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Davos: meio ambiente empareda Guedes; Bolsonaro chuta Salles e chama Mourão

Hamilton Mourão, vice-presidente: ele vai coordenar o Conselho sobre a Amazônia  - Romério Cunha/PR/BBC
Hamilton Mourão, vice-presidente: ele vai coordenar o Conselho sobre a Amazônia Imagem: Romério Cunha/PR/BBC
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/01/2020 08h25

Não há nada de errado com a expressão "correr atrás do prejuízo". Ela não significa que alguém vá em busca do dito-cujo, mas que o dito-cujo vai à frente. Vale dizer: o prejuízo precede aquele que sai correndo para reparar o mal. Assim faz agora o governo no caso do meio ambiente.

Ouvimos um ano de disparates e desaforos na área. A coisa não ficou apenas na retórica. Em 2019, o desmatamento cresceu brutalmente na Amazônia, onde Jair Bolsonaro gostaria de ver bois. O presidente, em pessoa, passou a defender garimpo em terras indígenas. Ricardo Salles, seu ministro do Meio Ambiente, houve por bem se encontrar com garimpeiros e madeireiros ilegais.

Na reunião da COP 25, em Madri, Salles comportou-se como um troglodita. Tentou fazer mercadismo barato (ou caro) com créditos de carbono e viu graça em criar caso com a resolução final do texto, tentando inviabilizá-lo. Nas redes sociais, publicou a foto de um bifão sangrando, dedicando-o à reunião do clima, dizendo tratar-se de um jantar vegano. Escreveu literalmente: "Para compensar nossas emissões na COP, um almoço veggie".

Esse é o governo que demitiu Ricardo Galvão da presidência do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) porque o órgão ousou divulgar o que os satélites apontavam: o crescimento do desmatamento na Amazônia. O Conselho Nacional do Meio Ambiente foi reduzido à insignificância.

Paulo Guedes, ministro da Economia, está em Davos. Ouviu de representantes de fundos de investimento, com todas as letras e sem meios-tons: ou o Brasil muda a sua política ambiental, ou não há como investir no país.

Bolsonaro resolveu, então, se mexer. Vamos ver se vai ser para valer.

O presidente decidiu criar o Conselho da Amazônia, que será coordenado por Hamilton Mourão, vice-presidente. A simples possibilidade de que Salles possa ficar um tantinho mais distante da região já é, por si, uma boa notícia. Também afirmou que será formada uma Força Nacional Ambiental, nos moldes da Força Nacional de Segurança.

Por enquanto, há apenas anúncio. Não há estudo nenhum conhecido sobre custo. Resta evidente que se trata de uma decisão tomada no joelho, de afogadilho, para que Paulo Guedes tenha algo de auspicioso a dizer em Davos — por enquanto, ele falou apenas a coisa errada a respeito do tema.

Bolsonaro tenta, assim, reparar o discurso desastrado que fez em setembro na abertura da Assembleia Geral da ONU, quando tratou da Amazônia apenas segundo o prisma da soberania — como se esta estivesse em questão.

Se, há um ano, alguém sugerisse ao presidente tais medidas, seria expulso do palácio a tapas e pontapés. Afinal, como esquecer que ele queria pendurar o meio ambiente na pasta da Agricultura?

O Brasil agora paga o preço do destrambelhamento. Vá lá: poder-se-ia dizer "antes tarde do que nunca". Mas, primeiro, é preciso ver para crer.

Uma coisa é certa: a questão ambiental, tema principal dos debates deste ano em Davos, deixou de ser coisa de gente maluca, que não se preocupa com o desenvolvimento e com a economia. Ao contrário: esses temas já não se distinguem. Boa parte dos fundos de investimento estão proibidos de colocar dinheiro em países ambientalmente incorretos.

O Brasil está deixando de receber recursos em razão das reinações da dupla Bolsonaro-Salles. O prejuízo ainda está à frente. E o presidente se vê obrigado a correr atrás.

Reinaldo Azevedo