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Paulo Sampaio


Paulo Sampaio

A melhor coisa é ser estrangeiro no Brasil, diz carroceiro "americano"

Para Mariano Batista, São Paulo ficou pequena: "Quero Nova York" - Paulo Sampaio/UOL
Para Mariano Batista, São Paulo ficou pequena: "Quero Nova York" Imagem: Paulo Sampaio/UOL
Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

16/07/2020 04h00

Enquanto a bandeira dos Estados Unidos tremula hasteada em sua carroça, o piauiense Mariano Batista dos Santos Filho coloca para tocar no aparelho de som multicolorido o hino nacional norte-americano. Na lateral do veículo, lê-se: "Big America, My Love". Assim como o presidente Jair Bolsonaro, a quem ele apoiava até chegar à conclusão de que se trata de um "demente", Mariano defende qualquer hambúrguer feito nos EUA.

"Eu não nasci lá, mas sou de lá", afirma o carroceiro, que veio ao mundo em São João do Piauí, cidade de 20 mil habitantes a cerca de 500 km de Teresina. "Desde criança, eu sempre quis morar em São Paulo e em Nova York. Agora que São Paulo ficou pequena pra mim, quero ir para Nova York. Não para morar no Brooklyn (careta de desprezo). Quero morar na 5a. Avenida."

Troca justa

Por ora, o carroceiro habita uma das vagas de uma loja de rua que fica em uma esquina de Higienópolis, bairro da região central de São Paulo que se tornou conhecido nacionalmente por abrigar "gente diferenciada". Em troca do uso da vaga no período noturno, quando a loja está fechada, Mariano garante à gerência manter aquele espaço limpo e seguro:

"Esse lugar era uma imundície. Os moradores de rua e drogados dormiam aqui, faziam necessidades e deixavam resto de comida. Eu já fui ameaçado muitas vezes, por não deixar que eles voltem."

Vírus político

O acervo de Mariano se compõe basicamente de duas carroças e uma Kombi 1988. Ele diz que roda cerca de 5 km por dia com as carroças, sempre pela região de Higienópolis. Chega a levar 480 kg de alumínio, plástico e papelão para a reciclagem. Usa máscara porque é "obrigado". "Se não, me multam", acredita.

Para ele, o novo coronavírus é "político". "O responsável não é o povo chinês, é o (presidente) Xi Jinping. Foi ele que deu sumiço naquele médico que avisou sobre o vírus. O Xi Jinping tem 1 bilhão e 400 milhões de bocas para alimentar. Faz o que tiver de fazer."

Nem psicóloga, nem Deus

Mariano adquiriu seus veículos nos dois últimos anos. Antes disso, entre idas e vindas, passou 19 de seus 53 anos na cadeia, por tráfico de drogas, agressão física e tentativa de homicídio.

Que drogas? "Todas. Maconha, cocaína, crack..."

Era usuário também. "Eu comecei há muito tempo, a gente misturava o crack com farinha (cocaína) e esquentava na colher. O crack substitui sua vida, você deixa de existir. E não tem assistente social, psicóloga, psiquiatra, nem Deus! que faça o viciado deixar aquilo. Só ele."

No caso de Mariano, aconteceu assim: "O casal que me apresentou ao crack foi levando meu dinheiro, até que um dia não voltaram com a pedra prometida. Eu tinha dado R$ 150, eles forneceriam a droga por três dias. No terceiro, eu fiquei esperando. A única coisa de valor que eu tinha para conseguir mais era um tênis. Naquele momento, senti um desespero enorme de ver que eu estava dominado por aquilo. Então, decidi que largaria. Foi muito difícil, mas consegui."

Pavilhão 5

Ele conta que esteve preso em várias penitenciárias. Diz que o sistema na cadeia é "imobiliarista": "Se você não tiver condição para comprar um lugar melhor, no Pavilhão 5, fica em uma cela com 40, 50 pessoas." Ele diz ter pago R$ 700 (de uma vez só), e ficado com 3 pessoas.

A comida era servida em um balde grande, "tudo de qualquer jeito". "Você refaz. Normalmente, usa uma resistência de chuveiro e uma lata de óleo cortada ao meio para improvisar um "fogão". As visitas trazem as panelas."

Princesa Isabel

Apesar das previsíveis sequelas adquiridas na experiência com as drogas, com o crime e em penitenciárias, Mariano fala de tudo isso e da dificuldade na reintegração social com uma dignidade inabalável. Negro de compleição robusta, seu físico reforça o discurso firme, seguro, altivo.

"Todo mundo tem oportunidade e pode conseguir o que quer. Acho um absurdo o papel de coitado que o preto faz aqui. Pede esmola o tempo todo, passa o dia com a mão estendida. É passivo, preguiçoso. E ainda usa criança para conseguir dinheiro. Essa lei da princesa Isabel, eu fui ver, ela fez uma grande cagada. Pelo menos na senzala tinha o angu."

Aqui e lá

O "aqui" do parágrafo acima está em contraponto com o "lá", representado pelos Estados Unidos. A América ignorada sempre o acode quando precisa de uma pátria redentora. "Lá, negro e branco são iguais", acredita. "O preto vai à luta. Um deles chegou à presidência da República!"

Tento dizer que não é bem assim, que os negros do EUA sofrem um racismo extremado. Cito o caso de George Floyd, o americano morto pelo policial branco Derek Chauvin. Falo das manifestações que o assassinato de Floyd desencadeou em todo o país e no mundo.

Mariano: "Sempre tem um louco. Pelo menos, o branco foi preso. Pergunta o que aconteceria se fosse aqui."

Ricos e desclassificados

Não dá para atribuir a idolatria de Mariano aos EUA ao fato de não conhecer o país, ou não ter tido acesso à história norte-americana (ou mesmo à brasileira). Como se sabe, há milhões de brasileiros que tiveram todas essas possibilidades, e ainda assim pensam como o carroceiro. Eles têm em comum noções românticas do que seja requinte:

"Eu catava papelão nos Jardins, e via aquela gente elegante, de comportamento europeu, principalmente francês, naqueles restaurantes. Você acha que são diferentes dos de baixo (pobres)? Pura ilusão. São tão desclassificados quanto."

Cursinho de reabilitação

Longe das drogas, ele agora lamenta o comportamento dos jovens que frequentam o cursinho pré-vestibular próximo de onde encosta sua Kombi e as carroças: "Imagine que são pessoas que vão vão fazer exame para medicina, engenharia, direito, concurso para juiz, tudo drogado. Eles ficam aí bebendo, cheirando, depois dá no que dá."

Para Mariano, "o cursinho deveria ser uma clínica de reabilitação". "Isso, sem falar na linguagem do futuro juiz, que é a mesma que se ouve na comunidade."

Forró, não!

Agora, a caixa de som emite os primeiros acordes de "With or Without You", do U2. Ele diz que ouve também Dire Straits, Ramones, e Bruno Mars. "Tenho mais de 70 músicas dele no pendrive." Conta que sempre dançou rock muito bem. Fala de Titãs, Paralamas, Engenheiros do Hawai.

Pergunto se, como bom piauiense, ele gosta de forró. Resposta: "Olha o pré-julgamento!" Dá a entender que eu falei em forró pejorativamente, e com isso demonstra que sofre com o preconceito internalizado.

Decepção com Bolsonaro

Mariano afirma que sim, é pré-julgado e sofre preconceito o tempo todo. "No dia em que percebi que eu também pré-julgava, não tanto quanto era pré-julgado, passei a pensar mais nisso."

O carroceiro toca nesse assunto a propósito de sua decepção com o presidente Jair Bolsonaro. "Tenho umas amigas feministas que me mostraram o quanto ele é preconceituoso com mulheres e também com homossexuais. Como pode? Um presidente!"

Aos poucos, ele foi se dando conta de que Bolsonaro "não tem nenhuma postura". "99% das pessoas são preconceituosas no Brasil, mas ele é presidente. É uma questão de comportamento."

Para o piauiense, o problema do Brasil seria endógeno: "O brasileiro não se ajuda. Ajuda o estrangeiro. Chega alguém de fora, ele corre para ser amigo. A melhor coisa do mundo é ser estrangeiro no Brasil."

30 palavras em inglês

Agora o assunto é a admiração dele pelo amor que os Estados Unidos têm pelos Estados Unidos: "Eles declararam guerra ao Iraque e mataram muita gente, sabe por quê? Por causa do petróleo. No fim, o petróleo ficou pra quem? Para eles. E para quem fica o nosso pré-sal? O Brasil não é nosso, só olhar para a Amazônia. A gente vive de aluguel."

Mariano reconhece que os Estados Unidos serão sempre a pátria apenas dos americanos. Acontece que ele se considera americano. E não sabe que ser estrangeiro lá não é como ser estrangeiro aqui. No momento, junta dinheiro para comprar "passagem só de ida". "Sei umas trinta palavras em inglês, que se juntam na minha mente e formam algumas frases."

Espera-se que até lá ele aprenda a dizer: "I'm sorry, it was a misunderstanding".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Paulo Sampaio