PUBLICIDADE
Topo

Leonardo Sakamoto

Caso Hang: Em campanha, Bolsonaro mostra que empresário amigo sai no lucro

Dono da Havan, Luciano Hang, e o presidente Jair Bolsonaro                              - Reprodução/Instagram
Dono da Havan, Luciano Hang, e o presidente Jair Bolsonaro Imagem: Reprodução/Instagram
Leonardo Sakamoto

É jornalista e doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. Cobriu conflitos armados em países como Timor Leste e Angola e violações aos direitos humanos em todos os estados brasileiros. Professor de Jornalismo na PUC-SP, foi pesquisador visitante do Departamento de Política da New School, em Nova York (2015-2016), e professor de Jornalismo na ECA-USP (2000-2002). Diretor da ONG Repórter Brasil, foi conselheiro do Fundo das Nações Unidas para Formas Contemporâneas de Escravidão (2014-2020) e comissário da Liechtenstein Initiative - Comissão Global do Setor Financeiro contra a Escravidão Moderna e o Tráfico de Seres Humanos (2018-2019). É autor de "Pequenos Contos Para Começar o Dia" (2012), "O que Aprendi Sendo Xingado na Internet" (2016), ?Escravidão Contemporânea? (2020), entre outros livros.

Colunista do UOL

18/12/2021 13h24

Em plena campanha, Jair Bolsonaro vendeu a imagem de ser um presidente que demite servidores públicos para facilitar a vida de empresários amigos tomando como exemplo um caso que envolve Luciano Hang, dono da Havan. Há pouco mais de dois anos, contudo, o presidente tinha um cuidado maior em tratar da forma como dobra o Estado aos interesses de aliados. A diferença é a proximidade das eleições.

Bolsonaro atuou diligentemente desde que assumiu para sequestrar instituições de monitoramento e controle em nome de suas necessidades e as de seus parceiros. Portanto, não é surpresa que ele interfira ilegalmente. Contudo, agora há a necessidade de tornar isso público para tentar reaproximar empresários, uma vez que a economia em frangalhos por conta dos erros políticos de seu governo assustou muitos deles.

Ele afirmou, em discurso na Fiesp, nesta semana, que trocou a direção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) para facilitar a vida de Hang após a obra de uma de suas lojas ter sido paralisada no Rio Grande do Sul com a descoberta de peças de interesse arqueológico, como cerâmicas indígenas.

"Tomei conhecimento que uma obra... Uma pessoa conhecida, Luciano Hang, estava fazendo mais uma loja e apareceu um pedaço de azulejo durante as escavações. Chegou o Iphan e interditou a obra. Liguei para o ministro da pasta, né? 'Que trem é esse?', porque eu não sou tão inteligente quanto meus ministros. 'O que é Iphan?', com 'ph'. Explicaram para mim, tomei conhecimento e ripei todo mundo do Iphan", disse.

"Botei outro cara lá. O Iphan não dá mais dor de cabeça para a gente", completou.

Mas em uma de suas lives semanais, transmitida em 31 de outubro de 2019, Bolsonaro fez um discurso em que dizia não poder intervir - coisa que, agora, diz ter feito, e com gosto.

"Descobriram, ou foram plantados, dois pratos que seriam feitos por indígenas no passado. Em consequência, agora vai entrar alguns órgãos do governo, alguns órgãos... Eu não tenho ascendência, porque os diretores, o presidente, têm mandato. Porque se não tivessem, eu cortava a cabeça, cortava a cabeça mesmo. Quem quer atrapalhar o progresso vai atrapalhar na ponta da praia, aqui não. E vão analisar agora se aquela terra do Luciano Hang vai ser demarcada como terra indígena", afirmou mais de dois anos atrás.

Detalhe mórbido: "Ponta da Praia" se refere à base da Marinha na Restinga de Marambaia, no Rio de Janeiro, que teria sido usada como centro de interrogatório, tortura e execução de dissidentes políticos durante a ditadura militar.

É revoltante, mas esperada essa interferência do presidente da República. Caso a Procuradoria-Geral da República e a Câmara dos Deputados não tivessem sido sequestradas também, ele seria processado por mais um crime de responsabilidade.

Mas isso vai apenas se somar ao rol de intromissões indevidas. A situação normalizou-se a tal modo que Jair Bolsonaro vem sendo encarado como suspeito de envolvimento em qualquer escândalo assim que eles surgem. Foi assim com ação da Polícia Federal contra Ciro Gomes e com o suposto "ataque hacker" contra o ConecteSUS, que fornece o passaporte vacinal. Essa desconfiança coletiva da figura do presidente mostra o tamanho do dano do assalto bolsonarista à credibilidade do cargo.

Entraremos em ano eleitoral com duas máquinas sob o comando de Bolsonaro: a máquina administrativa, com sua capacidade de produzir bondades aos eleitores e aliados, mas também maldades - o que inclui perseguição de adversários políticos, jornalistas, artistas, movimentos sociais. Mas também a máquina do ódio, instalada em gabinete dentro do Palácio do Planalto, que usará o Telegram e o WhatsApp como espinhas dorsais de um esquema de difusão de mentiras e ódio.

Para ninguém ter dúvida disso, após a bizarra fala na Fiesp, ele foi aplaudido por um naco anacrônico do empresariado nacional.

Como já disse aqui, Jair pode até perder a eleição, mas já deixou como herança a percepção de que um governante pode sim agir como dono e não gestor de instituições que nada acontecerá com ele desde que compre deputados, sequestre instituições e faça amigos com dinheiro.