PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Missão Borat nos envergonha em Israel e é mantida sob severa vigilância

Sei, parece o ator Sacha Baron Cohen no papel de Borat, né? Engano. É Ernesto Araújo ensinando ao mundo como se usa uma máscara  - Reprodução
Sei, parece o ator Sacha Baron Cohen no papel de Borat, né? Engano. É Ernesto Araújo ensinando ao mundo como se usa uma máscara Imagem: Reprodução
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

08/03/2021 07h40

A advertência feita pelo cerimonial da chancelaria de Israel para que Ernesto Araújo, nosso ministro das Relações Exteriores, colocasse a máscara para fazer uma foto ao lado de Gabi Ashkenazi, seu homólogo naquele país, é só mais um vexame internacional protagonizado pelo governo brasileiro. Sim, o ocorrido nos cobre de vergonha, mas chega a ser um evento menor, dado o tamanho da tragédia que vivemos por aqui.

Deus do céu! O que fazem aqueles dez patetas na "Missão Borat em Busca do Spray Milagroso"?

Oficialmente, trata-se de uma missão científica. Só que não há cientistas no grupo. Além de Araújo, integram a comitiva:
- Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado federal;
- Hélio Lopes (PSL-RJ), o "Hélio Negão", também deputado;
- Fábio Wajngarten, assessor especial da Presidência:
- Filipe Martins, também assessor da Presidência;
- Max Guilherme Machado de Moura, outro assessor, ex-policial do Bope (RJ);
- Kenneth Félix Haczynski da Nóbrega, do Itamaraty;
- Hélio Angotti Neto, do Ministério da Saúde;
- Marcelo Marcos Morales, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação;
- Pedro Paranhos, também do Itamaraty.

Dessa turma, há apenas dois que sabem a diferença entre um vírus e um fardo de alfafa: os médicos Angotti e Morales. Precisamos recorrer à Lei de Acesso à Informação para conhecer os supostos acordos que estariam sendo firmados. A Lei da Improbidade Administrativa existe também para punir gastos inúteis.

BRASIL E ISRAEL
Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, é o único político de relevo no mundo que dá bola para Bolsonaro.

O líder israelense faz o certo em seu país no combate à covid-19, mas endossa politicamente o negacionismo do presidente brasileiro e de sua escória. Essa viagem ridícula é a prova disso.

Como esquecer? Netanyahu protagonizou o vídeo mais contundente de um chefe de Estado contra a estupidez negacionista. Fez, na prática, pouco caso de todas as convicções do presidente brasileiro e daquela comitiva que lá estava, espalhando mundo afora nosso constrangimento e nossa vergonha.

Netanyahu chegou a falar do tal spray, mas, em seu país, ele se organizou mesmo para comprar a vacina e para garantir a imunização em massa. Mas Bolsonaro está fazendo mais propaganda do tal spray do que o próprio governo de Israel.

Ao permitir, no entanto, a viagem, Netanyahu coonesta essa farsa, como se o tal spray fosse coisa prestes a se realizar. Bolsonaro já usou aquele país para fazer proselitismo sobre armas, por exemplo.

Ocorre que há a promessa da absurda transferência da embaixada brasileira naquele país para Jerusalém, suspensa por ora. O bolsonarismo abraça as teses do sionismo reacionário, e Netanyahu não se importa de ter seu governo associado a essa súcia de negacionistas delirantes.

Ocorre que Israel realmente tem um Estado que funciona independentemente do governo. Aqui, a Missão Borat posou para fotografias sem máscara, ao lado do presidente. Lá, os valentes tiveram de seguir as regras. Ademais, são mantidos, o que foi anunciado pelo próprio governo, sob severa vigilância para que sua circulação se limite a eventos oficiais.

O comportamento de Araújo, tentando emplacar uma foto sem máscara ao lado de Ashkenazi, evidencia que todo cuidado é pouco.

Israel não é um país conhecido por se descuidar da segurança externa e interna. Os dez brasileiros que estão por lá, dado o comportamento do chanceler brasileiro, são, obviamente, um risco.