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Paulo Sampaio


Paulo Sampaio

SP: Protesto contra 'governo negacionista' reúne 120 carros em marcha à ré

Paulo Sampaio

Nascido no Rio de Janeiro em 1963, Paulo Sampaio mudou-se para São Paulo aos 23 anos, trabalhou nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, nas revistas Elle, Veja, J.P e Poder. Durante os 15 anos em que trabalhou na Folha, tornou-se especialista em cobertura social, com a publicação de matérias de comportamento e entrevistas com artistas, políticos, celebridades, atletas e madames.

Colunista do UOL

05/08/2020 08h00

Enquanto o motorista tenta se acertar na pista, trafegando em marcha a ré, uma moça da produção grita: "Pode vir! Vem!"

Na noite de ontem, cerca de 120 carros ocuparam duas faixas da avenida Paulista, em direção à rua da Consolação, no centro de São Paulo, em um "protesto contra o negacionismo do governo federal em relação à covid-19".

"O movimento para trás representa o retrocesso civilizacional que a gente está vivendo. É um cortejo em memória das vítimas da covid-19", diz o diretor do "Teatro da Vertigem", Antônio "Tó" Araújo, 53 anos.

Araújo criou "A Marcha à Ré" com a colaboração do artista plástico Nuno Ramos, 60. O trabalho, comissionado pela 11a. Bienal de Berlim, foi filmado pelo cineasta Eryk Rocha, 42. A Bienal deve ser inaugurada em setembro.

Retrato da distopia

"Originalmente, a performance seria em Berlim. A gente produziria uma procissão antifascista, pela liberdade de expressão e o livre pensamento, que percorreria uma avenida da cidade e terminaria em uma praça. Mas então veio a covid e não foi mais possível viajar. Refizemos o trabalho, agora dialogando com São Paulo e com o momento do Brasil", explica Araújo.

"É a nossa interpretação das carreatas triunfais dos bolsonaristas que negam a pandemia. Fizemos o inverso", diz Nuno Ramos.

"[A performance] Nasceu do encontro entre a arte, a cidade e o cinema. Retrata a distopia, o País em ruína", afirma Eryk Rocha.

Trilha de respiradores na UTI

A anticarreata bolsonarista saiu da esquina da Paulista com a rua Pamplona e percorreu cerca de 2,4 km de ré, até à porta principal do cemitério da Consolação, onde um músico executou o Hino Nacional de trás pra frente. Abrindo e fechando o manifesto, seguiam dois carros fúnebres. Em toda a extensão, alto-falantes emitiam o som amplificado de respiradores em uma UTI, como os utilizados por pacientes que necessitam do auxílio de ventilação mecânica.

O Brasil registra cerca de 2,8 milhões de casos confirmados de covid-19 desde o começo da pandemia; já são mais de 95 mil mortos.

Série trágica

À entrada do cemitério, no pórtico, foi instalada uma reprodução grande da tela em que o artista plástico Flávio de Carvalho retratou os últimos dias de vida de sua mãe. Faz parte da "Série Trágica" (1947), que na carreata remete à agonia dos pacientes terminais de covid-19.

Nuno Ramos conta que outra obra de Carvalho, a "Experiência nº 2", de 1931, também serviu de inspiração à performance. Nela, o artista caminha no sentido contrário a uma procissão de Corpus Christi.

Nuno Ramos, Antônio Araújo e Eryk Rocha; ao fundo, retrato da mãe de Flávio de Carvalho em agonia - Paulo Sampaio/UIOL - Paulo Sampaio/UIOL
Nuno Ramos, Antônio Araújo e Eryk Rocha; ao fundo, retrato da mãe de Flávio de Carvalho em agonia
Imagem: Paulo Sampaio/UIOL

Simpatia ideológica

Apesar de "A Marcha à Ré" ser um trabalho assinado, que vai ser exposto e virar curta-metragem, todos os participantes do protesto eram voluntários que estavam ali por simpatia ideológica.

"Sou fã do Nuno, e não só como artista plástico, mas também como escritor e criador amplo. Estou aqui para prestigiá-lo e para protestar contra o absurdo que tem sido a postura desse governo em relação a essa pandemia. Contra a negligência, a falta de respeito, a ignorância", diz a cantora Zelia Duncan, 55, que foi com a namorada, Flávia Soares, 56.

Os motoristas abordados pela coluna eram basicamente atores, diretores de teatro, produtores, cenógrafos e arquitetos. Para o ator argentino Rafael Steinhauser, 61, "esse desconforto de andar de ré, com essa trilha mórbida, tem um efeito angustiante". "Chama a atenção para a quantidade asssutadora de vítimas da doença."

Primeira do cortejo, a professora de cenografia Rosane Muniz, 51, chegou por volta de 22h45. "Isso está sendo muito emocionante", diz.

Essa não!

Sem saber que se tratava de uma performance, tampouco um protesto, os quatro motoristas dos carros fúnebres reagiram surpresos à informação. Dois deles votaram em Bolsonaro:

"Eu vou ser sincero: se soubesse do que se tratava, não teria vindo", afirma o mineiro Otoniel (ele não quis dizer o sobrenome), 29 anos, cujo nome é uma homenagem ao cantor evangélico que fazia dupla com Oziel.

Lucas, 25, diz que votaria de novo em Bolsonaro. Para ele "o governo estava fluindo, até que veio a quarentena". "O problema é que o Bolsonaro é contra a covid", acha.

Menos defuntos agora

Os quatro motoristas acreditam que os números de casos e de mortos pela doença são "uma invenção da Globo": "Antes, a gente levava três, quatro defuntos por dia. Agora, leva um a cada dois dias", diz o mais velho, de 47 anos, que se recusa a se identificar. "Você acha que a gente poderia estar aqui a uma hora dessas?"

Ué, mas o preço da hora não é o mesmo? Vocês não foram pagos para estar aqui?

"Sim", diz Paulete, um dos produtores que trabalham na performance.

Os motoristas explicam que mortos têm precedência — quando há.

Guarda Mirim de Piracicaba

Por sua vez, o músico que tocou o Hino Nacional de trás pra frente, o trompetista Richard Fermino, 47, disse que precisou manter o foco para não cair na tentação de tocar a versão original. "Quando criança, eu fazia parte da Guarda Mirim de Piracicaba. Tocava o hino o tempo todo", diz Fermino, que atualmente trabalha no "Programa do Ratinho".

Ao contrário dos motoristas, o trompetista afirma que sabia que trabalharia em um manifesto-performance. Ele diz que não deu seu voto "a ninguém". "Não gostava dos cara que tava lá", explica. "Não dá para confiar. O Ratinho me contou que, quando participou da política [foi vereador por dois mandatos, depois deputado federal], não conseguiu fazer nada."

O trompetista Richard Fermino em dois momentos; no alto do pórtico do cemitério, e à frente da entrada - Paulo Sampaio/UOL - Paulo Sampaio/UOL
O trompetista Richard Fermino em dois momentos; no alto do pórtico do cemitério, e à frente da entrada
Imagem: Paulo Sampaio/UOL

Impávido colosso

Sem o trompete na boca, Fermino solta a língua. "Não é que o Ratinho apoie o Bolsonaro. Ele apoia quem está ganhando. Já foi Lula roxo. Você sabe, tem muita camaradagem nesse meio, muita grana rolando..."

Alguém chama Fermino para mais uma tomada do hino de trás pra frente. Ele se despede, impávido colosso. Ou colosso impávido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Paulo Sampaio