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Leonardo Sakamoto

Bolsonaro abraça deputada do partido dos neonazistas alemães e excita fãs

Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

26/07/2021 15h32Atualizada em 26/07/2021 21h47

Jair Bolsonaro reuniu-se com a deputada Beatrix von Storch, vice-líder do Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita apoiado pelos neonazistas. O encontro, que não chega a ser uma surpresa dado o histórico do presidente, serviu para excitar seguidores de ambos os lados do Atlântico. E irritar a comunidade judaica brasileira.

Von Storch é neta de um dos ministros de Hitler. Pode-se argumentar que isso diz pouco porque não escolhemos a nossa família, mas no caso dela a justificativa não se aplica. Ela é conhecida por declarações xenófobas, intolerantes e racistas dadas ao longo de sua carreira política, assim como Bolsonaro.

E, assim como ele, Beatrix deseja que políticos ultraconservadores do mundo se unam para fortalecer a opressão sobre os grupos minoritários em direitos.

A diferença é que a agência de inteligência do governo alemão considerou que o Alternativa para a Alemanha é uma ameaça potencial à ordem democrática. Já o governo Bolsonaro tem realizado todo o seu potencial, sistematicamente agindo para erodir nossa democracia.

Como domina o poder federal, coisa que o Alternativa ainda está longe de fazer, o presidente brasileiro tem sequestrado instituições de monitoramento e controle, como a Procuradoria-Geral da República. E alugado os serviços daqueles que não se dobram, como o centrão no Congresso Nacional. E, com a tranquilidade que isso traz, passa o tempo insinuado que irá baixar um golpe de Estado caso as eleições não sejam do jeito que ele quer no ano que vem.

Isso sem contar que o seu Ministério da Justiça fez dossiês contra policiais e professores contrários ao fascismo. Ou seja, a Alemanha coloca em monitoramento quem passa pano para o nazismo. Aqui coloca em monitoramento quem critica o fascismo.

É interessante que Bolsonaro, que vive abrindo a boca para dizer que é amigo de Israel e dos judeus, abraça - literalmente - representantes do partido cujos lideres minimizam o Holocausto, tem o apoio de neonazistas e passam pano para Hitler. Pior, com a neta de um dos ministros do fuhrer, que provou não ter se distanciado do caminho do avô.

A imagem está repercutindo muito mal na comunidade judaica brasileira - e não apenas nas listas dos grupos mais progressistas.

O encontro de von Storch com os deputados federais Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e Bia Kicis (PSL-DF) já haviam sido criticados pelo Museu do Holocausto e pela Confederação Israelita do Brasil.

Mensagem que anima os grupos sombrios do bolsonarismo

A foto, que circula em grupos bolsonaristas mais radicais, é vista como um afago à parcela de seus seguidores que compartilha valores como o ódio a imigrantes, a negros, a judeus, a muçulmanos, à população LGBTQIA+.

"Em um momento em que a esquerda está promovendo sua ideologia por meio de suas redes e organizações internacionais em nível global, nós conservadores devemos nos unir mais e defender nossos valores conservadores em nível internacional", afirmou Beatrix von Storch no Instagram nesta segunda (26). O encontro ocorreu na semana passada, mas foi divulgado apenas hoje. A mensagem é claramente distorcida, pois ela confunde o conservadorismo com ódio e preconceito.

O Alternativa para a Alemanha estava crescendo rápido, tendência interrompida pela pandemia. Assim como Bolsonaro, eles empunharam a bandeira do negacionismo, o que os levou a conseguir adeptos no início da crise. Mas com o agravamento da situação sanitária, também perderam apoios. Isso somado às brigas internas, fazem com que estejam em uma posição de estagnação.

Um encontro como esse funciona como uma troca de apoios. Mesmo que seja criticado pela maioria das pessoas com espírito democrático nos dois países, no mundo de ambos, a exibição de interesses e alianças mútuos de governos que estão lutando contra a "repressão do isolamento social", funciona para passar a ideia de que não estão sozinho e para o fortalecimento de suas posições. Sem esquecer a cortininha de fumaça básica diante do caos que rege o país.

Ressalte-se, contudo, que a extrema direita alemã não morre de amores por Bolsonaro. Afinal, homem branco brasileiro, por lá, não é branco, mas latino. E a política de terra arrasada contra Amazônia chocou até quem não acredita em mudanças climáticas.