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Reinaldo Azevedo

Os donos da Globo na lista de Messer: no Estado policial, não há inocentes

João Roberto, Roberto Irineu e José Roberto, os irmãos Marinho. Messer acusa os dois primeiros de receber remessas em dólares na sede da emissora, o que eles negam - Cesar Alves/Globo
João Roberto, Roberto Irineu e José Roberto, os irmãos Marinho. Messer acusa os dois primeiros de receber remessas em dólares na sede da emissora, o que eles negam Imagem: Cesar Alves/Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

15/08/2020 07h38

Na delação, digamos, paraguaia acertada com a Lava Jato do Rio, o doleiro Dario Messer afirmou que, durante a década de 90, emissários seus entregaram a membros da família Marinho, dona das Organizações Globo, quantias que variavam entre US$ 50 mil e US$ 300 mil. Os destinatários seriam João Roberto Marinho e Roberto Irineu Marinho. Segundo seu depoimento, as remessas eram entregues duas ou três vezes por mês na sede da TV Globo.

Antes que avance, algumas considerações.

É mentira que a delação de Messer vá resultar na entrega de R$ 1 bilhão aos cofres públicos. Essa é a avaliação do total de seus bens conhecidos no Brasil e no Paraguai — a maior parte, diga-se, está nesse segundo país. Seu patrimônio encontra-se bloqueado lá e aqui. Reitero: na prática, o doleiro estava sem nada. Quando condenado, os bens seriam certamente sequestrados.

O que foi que a Lava Jato lhe deu de presente, com a imprensa brasileira fazendo o trabalho de assessoria para a operação? Em troca de uma lista de pessoas e empresas para as quais operava, ele ficou com uma bolada de R$ 50 milhões — nem R$ 10 milhões nem R$ 3 milhões, como se anunciou por aí.

Como ele estava duro, foi um negocião. Para a Lava Jato, que precisava de um golpe publicitário, sua delação caiu como uma luva. Logo os sites noticiosos foram inundados com a notícia daquela que seria a maior delação da Terra. Tudo papo-furado. Os bens de Messer que estão no Brasil já se encontram sob a guarda do Estado. E os que estão no Paraguai ainda teriam de ser vendidos, convertidos em dinheiro, e só então os valores CHEGARIAM ao Brasil.

CHEGARIAM, mas não vão chegar. O governo paraguaio já avisou que os bens que lá se encontram, ou seu valor correspondente, lá ficarão — ao menos parte considerável.

Sendo assim, inexiste "delação de R$ 1 bilhão" porque:
- ninguém pode dar aquilo que não tem;
- a Lava Jato ainda não é um Tribunal Internacional, com jurisdição em todo o planeta, para decidir como devem se comportar os respectivos governos e judiciários dos países mundo afora.

Essa deve ter sido a fake news mais valorizada do século no Brasil. E por que a imprensa repete bovinamente o que diz a Lava Jato? "Ah, porque eles combatem a corrupção! Devem ser pessoas boas". Então tá.

DE VOLTA À GLOBO
O Jornal Nacional noticiou a acusação feita por Messer. Coisa curta, seca, acompanhada da seguinte nota:
"A respeito de notícias divulgadas sobre a delação de Dario Messer, vimos esclarecer que Roberto Irineu Marinho e João Roberto Marinho não têm nem nunca tiveram contas não declaradas às autoridades brasileiras no exterior. Da mesma maneira, nunca realizaram operações de câmbio não declaradas às autoridades brasileiras."

Antes de ser lida a nota, apontou o JN:
"A revista [Veja] destaca que o doleiro não apresentou provas do que afirmou e que admitiu nunca ter se encontrado com qualquer integrante da família Marinho".

Pois é, pois é...

Então é chegada a hora de falar sobre critérios, não é mesmo?

AOS CRITÉRIOS
Começo informando que Messer não entregou prova contra ninguém da tal lista que, na prática, foi comprada pela Lava Jato por R$ 50 milhões com o propósito de gerar estardalhaço na imprensa -- inclusive, como foi o caso, nos veículos do grupo Globo.

Tenho uma outra questão relevante: Messer não é o primeiro delator a não entregar provas. No mais das vezes, delações são aceitas, e as tais provas, depois, são fabricadas em espetaculosos mandados de busca e apreensão, acompanhadas de prisão temporária ou de prisão preventiva. Todo mundo sabe como são feitas as salsichas.

Esse é o modelo consagrado pela Lava Jato, que tem no ex-juiz Sergio Moro — que costuma aparecer na Globo pontificando sobre o bem, o belo e o justo — o seu símbolo maior. Ou estou contando alguma novidade?

Uma boa questão: se o que Messer disse sobre os Marinhos é mentira, por que teria dito a verdade sobre os outros? Se disse a verdade sobre os outros, por que teria mentido apenas sobre os Marinhos?

A Lava Jato-RJ só comprou a lista de Messer porque pretende pintar e bordar, certo? Parece que a abordagem noticiosa do grupo se obriga a passar por uma torção nada ligeira. Ou os santos procuradores continuarão a ser tratados como guerreiros contra a corrupção, sempre inspirados em seu juiz?

EU? ACUSANDO?
Eu acusando este ou aquele? Não mesmo! Sou aquele que não acredita em delação de gente que fica muito tempo presa ou que está sujeita a uma espécie de chantagem. Querem saber? Tendo a não acreditar na "Lista de Messer". Na sua totalidade. Ficará difícil para o Grupo Globo continuar a endossar os métodos da Lava Jato, exceto quando atingem os "donos da firma".

Para pensar: todas as delações são gravadas. Certamente a emissora não exibirá com exclusividade o vídeo em que o doleiro faz acusações à família. Não será considerado de interesse jornalístico.

Em sua busca por protagonismo, a Lava Jato atinge a sua principal aliada.

De resto, uma lição começa a se desenhar: quem flerta com o Estado policial e com práticas policialescas em nome do bem maior — o combate à corrupção ou a pureza divina, tanto faz — acaba entrando na fila da guilhotina.

Quando menos da guilhotina de reputações.

Hora de rever os critérios do jornalismo, das delações e das homologações.

No Estado policial, não existem inocentes. Só culpados de ocasião.

Reinaldo Azevedo