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Paulo Sampaio


Com meio milhão em bolsas de grife, brasileiro vive como VIP na Inglaterra

Israel posa para foto no quarto do hotel  - Paulo Sampaio/UOL
Israel posa para foto no quarto do hotel Imagem: Paulo Sampaio/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

23/01/2020 04h02

Esparramado no chão de uma suíte do hotel Emiliano, em São Paulo, cuja 'diária flutuante' estava em R$ 3.400 no momento da entrevista, o brasileiro radicado em Londres Israel Cassol, 38 anos, posa para fotos usando uma camisa social preta da etiqueta italiana Gucci, uma saia longa de renda "nude" produzida por uma "marca nacional desconhecida" e duas bolsas da grife francesa Hermès que, juntas, custaram 16 mil libras esterlinas - ou mais de R$ 80 mil reais, ao câmbio de hoje. "Gosto dessa coisa de misturar o chique e o simples", explica ele.

No Brasil em curta temporada, Israel trouxe de Londres apenas duas das doze bolsas de sua coleção, que vale algo em torno de meio milhão de reais. Em novembro de 2019, o tabloide inglês "Daily Mail" publicou um artigo de página inteira em que afirmava que ele é o homem com a maior coleção de bolsas da grife no Reino Unido. Chamou-o de "Birkin Boy".

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Israel, colecionador de bolsas Hermès - Mark Brown/Arquivo Pessoal - Mark Brown/Arquivo Pessoal
Essa bolsa Israel adquiriu como Special Order; a Hermès oferece ao cliente VIP o "privilégio" de escolher entre duas cores
Imagem: Mark Brown/Arquivo Pessoal

Paixão Selvagem

Birkin é o nome de uma das bolsas mais cobiçadas da Hermès. Cofeccionada à mão, em diferentes padronagens e materiais, adorna os braços de estrelas de Hollywood, socialites, celebridades da moda, milionárias de países subdesenvolvidos e personagens como Israel. O nome da bolsa é uma homenagem à atriz inglesa Jane Birkin, que formava uma dupla cultuadíssima com o compositor francês Serge Gainsbourg, seu marido por dez anos e diretor no clássico-transgressor "Je t'aime moi non plus" (Paixão Selvagem/1976). Os dois faziam um par estilo "o gênio atormentado e a diva da vanguarda".

Conta-se que em 1983, no embarque em um voo que ia de Paris para Londres, Jane Birkin tentava acomodar sua bolsa abarrotada no compartimento superior, quando parte do que estava dentro caiu no chão. Enquanto a ajudavam a recolher seus pertences, ela reclamou da falta de um modelo em que coubesse tudo o que uma mulher precisa levar. Na poltrona ao lado, observando a agitação da atriz, estava Jean-Louis Dumas, diretor executivo da Hermès, que anotou secretamente a queixa dela. Foi assim que, por determinação dele, a equipe de estilo da Hermès teria criado a Birkin Bag, que chega a ter 50 centímetros de comprimento e mais de 40 cm de altura.

A bolsa pode custar até R$ 1 milhão, quando é feita de couro de crocodilo e possui fecho de diamante, mas, mesmo para quem tem muito dinheiro, não é fácil conseguir comprá-la. O interessado precisa ser indicado por alguém, ou estar disposto a se submeter à seleção dos exigentes gerentes das lojas, que podem reprovar o potencial comprador; depois de passar por isso, a pessoa vai entrar em uma fila de espera que praticamente dá a volta ao mundo e reúne obcecados dos quatro cantos do Planeta. "É dificilíssimo conseguir uma Birkin, e mais ainda uma Constance", diz Israel, referindo-se ao outro modelo que o acompanha na foto.

Drama gay

Nascido em Caxias do Sul, filho de um pedreiro e uma dona de casa, Israel Cassol cresceu assistindo ao programa da Xuxa, começou a faculdade de fisioterapia e embarcou para a Itália em 2000, com o sonho de ser modelo e ator. Desde então, diz ele, fez "de tudo": desfilou em showrooms, estudou teatro, mudou-se para Londres com um amigo modelo, fez "presença" em feiras de moda, foi gogo-boy, se prostituiu "um pouco" ("só quando sentia atração pela pessoa"), usou drogas, teve crises de pânico e foi ator de filme erótico: "Não é pornô", ele explica. "Em Londres, eles chamam de 'drama gay'". Israel diz que, durante todos esses anos, comeu o pão que o diabo amassou. "As pessoas se aproveitaram de mim, me enganaram com convites de trabalho que na hora não era nada daquilo, exploraram meu corpo", diz.

Passou.

Israel com a primeira bolsa que ele comprou da grife Hermès: Foi dificilíssimo? - Mark Brown/Arquivo Pessoal - Mark Brown/Arquivo Pessoal
Israel e sua primeira bolsa Birkin, comprada em 2015, depois de oito meses peregrinando por diversas lojas Hermès de toda a Europa
Imagem: Mark Brown/Arquivo Pessoal

Amor desinteressado

Vivendo desde 2014 com um executivo 12 anos mais velho, "lindo, britânico, aristocrático", ele diz que a princípio resistiu aos apelos insistentes do pretendente: "Eu queria 'festiá', sair com os amigos, estava em outra", lembra. Um tempo depois, já casado, o marido foi diagnosticado com câncer no cérebro.

"Foi ali que eu vi o quanto o amava. Os médicos iam submetê-lo a uma cirurgia muito delicada, e quando o deixei no hospital, voltando para casa, chorei muito no carro. Eu me lembro até a música que estava tocando no rádio, 'The Winner Takes it All', do Abba." Israel faz questão de dizer que só se casou depois de adquirir a cidadania britânica. "Para não falarem que eu estou com meu marido por isso."

Ele conta que descobriu sua verdadeira vocação recentemente, ao assumir a personagem do "influencer" (de moda, no caso). Tudo por causa da coleção de bolsas. "Um dia, eu estava fazendo selfies com meu cachorrinho e uma das minhas Birkin na 'Joe & The Juice' (cadeia de cafés), quando, do nada, uma mulher se aproximou de mim e me perguntou se eu não me interessaria em ser influencer. Falou que a irmã dela era 'PR' (public relations) e poderia me ajudar. Eu nem sabia o que era PR. Perguntei ao meu marido. Pois essa mulher marcou meu telefone e, dois dias depois, recebi uma ligação da irmã dela, Saffron Rizzo, que se tornou minha agente."

Tapete vermelho

A carreira de influencer evoluiu rapidamente nas redes sociais. Em menos de um ano, Israel Cassol já estava sendo citado em páginas que nem imaginava frequentar. "De repente, vi minhas bolsas no 'Birkin Club for Boys', gente, olha isso. Sempre quis muito esse momento, mas sentia que não estava preparado. Minha madrinha me contou ontem, olha que loucura!, que quando eu nasci ela enterrou o meu cordão umbilical em uma roseira, para eu ser artista."

Diz ele que os paparazzi da Getty Images, um dos maiores bancos de imagens do mundo, o descobriram recentemente, no tapete vermelho do Fashion Awards. "Eu fui ao prêmio com a Carol Tozaki, sabe?, que era bailarina do Faustão. Desde então, eu percebi que cada vez em que eu aparecia de saia em um evento, era um acontecimento. Pensei: 'Peraí, é a saia!' E investi nisso."

Será que na Inglaterra eles ainda se espantam quando vêem um homem de saia? Israel: "Não é só a saia, né? É chegar bem vestido no evento, com uma maquiagem adequada, uma Birkin, isso conta muito. Eles começaram a gostar do meu estilo."

Mudanças climáticas

Mas não bastava simplesmente surgir de saia nos eventos, com uma Birkin no braço. Israel não queria parecer "apenas um fashionista frívolo". Foi quando teve a ideia de criar modelos únicos de saia, exclusivos, para mostrar que estava "atento às mudanças climáticas no Planeta". Em um deles, estampou caricaturas de personalidades envolvidas com o tema.

"Fiz uma pirâmide e coloquei no topo a rainha Elizabeth, que declarou que gostaria de plantar árvores no mundo todo; embaixo, a Gisele (Bundchen) e o David Attenborough (naturalista britânico); e, na base, o Bolsonaro com a cara do Hitler; o Putin com a bandeira gay e o Trump vestido de super-homem hahaha."

Deu ruim: "Não chegou a causar um tititi no Brasil, mas eu tive de pedir desculpas aos eleitores do Bolsonaro. Muitos me xingaram no Instagram. Gravei um vídeo em que assumia que não tinha tido um comportamento apropriado e dizia de coração aberto que 'errar é humano'."

Greta fashion?

Em uma outra criação, menos polêmica, Israel confeccionou uma saia com canudos de plástico que recolheu "pelos bares de Londres". "Quero chamar a atenção do mundo para a questão da sustentabilidade. Preciso mostrar que não sou essa pessoa superficial que muita gente acha", diz ele, enquanto ajeita no braço duas pulseiras de ouro com brilhante da grife Cartier e, na sequência, refaz o laçarote que adorna a camisa estampada Gucci (outra), na altura do pescoço.

Pergunto se ele pensa em se lançar como uma espécie de 'Greta fashion'.

Muito sério, ele responde: "Eu não quero ser a Greta, não quero ser a Costanza Pascolato, nem a Glorinha Kalil; eu quero ser o Israel Cassol."

História linda

Desde que encontrou a PR e se tornou influencer, Israel amealhou 12 mil seguidores "no mundo todo". "O Brasil começou a falar de mim. [Ele levanta um pouco a saia de couro, passa a mão na perna e diz: 'Olha só, me dá até arrepio']: Hoje eu posso dizer que tenho uma história de vida linda, de sucesso."

Não significa que a "essência" de Israel Cassol tenha mudado. "Eu sou uma pessoa muito simples, muito 'down to earth'. Detesto arrogância. Dou 'Oi' pra todo mundo, não existe aquela coisa de 'Ah, porque ela é faxineira, não vou respeitá-la.' Eu acho cafona destratar as pessoas que não têm o mesmo poder aquisitivo que eu. É deselegante. E elegância você não compra. Bolsa você compra."

Palavra de influencer.

Paulo Sampaio