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Paulo Sampaio


"Não há Rivotril que dê conta", diz mãe de cinco filhos, sobre quarentena

Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

02/04/2020 16h05

Cozinha, lava, passa, esfrega, desinfeta. Leva o cachorro para fazer cocô. Pega as compras feitas on-line na portaria. Descobre que um dos filhos contraiu o coronavírus. Aceita a chamada do chefe no aplicativo, para uma reunião de trabalho.

A quarentena imposta pela pandemia do covid-19 levou mães que dispensaram os empregados e tiveram pela primeira vez de conviver 24 horas por dia com os filhos e ainda trabalhar em regime de "home office" (de casa) ao desespero.

As que têm crianças ou adolescentes amaldiçoam o educador norte-americano John Hot, a quem se atribui a inovação do homeschooling (aprendizado em casa). Graças a ele, as lições de casa se tornaram uma tarefa a mais a ser decifrada pelos...pais.

Para lidar com a novidade do isolamento social, mulheres à beira de um ataque de nervos inauguram grupos de conversa cada vez mais populosos, onde elas desabafam, buscam acolhimento e tentam rir da situação. A coluna ouviu quatro mães nessa situação.

Em grupo, mães desabafam sobre rotina pesada na quarentena

Carla Junqueira, 42, advogada

Mãe de cinco filhos, de 13 anos, 11, 9, 7 e 1,3, Carla diz que está "surtada". Com escritório no Brasil e na Argentina, ela conta que se mudou temporariamente com o marido e os meninos para a casa de campo da família, nos arredores de Buenos Aires, mas não adiantou. Apesar de agora dispor de 600 m2 só de área construída, piscina e campo de futebol, o espaço não foi suficiente para garantir o isolamento social (dela).

"Preguei na porta bilhetinhos de 'favor não interromper', mas não adiantou", diz Carla, que no momento faz "home office" (trabalha de casa), ou, como ela prefere chamar, "hells office" (escritório do inferno).

Desabafo viralizado

Para desabafar, ela gravou áudios e vídeos que viralizaram nas redes sociais. Com um tom entre o trágico e o cômico ("o humor é o que vai me salvar nessa quarentena"), ela pede socorro às participantes de um dos grupos de mães que proliferam no whatsapp:

"Já que isso aqui é uma rede de ajuda, eu quero saber se tem mais alguém aí surtado. Eu vou ser sincera com vocês. Aqui em casa acabou! Acabou paciência, acabou serenidade, responsabilidade, acabou tudo. Não tem Lexapro, Rivotril que dê conta!"

Comercial de aspirador

Segundo Carla, os filhos em casa comem muito mais: "Se não voltarem as aulas rapidamente, vai acabar a comida do mundo! Eles querem danoninho, sucrilho, pão na chapa, gritam 'Mãe, me faz pão de queijo!' Gente, é um apetite insaciável."

Três filhos são dela com o ex-marido; um é do atual com a ex; e o menino mais novo é dos dois. "Consegui casar duas vezes com argentino, acredita?", diz ela, rindo, sem se queixar. "Brincadeira. Meu marido é super hands on (proativo), não tem nada do estereótipo do argentino milongueiro. Cozinha divinamente (eu sou um desastre no fogão), então ele faz todos os dias o almoço e o jantar. Eu dou uma geral na casa, e os meninos até que ajudam.""

Em um dos vídeos, Carla mostra o cabo do aspirador de pó sem fio, enquanto roda com ele pela casa. Fala maravilhas do modelo. Diz que, depois que o filme viralizou, a marca vendeu 50% a mais. "Não ganhei um tostão de comissão", ri.

"Outro lado"

Arturo, o filho de 13 anos, diz que a quarentena levou a mãe a criar novas regras de convivência: "No café da manhã, a gente não pode falar."

Ele reconhece que tem comido mais do que o costume ("meu padrasto vai o tempo todo no supermercado"), conta que a região está com problema de desabastecimento e que por isso "as prateleiras de bolachinhas, por exemplo, estão vazias".

Encarregado de arrumar a cama, limpar o quarto e ajudar a lavar a louça, Arturo comenta com altivez: "Não tem nada que eu nunca tenha feito."

Ana Beatriz Lobo, 44 anos, advogada

"Ultimamente, ouço mais a palavra 'mãe' do que 'coronavírus'", diz a advogada Bia Lobo, que tem um filho de 10 anos e uma menina de 3. Antes da reclusão, ela costumava contar com o suporte de uma empregada, uma babá e uma folguista (substituta da babá), nos fins de semana, de 15 em 15 dias.

Manteve a empregada, que vinha duas vezes por semana, de carro, meio período ("por opção dela"), e agora está "sem ninguém". "Não somos como os europeus e americanos, que contam com um sistema muito mais prático. Lá, as crianças ficam das 8hs as 18hs na escola, os pais saem do trabalho para buscá-los e jantam todos as 19hs.''

Para conseguir trabalhar fora aqui no Brasil, diz Bia, a mãe precisa criar uma estrutura e estabelecer uma rotina para as crianças. "Isso foi quebrado com o isolamento", diz.

Bia Lobo, o marido e os dois filhos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Bia Lobo, o marido e os dois filhos
Imagem: Arquivo Pessoal

Desde o começo da quarentena, a advogada e o marido estão trabalhando remotamente ("hells office"). O momento mais crítico do confinamento, segundo Bia, foi em um dia em que ela e o marido participavam ao mesmo tempo de reuniões de trabalho por "call" (chamada telefônica conjunta, em viva voz):

"O call era com a minha chefe e outros gerentes, por volta das 19hs, enquanto meu marido estava em outro call com a equipe dele. Simplesmente não tinha ninguém para ficar com as crianças. Elas já estavam exaustas, com fome e nos interrompiam a todo momento", lembra.

Flávia Albernaz, 46, dona de casa

Autodefinida "assessora familiar", Flávia de certa forma já estava acostumada ao convívio prolongado com os quatro filhos homens, com idades entre 19 e 9 anos. A novidade é que agora ela precisou abrir mão do "convívio" com as empregadas: "Tinha dez anos que eu não arrumava minha cama. Não sabia nem ligar a máquina de lavar", conta ela, que mora em uma casa de cinco quartos, com jardim, piscina, churrasqueira e cachorro.

Das quatro empregadas, ela dispensou três que trabalhavam em período integral, e manteve uma que quis ficar direto: "Dei um incentivo, mas ela acabou querendo ficar com a mãe e com a irmã."

Flávia, o marido e os quatro filhos - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Imagem: Arquivo Pessoal

É proibido Rappi

Flávia distribuiu tarefas domésticas entre os filhos: "Cada um agora arruma seu quarto; e um tira o lixo, o outro limpa a piscina, outro apara a grama, bem ao estilo americano. Mas tem sempre o revoltado que só acorda a uma da tarde. Esse agora não toma café, e proibi pedir comida no Rappi, porque não sei como ficaremos daqui pra frente."

A assessora familiar acredita que os filhos estão comendo "mais cheesburger do que o de costume". "Não dá para introduzir brócolis nesse momento", pondera.

Aparentemente, Flavia se livrou do "homeschooling". "Ofereci uma semanada ao meu filho de 15 anos, que é super-responsável, para ele supervisionar a lição do de 9 anos. Para você ver que alguém sempre pode ganhar na crise."

Fuga no cel

Bernado, o filho mais velho, de 19, afirma que o que deixa os pais mais tensos é o impacto que a quarentena produzirá na vida financeira deles e de quem depende deles. "Eu e meu irmão estamos mais tranquilos, tentando nos distrair jogando alguma coisa ou falando com os amigos por vídeo e mensagem."

Os avós conversam com os netos pela janela - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Os avós conversam com os netos pela janela
Imagem: Arquivo Pessoal

Vovó na janela

Uma das tarefas impostas por Flávia aos meninos é visitar os avós, que moram em apartamento — mas sem chegar perto deles. "Eles conversam pela janela", conta.

Embora se esforce para se adaptar à quarentena, Flávia diz que "não dá para virar outra pessoa". "Eu nunca fiz yoga, e não vou começar agora, como eu vejo uma porção de gente, para dizer que estou zen. Aqui não rola isso."

Marcia Mello, 55, executiva

Com a executiva do mercado de pagamentos (maquininhas de débito e crédito) Marcia Mello, 55 anos, houve um agravante. Mãe de três filhos, de 23 anos, 19 e 10, divorciada do primeiro marido, separada do segundo, ela entrou em quarentena com a notícia de que o mais velho, Guilherme, havia contraído o covid-19. Pegou de um colega de escritório.

"Assim que ouviu que o colega do meu filho estava com o vírus, a pessoa que trabalhava na minha casa mandou uma mensagem dizendo que não viria mais e que, se acontecesse alguma coisa com ela, eu seria a culpada. Informou que havia arrumado outro emprego."

Respirando fundo

O resultado do teste do filho do meio deu negativo. Faltava a menina de 10. Ela também não contraiu o vírus. "Rolou um certo pânico no início, mas, quem já passou perrengue na vida, respira fundo e pensa: 'Vai dar tudo certo!' "

E então, de uma hora para outra, Marcia estava em outro "modo": "De executiva que trabalha 12 horas por dia, entrei na função lava, passa, cozinha, limpa e desinfeta. Máscaras em todos, álcool gel, e ainda me equilibrando para não deixar o pensamento positivo esmorecer!"

Tartar de banana

Assim como Carla Junqueira, Márcia não pode mais ouvir falar em "homeschooling": "Quem inventou esse inferno? Minha pequena entrava na cozinha a todo instante, dizendo: 'Mãe, não entendi o que a professora pediu..' 'Mãe, essa conta tá certa?' 'Mãe, açúcar é com 'ss' ou 'ç'?"

Além de comer o tempo todo ("quem está em casa tem fome de hora em hora"), os filhos de Márcia ainda tinham "desejos gastronômicos": "Mãe, você bem que podia fazer picadinho com tartar de banana..."

Márcia com os filhos: Lorenzo, Pietra e Guilherme - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Márcia com os filhos: Lorenzo, Pietra e Guilherme
Imagem: Arquivo Pessoal

Tudo ótimo??

Um dia, "você está toda descabelada, suando, com a vassoura na mão, e escuta os filhos falando com o pai deles, que agora mora na França, no viva voz".

— Oi, pai, tudo bem?

— Tudo e vocês?

—Tudo ótimo..

Márcia (em pensamento): "Ótimo pra quem? Pra mim é que não é!"

Nunca é tarde

Lorenzo, o de 19 anos, percebeu que a mãe "estava se desgastando muito no processo de limpar a casa, cozinhar, lavar a roupa e arrumar tempo para cuidar de si". "Com o Guilherme (irmão mais velho) doente, ela precisou ainda mantê-lo isolado no quarto, desinfetar tudo e cuidar para que todos estivessem com máscara."

Ele afirma que "o convívio entre nós se tornou bem cansativo, mas com o tempo a gente foi se adaptando para ficar mais agradável."

Guilherme, 23, conta que não percebeu tanto o estresse da mãe, enquanto ele ficou no quarto, sem ver ninguém. "Depois que eu me recuperei, vi que ela estava muito cansada. Então, eu e meu irmão passamos a ajudar, tentando fazer menos bagunça e gerando menos lixo.""

No parecer de Guilherme, que está completamente recuperado, Lorenzo é mais desleixado. "Meu irmão costuma deixar o quarto uma zona, acho que ele não se importa muito com minha mãe, já que ela não entra ali. Mas só a ideia de saber que tem um lugar zoneado na casa já deixa ela estressada."

Ele diz que o volume de trabalho de Márcia foi reduzido, na medida que ele e o irmão passaram a ajudá-la.

Márcia e a filha Pietra, devidamente protegidas - Arquivo Pessoal - Arquivo Pessoal
Márcia e a filha Pietra, devidamente protegidas
Imagem: Arquivo Pessoal

Cocô, compras e plantas

No final da tarde, Marcia tenta abstrair, enche uma taça de vinho e... aparecem os cachorros. Querem brincar. Tem de levar também para fazer cocô. Na volta, regar as plantas. Toca o interfone, chamam para pegar as compras feitas on-line - bem no momento em que ela consegue ir ao banheiro.

"Já li a respeito da 'síndrome do ninho vazio', que é aquele momento em que os filhos saem de casa para viver a própria vida. Acho que deve ser bem melancólico. Mas agora os psicólogos precisam escrever sobre a "síndrome do ninho lotado". Vai vender horrores!

Palavra de especialista

A psicóloga Denise Pará Diniz, da Escola Paulista de Medicina, conta que registrou em seu consultório um aumento expressivo de pacientes com crises de ansiedade, em função das mudanças abruptas ocasionadas pelo isolamento social. Ela diz que a situação trouxe uma "epidemia de diagnósticos" e que o melhor é tentar simplificar.

"Existem basicamente três maneiras de enfrentar o estresse: o confronto, a adaptação e a fuga. A melhor forma, para evitar que se torne uma doença física, é tentar se adaptar."

Denise orienta a aproveitar a reviravolta repentina para operar transformações positivas. "Não está fácil para ninguém. Há situações que de fato parecem intransponíveis, como trabalhar com crianças em volta, acumular tarefas domésticas sem nenhum suporte, vencer o medo do contágio da doença e ainda ultrapassar o fantasma da ruína financeira. É muita coisa, não existe palavra mágica. Isso tudo vai ter de ser transformado. Não é para encarar como término, mas recomeço."

Ela explica que, como toda situação nova, desconhecida, não é saudável exigir 100% de si (um dos sintomas da ansiedade): "Não dá para achar que se consegue a meta máxima logo de saída. Ninguém vai passar por tudo isso, e ainda sair cantando", explica.

Paulo Sampaio