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Paulo Sampaio


Paulo Sampaio

Para médica Nise Yamaguchi, comunidade científica conspira contra a vida

Em casa, no dia da entrevista - Fernando Moraes/UOL
Em casa, no dia da entrevista Imagem: Fernando Moraes/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

19/07/2020 04h00Atualizada em 21/07/2020 08h26

Não é pouca gente. Quando a oncologista Nise Yamaguchi fala da resistência dos médicos ao uso de hidroxicloroquina na prevenção e tratamento da covid-19, ela se refere aos mais importantes pesquisadores da comunidade científica do mundo. Para ela, a recusa em recomendar e divulgar o medicamento estaria ligada a "interesses escusos" de líderes empenhados em uma conspiração contra a vida.

Por trás do "ataque à cloroquina", haveria uma competição entre grandes potências pela dominação do Planeta. "Envolve geopolítica", diz Nise, 61, em entrevista concedida na quinta-feira em sua casa. "Há uma série de fatores que levam à tentativa de enfraquecer as populações, deixando que morram. Se um país colapsa, e se ajoelha, perde a capacidade de produção. Eu luto para que o Brasil se fortaleça, que sobreviva a essa guerra."

Culpa da esquerda

Segundo a médica, "dois partidos de esquerda" estariam particularmente empenhados nesse enfraquecimento.

Quais?

"Aí, você vai ter que descobrir."

Digo que ela deve estar falando do PT e do PSOL. Ela ri.

Mas por que esse interesse em enfraquecer o próprio país? "Talvez por não perceberem o nosso valor. Existe uma síndrome de vira-lata. As pessoas ainda pensam a favor de outras hegemonias, não trabalham do lado do nosso povo..." A resposta soa descabida.

Muito preparada

Ao expor suas teorias conspiratórias, Nise o faz com uma expressão enigmática, impenetrável, que parece propositalmente forjada para deixar o interlocutor admirado com o alcance de seu raciocínio.

"Sou muito preparada", avisa. "Falo quatro línguas, morei na Alemanha, na Suíça, pratiquei vários esportes, toco piano e ouço ópera desde os três anos. Fui convidada para trabalhar em diversos países...era para eu estar nos Estados Unidos."

Ela afirma ainda que é diretoria da Associação Brasileira de Mulheres Médicas e da Business Professional Women's Foundation, e conselheira da Associação Paulista de Medicina. "Não sei se sou conselheira ou delegada. Põe membro..."

Angustiada, em Brasília

Muito midiática também, Nise Yamaguchi se tornou nacionalmente famosa quando teve seu nome associado ao do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que por sua vez fala da cloroquina com surpreendente intimidade.

Nise: "Eu fui a Brasília e procurei o presidente, porque estava angustiada de ver tanta gente morrendo por falta de conhecimento sobre a hidroxicloroquina. Eu sabia que a covid tinha cura, que esse medicamento salvaria vidas, e me senti na obrigação de levar essa informação ao ministério da Saúde", diz Yamaguchi, que se apresenta como oncologista e imunologista. "Dediquei minha vida aos pacientes, e não me conformava com aquele obscurantismo."

Além da hidroxicloroquina na prevenção da covid-19, a médica recomenda corticoide, azitromicina e zinco.

"Fui a Brasília porque não aguentava ver tanta gente morrendo" - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
"Fui a Brasília porque não aguentava ver tanta gente morrendo"
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Todos contra

Entre os resistentes ao uso da hidroxicloroquina estão médicos, cientistas, institutos de pesquisa e publicações especializadas. Estudos conduzidos recentemente pela Oxford Univeristy, na Inglaterra, pelo NIH (National Institutes of Health), norte-americano, e pela OMS (Organização Mundial de Saúde) concluíram que a cloroquina não tem efeito benéfico na prevenção da doença, nem no tratamento.

Na quinta-feira (16), a Annals of Internal Medicine, uma das mais respeitadas revistas científicas do mundo, publicou o resultado de uma pesquisa feita com 423 pacientes adultos da covid-19 para "investigar se a hidroxicloroquina poderia reduzir os sintomas graves provocados pela infecção". A resposta foi negativa.

Na sexta-feira (17), a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) anunciou que vai acompanhar "a orientação dada por todas as sociedades médicas científicas dos países desenvolvidos e pela OMS, de que a hidroxicloroquina deve ser abandonada em qualquer fase do tratamento da covid-19".

Muitos nãos

Também na sexta, em entrevista a GloboNews, o pesquisador e coordenador do Núcleo de Epidemiologia e Vigilância da Fiocruz Brasília, Cláudio Maierovitch, afirmou que a instituição não recomenda o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina para tratar pacientes com coronavírus. Ele rebatia o ofício enviado pelo ministério da Saúde, orientando a instituição a divulgar amplamente e recomendar o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento precoce de pacientes da covid-19:

"A Fiocruz afirma que não há base científica para a cloroquina, pelo contrário, há evidências de que não deve ser utilizada. Mas, se recebe comunicado do ministério da Saúde, não pode deixar de informar seus profissionais", declarou Maierovitch. "Internamente, é conhecido [na Fiocruz] que [a cloroquina] não tem eficácia."

A fundação participa de um estudo que avalia medicamentos que eventualmente possam ser utilizados no tratamento da covid-19, e a cloroquina não faz parte dele.

Ontem, no Twitter, como "comprovação" de que a substância faz efeito e que todas essas instituições estariam erradas, o presidente Jair Bolsonaro recorreu a uma reportagem da Fox News, emissora notoriamente trumpista nos Estados Unidos. Junto ao vídeo, havia um texto em destaque no post presidencial: "Trump e Bolsonaro estavam certos".

Nise se sente solitária em sua luta: "A medicina está em frangalhos" - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Nise se sente solitária em sua luta: "A medicina está em frangalhos"
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Saquinho de ilusão

Em uma live com seis médicos organizada na semana passada pelo oncologista Drauzio Varella, todos se mostraram radicalmente contra o uso da cloroquina na prevenção e cura da covid-19:

"Fico triste de ouvir os parlamentares de racionalidade zero relatando que a família usou cloroquina e deu certo", diz a pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora do Centro de Referência Professor Hélio Fraga da Fiocruz.

Ela chama o pacote composto por cloroquina, corticoide, ivermectina e zinco de "saquinho de ilusão": "Não tomem isso, em nome da melhor ciência. Não usem cloroquina para covid-19, mesmo que ganhem."

Para a pneumologista Elnara Marcia Negri, da USP (Universidade de São Paulo) "é muito fácil vender o saquinho de ilusão porque 85% dos pacientes evoluem bem e fica parecendo que foi por conta da cloroquina".

O infectologista e imunologista Esper Kallas, professor da USP, diz: "Essa história de cloroquina não é nova, vem desde os anos 1980, contra viroses. Não deu certo com ebola e não dará com nada."

Sem discussão

À coluna, a bióloga Natalia Pasternak, fundadora do "Instituto Questão de Ciência", afirmou que "não há mais o que discutir, a não ser talvez a questão ética de seguir prescrevendo um remédio que já se sabe não funcionar".

"O ministério da Saúde e a doutora Yamaguchi utilizam estudos observacionais e de má qualidade como 'prova' de que hidroxicloroquina funciona. No entanto, estudos observacionais não indicam relação de causa e efeito, e não podem ser usados para nortear condutas. Também usam a desculpa de que não há tempo de realizar rcts (estudos clínicos randomizados), mas não só há tempo como já foram feitos."

Natalia cita os estudos da OMS e NIH, e informa que "avisaram em press release que interromperiam os testes com HCQ por falta de eficácia".

Pelé e Xuxa

Natural que Nise se sinta solitária em sua luta para salvar vidas. Ela conta que os filhos, um músico e uma artista plástica, imploram para que não dê mais entrevistas. "Eles se sentem expostos", diz a médica, que chegou mais de uma hora atrasada para a conversa com a coluna.

Simpática, sua irmã Naomi, que "fala seis línguas" e foi candidata a deputada federal pelo PSL em 2018, recebe o repórter e o fotógrafo no apartamento de cerca de 180 metros quadrados localizado nos Jardins, zona oeste de São Paulo. "Este apartamento era do Pelé. Ele morou aqui com a Xuxa", afirma Nise, na hora em que posa para fotos.

Digo que não sabia que Pelé chegou a morar com Xuxa. Achava que os dois haviam apenas namorado rapidamente. Nise: "Sim, moraram juntos por quatro anos", garante.

Ela chegou acompanhada de seu advogado, Danilo Garcia de Andrade, mais um prato de coxinhas e uma garrafa de suco de uva. Pediu desculpas pela eventual desarrumação na casa. A sala é decorada com quadros pintados pela filha, uma mesa de jantar com seis cadeiras pesadas e sofás de veludo azul marinho. "Passo pouquíssimas horas em casa. Saindo daqui, ainda vou fazer visitas a pacientes no Einstein", diz. São 23hs.

Império do medo

Por mais dramáticos que pareçam, os apelos dos filhos não são suficientes para afastar Nise da mídia. Na mesma sexta-feira em que a Sociedade Brasileira de Infectologia anunciou o abandono do uso da cloroquina, a médica esteve no programa do pastor-cantor bolsonarista Magno Malta, no Canal Brasil, para falar de suas convicções. Dividiu o sofá, sem máscara, com uma especialista em harmonização facial, uma ex-viciada em crack e o neto do dono da cadeia de lojas Riachuelo.

Microfone em punho, ela fez um apelo aos médicos: "Gente, vocês são meus amigos, nós trabalhamos juntos nos hospitais, por que então tirar do brasileiro a chance de se curar?"

Magno Malta: "Faz parte do esquema de malandragem de governos que estão ligados à China. É o império do medo."

Nise: "Não adianta ser um instrumento musical Stradivarius, um cello sofisticado, se você não dá o melhor se si."

Magno Malta: "[A hidroxicloroquina] serviu para o Witzel, para o Helder Barbalho, para o governador do meu estado... A mulher dele tomou, o motorista... E não há nada de errado nisso, graças a Deus eles tomaram! A prefeita de Porto Seguro tomou. E o povo não pode tomar?"

Nise: "Pois é! Por quê?"

Malta diz que "não sabia que o Brasil tinha tanto médico despreparado". Para ele, a 'hidroque de cloroquina' virou "um instrumento para sacar Jair Bolsonaro do poder". "Eles querem que Rodrigo Maia seja presidente do Brasil"

Muito agregadora, Nise afirma que a cura está acima de questões político-partidárias. Ela se empolga: "A gente precisa organizar uma frente suprapartidária para democratizar a hidroxicloroquina!"

No programa "Visão da Vida", do pastor-cantor bolsonarista Magno Malta - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
No programa "Visão da Vida", do pastor-cantor bolsonarista Magno Malta
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Mister do direito

Contra todas as evidências, Nise Yamaguchi afirma que não tem partido. Depois de pedir para sair com foto e nome completo na reportagem, o advogado doutor Danilo Garcia de Andrade envia por whatsapp uma "mensagem importante" da cliente: "Doutora Nise permanece à disposição para servir o país, não apenas no aguerrido mister da medicina, mas para colaborar junto ao ministério da Saúde, se for essa a necessidade".

Para mostrar o seu desprendimento partidário, Nise conta que trabalhou "inclusive no governo do PT". "No segundo mandato do Lula, fui vice-ministra do (ministro da Saúde José Gomes) Temporão em São Paulo. Trabalhei em todos os níveis de prevenção e tratamento de doenças crônicas."

Procurado pela coluna, Temporão reagiu surpreso: "Ela foi nomeada representante do ministério da Saúde em São Paulo para uma função que não tinha nenhuma responsabilidade de atenção à saúde ou de pesquisa. Era um cargo de representação."

Meditação na sinagoga

Recentemente, a alardeada ligação com Bolsonaro ganhou concorrente à altura no noticiário. A polêmica agora envolve um comentário infeliz que Nise fez sobre os judeus, em uma entrevista no programa "Impressões", também no Canal Brasil. A propósito do "pânico provocado pela covid-19", ela afirmou que o medo "paralisa" e transforma as pessoas em "massa de manobra". Para ilustrar o que estava dizendo, comparou os brasileiros medrosos aos judeus vítimas do nazismo.

"Você acha que alguns poucos militares nazistas conseguiriam controlar aquele rebanho de judeus famintos se não os submetessem diariamente a humilhações?", perguntou.

Além de receber inúmeras notas de repúdio da comunidade judaica, Nise foi repreendida pela direção do Hospital Israelita Albert Einstein, do qual integra o corpo clínico. Ela alega que sempre teve admiração profunda pelo povo judeu, que costuma meditar na sinagoga e que tem uma irmã convertida à religião. "Gente, eu ouço música judaica, faço jejum no Yom Kippur. Eu adoro perdoar."

Sobre a repercussão das declarações infelizes a respeito do "rebanho de judeus famintos" na 2a. Guerra: "Não esperava um ataque de tão baixo calão" - Fernando Moraes/UOL - Fernando Moraes/UOL
Sobre a repercussão das declarações infelizes a respeito do "rebanho de judeus famintos" na 2a. Guerra: "Não esperava um ataque de tão baixo calão"
Imagem: Fernando Moraes/UOL

Despropósito ou desapreço?

Em nota enviada à coluna, o Einstein informa que "como se trata de manifestação insólita, o hospital houve por bem averiguar se houve mero despropósito destituído de intuito ofensivo ou manifestação de desapreço motivada por algum conflito. Durante essa averiguação, que deve ser breve, o hospital não esperava que o fato viesse a público".

A médica suspeita de que o verdadeiro motivo da repreensão seja outro. "A direção do Einstein já vinha me chamando para reuniões, antes mesmo da entrevista [no Canal Brasil]. Eles não estavam satisfeitos com a divulgação que eu fazia da cloroquina."

Segundo Nise, "quando o hospital se deu conta de que isso é um direito do médico, voltou atrás". Porém, "para não assumir o erro", teria apelado para o comentário sobre os judeus.

Providencial, mas inconfiável

Yamaguchi conta com o depoimento providencial do assistente do médico judeu ortodoxo Vladimir Zelenko, que ficou conhecido graças a uma entrevista dada ao ex-prefeito de Nova York Rudoph Giuliani, advogado de Donald Trump. Postado em março no YouTube, o vídeo é acompanhado por um texto que afirma que Zelenko obteve 100% de sucesso no tratamento de covid-19 com hidroxicloroquina, zinco e azitromincina.

De acordo com o Projeto Comprova, que reúne 28 veículos de comunicação brasileiros interessados em checar a veracidade de informações, a postagem é "enganosa". Não há evidências de que a pesquisa de Zelenko tenha realmente sido realizada, a não ser a palavra do próprio médico. Os resultados anunciados ruidosamente por ele não foram publicados em nenhum periódico acadêmico.

Mau exemplo

Ainda em sua defesa, a médica diz que trabalhou em projetos em Lyon e cita o médico francês Didier Raoult, condutor de um estudo que comprovou a eficácia da hidroxicloroquina e da azitromicina na cura de alguns pacientes de Covid-19.

Com um passado controverso, Raoult recebeu duras críticas. Seu estudo foi apontado como falho do ponto de vista científico e pouco transparente, já que os dados brutos não foram compartilhados.

Nise Yamaguchi, ela mesma, diz que toma cloroquina uma vez por semana. Ainda assim, o comentado convite para assumir o ministério da Saúde de Bolsonaro não prosperou. Afinal, houve mesmo um convite?

"...", responde ela, sorrindo.

Errata: o texto foi atualizado
O nome correto da emissora de televisão citada no texto é Canal Brasil, e não TV Brasil, como foi publicado. A correção já foi feita

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Paulo Sampaio