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Reinaldo Azevedo

Lira e convidados beberam champanhe sobre uma montanha de 227 mil cadáveres

Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. Ali os pobres de tão pretos e pretos de tão pobres são enterrados. Alguns morreram asfixiados por falta de oxigênio. E Arthur Lira na festa despudorada, oferecida por um empresário amigo - Michael Dantas/AFP; Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
Cemitério Nossa Senhora Aparecida, em Manaus. Ali os pobres de tão pretos e pretos de tão pobres são enterrados. Alguns morreram asfixiados por falta de oxigênio. E Arthur Lira na festa despudorada, oferecida por um empresário amigo Imagem: Michael Dantas/AFP; Dida Sampaio/Estadão Conteúdo
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

03/02/2021 06h48

Estamos deixando de ser um país. Estamos nos tornando uma caricatura. Como isso pode dar certo? Talvez por milagre — o tal evento sem causa.

A festa para mais de 300 pessoas — sem máscara e com a presença de ministros — para comemorar a vitória de Arthur Lira na disputa pela Presidência da Câmara, quando o país conta com 226 mil mortos por covid-19, em plena segunda onda da doença, é dessas coisas que não aconteceriam há, sei lá, três ou quatro anos. E, se acontecesse, seria tratada por aquilo que é: um escândalo.

Que tipo de gente descumpre todas as recomendações sanitárias para conter a expansão do vírus e faz uma festança de arromba quando pessoas estão morrendo por falta de oxigênio, com uma média diária de contágios acima de 50 mil e de mortes acima de mil?

Lá estavam deputados e deputadas, ministros de Estado, quadros da alta administração e aquela gente estranha que costuma voejar em torno dos poderosos de Brasília, mais ou menos como as moscas se aglomeram sobre o estrume?

E, santo Deus!, a justificativa é que o homenageado da noite nada tinha a ver com o evento. Seria oferta de um empresário, que abriu as portas de sua mansão, à beira do Lago Paranoá, região nobre de Brasília, satisfeito com a vitória de Lira. Os liberais de antigamente não acreditavam em almoço grátis. Essa súcia que aí está finge acreditar em banquete grátis.

Estamos vivendo uma tragédia civilizacional.

"Ah, mas Bolsonaro mostrou o seu poder no Congresso!" Não. Mostrou o seu poder para comprar uma fatia dele. Vamos ver como é que se engaja gente assim com uma agenda que tenha um mínimo de seriedade.

Por que um empresário desafia as regras sanitárias e fundamentos básicos da moral e da ética para comemorar, sobre uma montanha de quase 230 mil cadáveres, a chegada de um deputado à Presidência da Câmara?

Eis uma tarefa para a jornalismo investigativo.

Ah, sim: o tal, a exemplo de Lira, também é um investigado.

O emblema da noite foi a ex-deputada Cristiane Brasil, filha de Roberto Jefferson, a entoar: "Eu só peço a Deus um pouco de malandragem".

Ah, sim: Joice Hasselmann (PSL-SP), que declarou voto em Baleia Rossi, não resistiu e foi beber champanhe no regabofe de Lira. Flagrada por uma câmera de celular, cobriu-a com a mão. Um assessor seu, ou coisa parecida, ajudou a impedir a filmagem alegando tratar-se de evento privado.

Cazuza e Cássia Eller soltaram alguns palavrões no paraíso.

Falavam da malandragem dos inocentes.