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Some texto em site do Exército que defende quarentena. Mas você o lê aqui!

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

06/04/2020 06h53

Você tem o direito de ler a íntegra do texto sobre o coronavírus que o Centro de Estudos Estratégicos do Exército publicou em sua página e que, puf!!!, desapareceu como num passe de mágica. O pequeno estudo faz a defesa, com todas as letras, da quarentena nessa fase de expansão do vírus no país, o que, como sabemos, contraria a opinião pessoal do presidente da República — embora, note-se, em documentos oficiais, a Advocacia Geral da União afirme ser essa também a posição do governo.

O texto desapareceu, mas você pode lê-lo clicando aqui. Em 22 páginas, o CEEEX aborda a origem do vírus, as características da pandemia, as estratégias adotadas por outros países, a forma como se está combatendo o mal no Brasil, o impacto da doença nas economias brasileira e mundial, as etapas de enfrentamento e convivência com o vírus e as estratégias a serem adotadas para conciliar a preservação de vidas com a retomada da economia. Ao fim, um quadro sinóptico resume o estudo.

Lá se pode ler:
"O chamado modelo horizontal tem se apresentado mais eficiente para atender às demandas emergenciais de saúde pública, porém tende a se mostrar muito impactante para a higidez econômica"

Bem, minhas caras, meus caros. Eis o que todos sabemos e desde sempre se disse: o dito "isolamento horizontal" não é um ponto de chegada, mas um instrumento para tentar evitar ou amansar o colapso na saúde. Mas isso tem custo. Por isso mesmo, desde sempre, demandou do Estado uma ação enérgica e rápida na economia. Reconhece o estudo:
"No contexto de fragilidade econômica ora emergente, é possível identificar a relevância do papel do Estado na mitigação dos efeitos negativos da crise, bem como a centralidade de sua atuação como indutor e protagonista do grande processo de recuperação que, inevitavelmente, terá que ocorrer".

O documento também fala sobre o perfil que deve ter um líder numa hora assim. Na opinião de vocês, ele se parece com o de Bolsonaro? Reproduzo:
"A responsabilidade das lideranças políticas frente às inúmeras adversidades que ainda se apresentarão é demasiada. Diante do tamanho do desafio ainda não totalmente mensurado, parece clara a necessidade de coesão nacional e de definição de estratégias eficazes e claras".

O texto defende que as ações do Estado devem ter como prioridade:
- setores mais vulneráveis da sociedade, agilizando a transferência de renda, por intermédio de instrumentos como Bolsa Família e o auxílio a microempreendedores e à agricultura familiar;
- manutenção e até ampliação da capacidade logística do Estado para fazer com que a ajuda chegue a quem precisa;
- socorro voltado especialmente para os setores que mais preservam empregos.

Reitere-se: não há passagem no documento que conteste a eficiência do isolamento horizontal na fase que ora vivemos, que o documento chama de "SUBIDA". E, claro, não se pode ficar nele para sempre, mas são necessárias algumas precondições para dele sair.

Há uma passagem de especial interesse para o presidente Jair Bolsonaro:
"O dilema entre salvar vidas e manter a atividade econômica, que se apresenta neste momento da crise, é apenas aparente, pois, para preservar vidas, são necessários meios em pessoal, material e instalações disponíveis no local certo e no momento oportuno".

O texto trata, sim, da possibilidade do "isolamento vertical", dos chamados grupos de risco, mas quando? "Uma vez atingidos os objetivos do isolamento horizontal, com o comprovado achatamento da curva de novos casos da doença". Mas o texto alerta: para que isso funcione, é preciso que existam condições para o rígido isolamento desses grupos e de "grande disponibilidade de testes de checagem rápida". Temos isso? Não!

O documento que o Exército publicou e depois apagou também foca num aspecto que vem sendo discutido mundo afora quando a fase de escalada vertiginosa de número de casos tiver passado: é a "Estratégia de Sequenciamento ou Mista": desde que existam as condições para a "testagem maciça", os isolamentos horizontal e vertical em áreas determinadas poderiam se alternar.

As medidas de retorno à normalidade, deixa claro o documento, só podem ser empregadas quando se entrar na fase de queda da contaminação.

Bem, meus caros, o que vai no documento publicado numa página do Exército é uma síntese, na verdade, de um consenso mundial sobre a expansão do coronavírus e da Covid-19, que é a doença que ele causa.

O Centro de Estudos Estratégicos do Exército Brasileiro fez a coisa certa ao publicar o documento, que diz respeito à saúde de 210 milhões de brasileiros. Depois, fez a coisa errada: deu sumiço no dito-cujo e publicou em maiúsculas a seguinte mensagem:
"OS TEXTOS PUBLICADOS PELO CENTRO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS DO EXÉRCITO (CEEEx) SÃO DE CARÁTER ACADÊMICO E ABORDAM QUESTÕES RELEVANTES DA CONJUNTURA NACIONAL E INTERNACIONAL. OS TRABALHOS SÃO PRODUZIDOS POR ANALISTAS E ESTUDIOSOS DE DIVERSAS ÁREAS, NÃO SÓ MILITARES, DA ATIVA E DA RESERVA, COMO TAMBÉM POR PESQUISADORES CIVIS. AS OPINIÕES, NELES EXTERNADAS, NÃO REPRESENTAM A POSIÇÃO OFICIAL DO EXÉRCITO E TÊM POR OBJETIVO CONTRIBUIR PARA O DEBATE DOS GRANDES TEMAS NACIONAIS, COM ÊNFASE PARA AQUELES COM IMPACTO PARA A DEFESA"

Até por isso, então, deveria ter continuado à disposição dos brasileiros, não é mesmo? Ou terá o Exército o direito de saber coisas sobre a nossa saúde que nós não temos?

Reinaldo Azevedo