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Bolsonaro é o Ricardo III do reino das queimadas e da periferia da moral

O ator Maurício Donadoni no papel de Ricardo III. O rei, o criado por Shakespeare ao menos, era tão abjeto que chegava a despertar certo fascínio  - Arturo Carniti
O ator Maurício Donadoni no papel de Ricardo III. O rei, o criado por Shakespeare ao menos, era tão abjeto que chegava a despertar certo fascínio Imagem: Arturo Carniti
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

29/09/2020 22h15

O presidente Jair Bolsonaro parece ser o nosso candidato a Ricardo III, o de Shakespeare, o rei vilão dado a filosofadas de tal sorte imorais — ou amorais — que chega a despertar certo fascínio, não é?, porque, ao ouvi-lo ou lê-lo, a gente se dá conta de que aquilo que diz tem certa lógica interna e traduz uma forma de saber, embora este seja essencialmente falacioso, pautado pela malícia e pela má-fé autocentradas. Por que digo isso?

Há exatos 14 dias, Jair Bolsonaro tonitruou:
"Até 2022, no meu governo, está proibido falar a palavra Renda Brasil. Vamos continuar com o Bolsa Família e ponto final."

Passados 13 dias daquela declaração, o nome "Renda Brasil" foi substituído por "Renda Cidadã", querendo dizer a mesma coisa, e veio a público a proposta oficial para sequestrar e ampliar o alcance do "Bolsa Família". Como seria impossível operar a mágica sem furar o teto, então o Planalto deu um jeito de fazê-lo, mas de modo oblíquo. Mandou o dito-cujo pelos ares, mas fingindo que nada estava acontecendo.

Os recursos, então, do novo programa sairiam de uma pedalada dupla: dando um calote em parte dos precatórios e tungando um pedação do Fundeb. No primeiro caso, deixa-se de pagar uma dívida, para a qual há provisão orçamentária — e o passivo não desaparece, claro! — para jogar o dinheiro em despesas correntes. No segundo, apela-se a um dinheiro que não conta para efeitos de teto: é investimento social para colher resultado no longo prazo. Ocorre que o horizonte de Bolsonaro é bem mais curto.

Os tais "mercados" não são entes, digamos, pios, pautados pela moral da solidariedade. Reagiram mal. A Bolsa caiu. O dólar e os juros futuros subiram. Não exatamente porque Bolsonaro quer ampliar o programa de assistência social. Não exatamente porque ele pretende dar a dupla pedalada. Mas porque está claro que, se preciso, Paulo Guedes — o antes suposto garantidor das regras do jogo — pode apelar à contabilidade criativa para tentar garantir a reeleição do presidente. Junto com a patuscada, veio o anúncio de que a proposta de reforma tributária terá de esperar. Não passaria no Congresso. E assim é porque seu centro gravitacional é a criação de um imposto.

Guedes o justifica afirmando que, desse modo, pode desonerar a folha de salários para gerar empregos. É claro que isso soa como música aos ouvidos de parte do empresariado que pouco entende de economia além do seu negócio, mas quem conhece macroeconomia sabe que desoneração, por si, não gera postos de trabalho num país desorganizado. Há a memória recente do governo Dilma. Tal escolha deu com os burros n'água. Ampliou o déficit sem gerar empregos. Aqui e ali se lê que os especialistas têm dúvidas sobre a eficácia da medida. São poucas as dúvidas e é grande a certeza de que o expediente não funciona.

Shakespeare, já está comprovado, exagerou nas deformidades físicas de Ricardo III como recurso adicional para compor o perfil de uma personagem agressiva e calculista. Era um truque dramático. Bolsonaro não precisa de um autor que escreva a caricatura de um vilão. Ou precisa, mas, nesse caso, o redator está a serviço do soberano. Quem quer que tenha redigido a sequência de tuítes em que ele justifica as suas escolhas evidenciou que o presidente já está em plena campanha eleitoral, atuando para atingir e eliminar adversários, embora atribua a esses a iniciativa de acuá-lo. Estas palavras apareceram em sua conta no Twitter:

Ao longo da minha vida parlamentar nunca me preocupei com reeleição. Sempre exerci meu trabalho na convicção de que o voto era consequência dele.

- Minha crescente popularidade importuna adversários e grande parte da imprensa, que rotulam qualquer ação minha como eleitoreira. Se nada faço, sou omisso. Se faço, estou pensando em 2022.

- Na verdade, estou pensando é em 2021, pois temos milhões de brasileiros que perderam seus empregos ou rendas e deixarão de receber o auxílio emergencial a partir de janeiro/2021.

- A política do "fique em casa que a "economia a gente vê depois" acabou e o "depois" chegou. A imprensa, que tanto apoiou o "fique em casa", agora não apresenta opções de como atender a esses milhões de desassistidos.

- Os responsáveis pela destruição de milhões de empregos agora se calam. O meu governo busca se antecipar aos graves problemas sociais que podem surgir em 2021, caso nada se faça para atender a essa massa que tudo, ou quase tudo, perdeu.

- A responsabilidade fiscal e o respeito ao teto são os trilhos da Economia. Estamos abertos a sugestões juntamente com os líderes partidários.

- O Auxílio Emergencial, infelizmente para os demagogos e comunistas, não pode ser para sempre.

Como se vê, o presidente diz jamais ter se preocupado com a reeleição quando deputado. É mentira! Sua pauta sempre foi a de uma corporação — os militares da reserva —, buscando manter cativo esse eleitorado. Conseguiu.

Ele diz: "Se nada faço, sou omisso". Bem, é claro que sim! Esperaria o quê? "Se faço, estou pensando em 2022". Está. Mas o problema não é esse, e sim até onde pode chegar para realizar seu objetivo.

Atribuir, como ele faz, as dificuldades da economia brasileira ao distanciamento social é mesmo conversa de vilão. Talvez Shakespeare nem se ocupasse dele em razão do excesso de vulgaridade, ainda que a tirada seja compatível com a de um homicida em massa. Os mortos pela Covid-19 vão acenar para os 200 mil até o fim do ano, apesar dos esforços em favor do distanciamento social. Sem eles, o desastre seria certo.

O nosso Ricardo III da cloroquina e das queimadas atribuiu, de modo politicamente criminoso, a crise econômica criada pelo coronavírus, que varreu o mundo, a seus adversários internos. É de uma desonestidade política, moral e intelectual sem precedentes. Tivesse a esmagadora maioria dos brasileiros seguido a sua orientação, aí, sim, estaríamos mergulhados no caos.

Quanto ao auxílio emergencial, Bolsonaro deveria ser grato aos que ele chama "comunistas". Fosse pela vontade do Ricardo III de março deste ano, com o seu mau conselheiro, teriam sido pagas rês parcelas de R$ 200 aos informais, mandando para casa, sem salário, os trabalhadores com carteira assinada, com contratos, então, suspensos.

Bem, a esta altura, do candidato a monarca só sobraria a memória de um governante pendurado em praça pública, pelos pés. A exemplo do herói secreto de boa parte dos que habitam o Palácio do Planalto.