro de Freire, aparece em terceiro lugar entre todos, à frente de pesos pesados como "Vigiar e Punir", de Foucault, "A interpretação das culturas, clássico da antropologia", de Cliford Geertz e, bastante apropriado para o momento, "Comunidades Imaginadas", de Benedicted Anderson, para quem quiser pensar melhor sobre a bobajada das manifestações de verde e amarelo.

E para aquele que neste momento pode estar aí do outro lado da tela dizendo que não leva fé nesses estudos feitos por pessoas tão distantes, que sabe das coisas por sua própria experiência de vida, advinha quem defenderia que, sim, a experiência pessoal e a realidade local são fatores fundamentais na educação. Paulo Freire, claro.

Como já espero minha tia Cacilda, de Tatuí, me ligando para dizer que nós, da imprensa, somos manipuladores e por isso ela só acredita no que recebe nos grupos de WhatsApp da família (eu sai de fininho), já separei para ela dois livros de presente para o Natal que vem chegando.

Para evitar que ela diga que Paulo Freire é tão antigo quanto ela, e que quem sabe mesmo das coisas é o Olavo de Carvalho (vale uma busca sobre ele também nos sites das universidades), o primeiro presente será o livro do professor David Nemer, da Universidade da Virgínia (EUA). "Tecnologia do Oprimido: Desigualdades e o Mundano Digital nas Favelas do Brasil" sai em outubro aqui (Editora Milfontes) e mostra como Paulo Freire segue como grande referência intelectual para que os pesquisadores possam estudar temas tão atuais.

O segundo vai direto da minha biblioteca, já desgastado por tantas leituras, mas autografado pelo autor, que teve o privilégio de ser amigo do professor Freire: " Essa Escola Chamada Vida: depoimentos ao repórter Ricardo Kotscho, lançado em 1985 pela Editora Ática, é uma saborosa conversa de Paulo Freire e Frei Betto com o dono deste Balaio, registro não apenas de toda a genialidade de nosso maior educador, mas também de toda sua humanidade.


Como diria Ricardo Kotscho: vida que segue.

*

(*) Rodrigo Simon, jornalista, é pesquisador afiliado ao Brazil LAB da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Doutorando em teoria e história literária pela Unicamp, é mestre em letras pela Universidade de São Paulo.