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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro se deu mal, mas base de apoio não; "progressistas" encolheram

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

17/11/2020 07h15

As evidências de que o presidente Jair Bolsonaro foi pessoalmente derrotado nas eleições municipais estão em todo canto. Convém, no entanto, não tomar algumas dados desta disputa como sinal do que pode acontecer em 2022. Ou melhor: convém tomá-los como advertência. Os que, a despeito das divergências, têm algum compromisso com o pacto civilizatório têm de olhar com muito cuidado para eles.

Os números são muito ruins para a esquerda e a centro-esquerda. Se você quiser chamar o PSDB e o MDB de "centro", as notícias, então, não são boas para o dito-cujo. Entre os centristas, o DEM obteve resultados vistosos. Mais à direita, ainda que seja bastante heterogêneo, o PSD pode ser considerado outro vencedor nas urnas. Outras legendas que compõem o centrão e agregados da base bolsonarista exibiram comportamento robusto.

ESQUERDA E CENTRO-ESQUERDA
Em 2016, o ano horrível para elas, as esquerdas obtiveram 10.675.700 votos; agora, 10.385.170 -- uma queda de 2,72%. Não se assistiu ao renascimento do PT nas Prefeituras país afora -- sim, faltam ainda disputas de segundo turno. Houve crescimento de apenas 2,53% do seu eleitorado: de 6.795.749 votos para 6.967.553. O partido elegeu 254 prefeitos há quatro anos, o que já foi visto como desastroso (630 em 2012). Agora, apenas 174. O PCdoB caiu de 81 para 45. Seu eleitorado murchou de 1.781.388 para 1.184.243 (menos 33,52%). O PSOL teve um crescimento de 6,42% (de 2.098.633 para 2.233.374). As 337 prefeituras das esquerdas em 2016 caíram para 223.

Chamemos PDT, PSB e Rede de centro-esquerda. O retrato também não é bom. Seus votos totais caíram de 15.807.615 para 10.944.128 — menos 30,77%. O PDT obteve 5.318.595 votos em 2020, contra 6.404.512 em 2016, caindo 16,96%; o PSB, 5.238.449 contra 8.407.656, menos 37,69%, e a Rede quase some: 387.034 agora contra 995.447 há quatro anos: queda de 61,11%. Ganharam em 747 municípios no pleito passado; desta vez, em 585 (menos 24,36%). O PSB sofreu a maior baixa: de 407 para 250; o PDT, de 334 para 310. A Rede ficou com uma a menos: apenas 5 agora.

CENTRO E CENTRO-DIREITA
O desempenho eleitoral do PSDB, em votos, teve um decréscimo de 39,31%: de 17.633.653 votos para 10.924.918. O MDB teve baixa significativa: de 15.026.090 para 10.924.918. Os tucanos perderam 35,92% das Prefeituras: de 799 para 512; o MDB sofreu baixa de 25,86%: de 1.044 para 774. O DEM, por sua vez, cresceu muito: seu eleitorado saltou de 4.937.238 para 8.300.991: 68,13%. Suas 268 cidades saltaram para 459 (71,27%).

CENTRÃO
Os 24.373.585 eleitores do centrão se tornaram 30.527.958 -- crescimento de 25,23%. Embora o PSD não se considere do centrão, assim é considerado como comportamento político. O eleitorado do partido cresceu de 8.085.600 para 10.615.207 -- 31,29%. Suas 639 prefeituras são agora 650. O PP também avançou 31,77% -- de 5.747.833 para 7.573697, passando de 495 prefeituras para 681 (37,58%). Até o PL ganhou eleitores: de 4.553.814 para 4.672.865 (2,61%). Terá 341 cidades contra 297 antes. Eleitores do bloco PTB, Solidariedade, PROS e Avante passaram de 5.989.338 para 7.666.189 (28%), com 423 cidades (379 antes).

BOLSONARIZADOS
E há, finalmente, um grupo que reúne Republicanos, PSL, PSC, Patriotas e PRTB. Esse conjunto passou de 6.580.533 votos para 12.919.704 votos, com avanço de 96,33%. As 244 prefeituras da turma passaram a ser 467.

VAMOS VER
Bolsonaro e seus fanáticos quebraram a cara ao supor que este 2020 conservava o clima de 2018, com a aposta na antipolítica e nos outsiders. Deu o contrário. Em regra, com exceções que a confirmam, os eleitores escolheram a experiência. A popularidade do presidente, note-se, está em queda. Pior quando o auxílio emergencial é reduzido à metade em tempos de uma brutal inflação de alimentos. Ainda que venha a ser temporária, a insatisfação se manifesta. Sim, Bolsonaro se deu mal, mas os partidos que hoje lhe dão sustentação, ainda que crítica, se deram muito bem. Antevisão: se o governo já vem sendo loteado, esperem para ver o que virá.

O crescimento do DEM não é uma boa notícia para o presidente porque a legenda pode buscar hegemonizar, em companhia do PSDB e do PMDB, mesmo com o declínio de votos, uma candidatura de centro. O desafio é encontrar um nome competitivo e que junte as várias ambições aí contidas. O centrão (incluído aí o PSD) obteve votação expressiva e tem fome. Forma um exército e tanto com as legendas, digamos, bolsonarizadas — ainda que distantes daquela histeria de 2018.

Há sinais que a sociedade brasileira começa a se cansar da histeria do presidente, do seu negacionismo, da sua vulgaridade, da sua agressividade, do seu desrespeito a qualquer liturgia do cargo. Ocorre que é preciso saber o que oferece o mercado das ideias. Ainda que eleições municipais tenham marcas específicas, o fato é que a base que dá sustentação ao presidente saiu fortalecida. À esquerda e à centro-esquerda, resta refletir a quantas anda a sua conexão com o eleitorado. Ao centro, à centro-direita e mesmo a legendas do centrão que gostariam de se livrar de Bolsonaro, resta criar uma alternativa de poder.

"Ah, é cedo para pensar nisso!"

Será? A experiência indica, a uns e outros, que já começa a ficar a tarde.