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Reinaldo Azevedo

Impeachment junta diferentes por algo que rejeitam; não é soma de quereres

Torcidas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo e do Santos se juntam em protesto em defesa da democracia no dia 31 de maio do ano passado - Jornalistas livres
Torcidas do Corinthians, do Palmeiras, do São Paulo e do Santos se juntam em protesto em defesa da democracia no dia 31 de maio do ano passado Imagem: Jornalistas livres
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

25/01/2021 10h08

As esquerdas e movimentos sociais foram às ruas, ainda que de carro quase sempre, no sábado. Movimentos como o MBL e o Vem Pra Rua, de direita — não emprego o termo como palavrão, sabem disso —, protestaram no domingo. Todos pediram o impeachment de Jair Bolsonaro. Por que não estavam juntos? Bem, nem preciso me dedicar a prosopopeias a respeito.

Já escrevi em meu perfil no Twitter (@reinaldoazevedo) que, quando um grupo ou movimento convocam um protesto, não é para dar beijo na boca nem para casar. Também recorri à figura do navio. Está adernando? Primeiro se põe o troço no prumo para não naufragar. Uma vez em terra firme, os grupos podem se dividir e trocar tapas à vontade.

"Ah, sabe o que é? É que vocês fizeram tal coisa em 2016..." Ao que o outro poderia responder: "E vocês, quando estavam no poder?" E Bolsonaro vai adorar assistir de camarote a esse tipo de confronto. Ninguém precisa abrir mão de sua agenda para pedir o impeachment do presidente negacionista. Ou precisa? Como esquecer que Dilma Rousseff chegou a constituir uma base de apoio ainda mais ampla do que a de Lula? Foi a maior desde a redemocratização. E caiu. Observem que não estou entrando no mérito se a queda foi ou não foi justa. Eis aí uma disputa sobre o passado.

"Ah, mas é preciso contar a história direito", podem dizer vozes dos dois lados. Que cada um proceda aos esforços que julga necessários para emplacar a sua leitura dos fatos. Nada disso é inviável. Uma coisa é fato histórico inquestionável: os que defenderam o impeachment de Dilma deixaram de lado suas divergências ao organizar protestos. Ainda que pudessem se reunir sob bandeiras distintas.

De resto, meus caros, vamos ser claros, e esta me parece uma lição relevante: para se juntar numa coligação e eleger um presidente, é preciso juntar quereres e afinidades. Ou por outra: as forças políticas dizem o que querem. Para a deposição, o que se faz é uma afirmação negativa: as várias correntes de opinião se juntam a partir daquilo que não querem. E, parece-me, grupos os mais distintos não querem o negacionismo, o trinfo da morte, a truculência, o golpismo, a estupidez contra a ciência, as agressões a direitos fundamentais...

Convém, de resto, não brincar de fazer cálculos tendo o demônio como parceiro. "Ah, se eu jogo para enfraquecer o Bolsonaro, posso estar ajudando a ascensão de uma direita mais light, que também é minha inimiga". Esta, por óbvio, é uma voz surda de esquerda. Ou, então, na voz surda da direita: "Ah, se ajudo a derrubar Bolsonaro, é como se estivesse dizendo que o PT tinha razão". Eis o que chamo fazer parceria com o Tinhoso porque, por óbvio, esses calculismos toscos só colaboram com quem está no poder e, pois, dispõe de mais meios para pressionar. Chamo essas maquinações de fazer cálculo com o demônio porque é evidente que o Coisa Ruim vai trair quem o tirar para dançar.

O impeachment já é uma tarefa dificílima se todos os que não querem Bolsonaro se juntarem para isso ao menos. Ficar alegando exclusivismo moral quando o navio afunda corresponde a apostar no... afundamento do navio.