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BNDES: Montezano acusa governo Temer para esconder lisura de gestão petista

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/01/2020 16h38

A conversa de Gustavo Montezano, segundo a qual a auditoria para abrir a caixa preta do BNDES foi contratada pelo governo Temer, com a devida vênia, é conversa mole do ponto de vista factual e político. E ele sabe disso. Explico. Como se nota, o doutor esperou alguns dias até encontrar uma desculpa que fizesse algum sentido. Então ele apelou ao calendário, mas ignorou os fatos. Vamos a eles.

Fosse só uma questão de calendário, então se poderia dizer que quem contratou a auditoria foi, na verdade, o governo Dilma, certo? Afinal, o contrato original com o escritório Cleary Gottlieb Steen & Hamilton LLP com o BNDES é de julho de 2015. Entidades com as características do BNDES, com operações, então, de fomento dentro e fora do Brasil, precisam desse tipo de serviço.

Pois bem. Aí diz Montezano: "Em 2018, na gestão Michel Temer, o contrato venceria, mas foi prorrogado por mais 30 meses para abrir a 'caixa-preta' do banco.

É aqui que está o pulo do gato. A gestão Temer não acusou existência de caixa-preta nenhuma no banco. Ocorre que, em delação premiada, em maio de 2017, o empresário Joesley Batista afirmara ter pagado propina ao realizar operações com a instituição. Contratos com JBS, Bertin e Eldorado Celulose, entre outros, entraram na mira. Ora, o então presidente da República também tinha virado alvo do empresário. Como agir? Negar-se a fazer uma auditoria?

Tanto o objetivo do contrato era chegar à verdade dos fatos — e não caçar bruxas — que eventuais irregularidades, se existissem, poderiam ter atingido o próprio presidente da República, também alvo da delação premiada. Não era para "abrir caixa preta", mas para verificar se havia irregularidades. São coisas distintas, sim! "Caixa-preta" já traz juízo de valor.

Procurem nos arquivos, e vocês encontrarão entrevistas às dezenas de Paulo Rabello de Castro, que sucedeu Maria Silvia Bastos Marques na presidência do BNDES, durante o governo Temer, negando que houvesse irregularidades nos financiamentos.

Acontece que, em razão de contratos para obras na Venezuela e em Cuba — e aqui entra o fator Odebrecht —, o banco entrara no alvo da extrema-direita. E se passou a falar, então, na tal "caixa-preta" como matéria de campanha eleitoral. Castro virou alvo de duras críticas porque se negava a endossar as acusações. Chegou a dizer: "Ou sou um completo idiota, ou não existe 'caixa-preta' no BNDES".

O banco foi um dos alvos de Bolsonaro durante a campanha eleitoral. Já na Presidência da República, resolveu atacar Luciano Huck e João Doria porque ambos compraram aviões em operações regulares de financiamento — sem a menor sombra de irregularidade. As milícias virtuais deitaram e rolaram.

Em agosto do ano passado, referindo-se a Huck, Bolsonaro afirmou:
"Segunda-feira já tem a primeira parte da caixa-preta do BNDES. Pessoal que comprou jatinho, pessoal que comprou jatinho… Só dois bilhões de reais. Todo o pessoal com jatinho, gente amiga do rei. Gente que tá dizendo por aí, por exemplo, que estamos no último capítulo do fracasso do Brasil. 'Eu sou opção para 2022'. Pode até ser, mas a gente vai mostrar o que você fez".

Em síntese:
1: a existência de uma caixa-preta no BNDES era uma acusação de natureza eleitoral e partiu da extrema-direita;
2: a auditoria se fez necessária depois que, em delação, Joesley Batista acusou o pagamento de propina em operações realizadas pela instituição;
3: como Temer era um dos alvos de Joesley, não havia como declinar da auditoria;
4: a gestão Temer nunca assumiu a existência de caixa-preta;
5: o então candidato Bolsonaro apontava a tal caixa-preta e insistiu na tese mesmo depois de assumir a Presidência;
6: a auditoria não encontrou evidência nenhuma de irregularidade, como se sabe;
7: cara ou barata, a auditoria acabou sendo imperiosa. De resto, convenha-se: melhor para a credibilidade da instituição que nada tenha sido encontrado, não é mesmo?
8: Montezano esperou alguns dias para achar uma desculpa plausível porque a questão tem um peso obviamente político. Afinal, o que a auditoria fez foi, digamos, absolver a gestão petista no BNDES, certo? Por óbvio, Bolsonaro não contava com essa. Então vem o papo: "Ah, foi culpa do governo Temer".

Os tolos podem se contentar. Quem se lembra como se deram as coisas sabe que Montezano está tentando se afastar de uma acusação que desmoraliza, no que concerne ao BNDES, o bolsonarismo.

Luciano Coutinho, que presidiu o banco nas gestões petistas, fez uma boa síntese do caso em entrevista à Folha ao responder como recebeu o resultado da auditoria:
"Com satisfação, é um relatório que corrobora todas as declarações feitas não só por mim mas por outros ex-executivos do banco em relação à integridade e à lisura dos processos decisórios da instituição. Depois de pesquisar 3 milhões de mensagens, mais de 400 mil documentos, ter ouvido dezenas de pessoas, os dois escritórios que são especialistas em compliance não detectaram nenhum sinal de comportamento de risco e, principalmente, de ingerência indevida nas decisões do banco. Portanto, o relatório revela a integridade da instituição e torna evidente que as acusações, as suspeitas que justificaram, entre aspas, várias ações contra as pessoas, conduções coercitivas, processos, denúncias, careceram de fundamento objetivo. E mostram como a presunção de culpa sem evidências é um processo atentatório aos direitos fundamentais do cidadão."

Na mosca!

Reinaldo Azevedo