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Reinaldo Azevedo

Está pronto o livro sobre a Vaza Jato. A leitura, caros, é obrigatória!

Redação do Intercept Brasil momentos antes da publicação das primeiras reportagens da Vaza Jato. Da esquerda para a direita, em pé: Glenn Greenwald, Marianna Araujo, Leandro Demori, Victor Pougy, Rafael Moro Martins, Alexandre de Santi e André Souza. Sentados: Bruna de Lara e Andrew Fishman - Christian Braga/The Intercept Brasil
Redação do Intercept Brasil momentos antes da publicação das primeiras reportagens da Vaza Jato. Da esquerda para a direita, em pé: Glenn Greenwald, Marianna Araujo, Leandro Demori, Victor Pougy, Rafael Moro Martins, Alexandre de Santi e André Souza. Sentados: Bruna de Lara e Andrew Fishman Imagem: Christian Braga/The Intercept Brasil
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

19/10/2020 04h00

A Vaza Jato é o acontecimento jornalístico mais importante do Brasil em muitos anos, décadas talvez — ou me apontem outro.

Assim não fosse por muitos motivos, bastaria um só: a Lava Jato, cuja verdade a Vaza Jato revelou, tornou-se um conjunto de eventos que definiu o mau rumo que tomou o país. Sob o pretexto de combater a corrupção, constituiu-se um arremedo de Estado paralelo poderoso o bastante para definir parte dos sortilégios que vive o país.

Assim, entendo obrigatória a leitura do livro "Vaza Jato - Os Bastidores das Reportagens que Sacudiram o Brasil", de Letícia Duarte, escrito em parceria com o site The Intercept Brasil. Clique em www.livrovazajato.com.br para reservar seu exemplar, que chega em novembro.

Informa o TIB:
"O leitor encontrará uma extensa reportagem da jornalista Letícia Duarte. Ela realizou entrevistas com a equipe do Intercept e ouviu também outras fontes para contar os bastidores eletrizantes por trás da série de reportagens que sacudiu o país. Na segunda parte do livro, há uma seleção de matérias publicadas pelo Intercept durante a Vaza Jato. Ao final, duas reportagens inéditas, editadas com exclusividade para o livro: uma sobre as relações dos procuradores com a Rede Globo e outra sobre o dia da condução coercitiva do ex-presidente Lula."

Não é conversa mole. São bastidores eletrizantes mesmo, que flagram um momento muito especial da história do país. A narrativa de Letícia assume, às vezes, o ritmo de um "thriller". O público não sabe, mas o Intercept submeteu a redação e os profissionais da casa a um sistema de segurança de impressionante rigidez. Buscava-se impedir que um vazamento, mesmo involuntário, desse pretexto para que o arremedo virulento de Estado policial encontrasse um pretexto para mandados de busca e apreensão que acabassem pondo tudo a perder. Assim, era preciso:
- proteger os próprios jornalistas de uma eventual ação truculenta;
- assegurar a incolumidade do arquivo para que pudesse ter a devida divulgação;
- garantir que uma cópia do material ficasse em local seguro, fora do país.

E assim se fez.

Reproduzo um trecho:
O assistente-administrativo, André Souza, ficaria encarregado do treinamento da equipe. Ele já estava em contato com o time americano para aprender os processos de criptografia. Deflagraram, então, uma campanha interna para garantir que as orientações da empresa estavam realmente sendo seguidas. Todos deveriam trocar suas senhas, mudar suas configurações e usar autenticação de dois fatores para todas as suas contas em redes sociais. Para se conectar à internet, usariam VPN (Virtual Private Network), uma rede privada virtual que oferece ferramentas adicionais de criptografia e navegação sigilosa.

Também foram alertados para o risco de busca e apreensão na redação quando a reportagem secreta fosse publicada. Teriam de fazer backups dos computadores e guardá-los em HDs externos criptografados fora da redação, para poderem continuar trabalhando caso os computadores fossem recolhidos. Exigiram ainda que todo mundo apagasse conversas antigas com fontes e qualquer informação que pudesse revelar suas identidades ou ser distorcida contra o Intercept. A preocupação com a segurança era tanta, e incluía tantos diferentes cenários de risco, que virou até piada na redação.

Nascia ali a "Editoria de Paranoia".

O livro sobre a Vaza Jato também é uma aula sobre os procedimentos e a ética que adota o verdadeiro jornalismo investigativo. Nesse ponto, é justo que se indague: "Por que, Reinaldo? Existe o falso jornalismo investigativo?" Sim, existe! É aquele que se limita a vazar dados de investigações sigilosas, ficando apenas na dependência de um procurador ou de um delegado amigos — que são autoridades de Estado. Nesse caso, a imprensa atua apenas como linha auxiliar das forças policiais e parapoliciais.

Ou o jornalismo investigativo apura aquilo que forças da ordem não querem que seja apurado, ou investigativo não é, ainda que a prática possa ser, eventualmente, chamada de "jornalismo". Com uma nota: se o vazamento propiciado pelo agente do Estado não se faz acompanhar de nenhuma apuração, aí nem jornalismo é. Escolha-se um outro nome para a coisa: lobby, militância política, fontismo, preguiça, sei lá...

DA INCREDULIDADE À OPERAÇÃO DE GUERRA
De 12 de maio de 2019, quando os hackers enviaram uma mensagem à ex-deputada Manoela D'Ávila -- que entrou em contrato com o Intercept -- a 9 de junho, quando a primeira reportagem foi ao ar, montou-se uma verdadeira operação de guerra, que levou a equipe a quase um colapso nervoso.

Era um domingo. A partir do dia seguinte, olhar a Lava Jato com olhos críticos não era mais uma questão de escolha, mas de caráter. Bem poucos ousavam, até então, apontar o dedo para as heterodoxias legais da operação, que havia legado ao Brasil não só o esgarçamento do devido processo legal, mas também a Presidência de Jair Bolsonaro, à qual Sergio Moro servia como ministro da Justiça.

E o que a Vaza Jato começava a revelar? As estrepolias de Moro e dos procuradores que podiam ser vistas à luz do dia, infelizmente reverenciadas por amplos setores da imprensa e por muitos operadores do direito, escondiam coisas ainda mais escabrosas.

Sim, foi preciso coragem para trazer aquilo tudo à luz.

Leandro Demori, no comando do The Intercept Brasil, e Glenn Greenwald sabiam que começavam a travar a mais dura de todas as batalhas: aquela que se dá contra a "doxa". Escolho, para ser o menos judicioso possível, a definição que o Dicionário Houaiss dá à palavra:
"Sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento".

Muita coisa aconteceu desde aquele dia 9 de junho de 2019. E muita coisa ainda vai acontecer, inclusive envolvendo a Vaza Jato. O livro traz também um conjunto de reportagens — aquelas mais significativas para expressar o espírito de um tempo.

Ali não está, por exemplo, reportagem recente do Intercept sobre os esforços de Deltan Dallagnol para definir o nome do juiz que substituiu Sergio Moro na 13ª Vara Federal de Curitiba. Vejam a ousadia: o órgão acusador ousava escolher o juiz!

Clique aqui e reserve o seu exemplar de "Vaza Jato - Os bastidores das reportagens que sacudiram o Brasil". Um outro subtítulo também seria ajusto: "A coragem que ousou, com os fatos, desafiar o mau consenso".