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Leonardo Sakamoto

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com Micareta de Blindados, Bolsonaro passa recibo de fragilidade do governo

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Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

10/08/2021 08h18

Demonstrações de força bruta, como a micareta blindada esfumacenta em Brasília, nesta terça (10), são artifícios usados por governos autoritários que sabem não contar com o amplo apoio da população. Bolsonaro atravessa a Esplanada dos Ministérios com tanques porque não consegue enchê-la com gente.

Quando convoca o "povo" às ruas, aparecem apenas os representantes dos 15% que acreditam em absolutamente tudo o que ele diz. Se isso é o bastante para tumultuar o país em uma tentativa de golpe de Estado após uma derrota eleitoral em 2022, ainda mais porque ele armou esse naco, é insuficiente para sustentar, no dia seguinte, a derrubada da democracia.

Jair conta com uma aprovação de 24% e reprovação de 51%, segundo o Datafolha, menos por suas sandices e mais por sua inação. Pragmática, grande parte da população consegue conviver bem com um doido, até com um autoritário em determinados momentos históricos, mas tem ojeriza a incompetentes.

Pois enquanto gasta tempo e energia para colocar uma impressora em cada urna eletrônica, deixa de agir para colocar comida no prato dos brasileiros. O desemprego está na casa dos 14,8 milhões, com 32,9 milhões de trabalhadores subutilizados e 5,7 milhões de desalentados - que desistiram de procurar serviço porque sabem que não vão encontra-lo. O seu mais novo projeto de geração de postos de trabalho quer melhorar a economia pagando menos para os mais jovens.

Tão patético quanto fazer uma micareta com a Marinha para pressionar o Congresso Nacional no dia da votação da proposta do voto impresso, é rebatizar o Bolsa Família de Auxílio Brasil na busca por melhorar seus indicadores juntos aos mais pobres. Bolsonaro levou a pé a proposta ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), nesta segunda (9), tentando demonstrar humildade. Tem os dias de tigrão, mas também os de tchutchuca.

Coloca "auxílio" no nome do benefício para que a população lembre-se do auxílio emergencial. Auxílio que só atingiu o valor de R$600/R$ 1200, no primeiro semestre do ano passado, por ação do Congresso. Auxílio que hoje é de fome, uma vez que seu piso de R$ 150 é insuficiente para comprar um quarto da cesta básica em São Paulo, Rio, Porto Alegre e Florianópolis, segundo levantamento mensal do Dieese.

A situação ganha ares cômicos considerando que, em 2015, o então deputado federal Jair Bolsonaro disse, em entrevista ao jornalista Carlos Juliano Barros, que quem recebe o Bolsa Família é uma pessoa inútil que produz filhos inúteis.

"O cara tem três, quatro, cinco, dez filhos e é problema do Estado, cara. Ele já vai viver de Bolsa Família, não vai fazer nada. Não produz bem, nem serviço. Não produz nada. Não colabora com o PIB, não faz nada. Fez oito filhos, aqueles oito filhos vão ter que creche, escola, depois cota lá na frente. Para ser o que na sociedade? Para não ser nada", disse. Agora, ele depende desses "inúteis" para se eleger.

Assim como conta com o esquecimento de declarações como essa, também acredita que a maioria não vai se importar com as manobras militares desta terça em Brasília. Os grupos bolsonaristas nas redes sociais e nos aplicativos de mensagens, contudo, estão em êxtase. Afinal, esse espetáculo deprimente é feito para eles.

Uma derrota no voto impresso é esperada nesta terça, o que não significa que Bolsonaro vai desistir de usar o tema para preparar terreno para a eleição do ano que vem. O caô de que vai aceitar o resultado é típico de quem não acompanhou as outras temporadas desta pornochanchada.

Com a cortina de fumaça levantada, o "distritão" e a volta das coligações proporcionais foram aprovados na comissão especial da reforma política na Câmara dos Deputados na noite desta segunda.

"Estamos acostumados a dizer que todos os sistemas eleitorais têm vantagens e desvantagens. Há uma exceção, o 'distritão', que consegue trazer apenas problemas para a democracia", afirma Fernando Neisser, advogado especialista em direito eleitoral e um dos fundadores da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep). O "distritão" tende a ser o bode na sala para abrir caminho ao retrocesso das coligações.

Jair é um ótimo animador de auditório. Como presidente, é que não deu certo.