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Reinaldo Azevedo

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Os candidatos a sentar na cadeira de depoente na CPI, que começa na quinta

Omar Aziz, Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues (a partir da esq.), respectivamente presidente, relator e vice-presidente da CPI da Covid. Mas governo ainda tenta dar golpe na comissão com Eduardo Girão - Reprodução
Omar Aziz, Renan Calheiros e Randolfe Rodrigues (a partir da esq.), respectivamente presidente, relator e vice-presidente da CPI da Covid. Mas governo ainda tenta dar golpe na comissão com Eduardo Girão Imagem: Reprodução
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

19/04/2021 07h21

A CPI da Covid, que se instala na quinta, tem tudo para estabelecer o roteiro pregresso das omissões, incompetências e desatinos que resultaram em quase 380 mil mortos até agora. Há coisa de um mês, afirmei que o governo Bolsonaro premiaria as mães, no seu Dia, com 400 mil mortos. Eficiente em enterrar e queimar gente, a política oficial entregará bem mais do que isso no dia 9 de maio. A comissão não pode ter os olhos voltados apenas para o passado. Também tem de procurar, nos limites do que lhe cabe fazer, salvar vidas. Assim, entendo que o primeiro a ser chamado para ocupar a cadeira destinada àqueles que prestarão depoimento deva ser Marcelo Queiroga, o atual interventor da Saúde, com fama de ministro.

Temos de conhecer o que até agora não conhecemos: os planos deste senhor. Mais: é preciso, de olho no organograma da Pasta e na distribuição de competências, ouvir os auxiliares de Queiroga, que ainda opera, basicamente, com a equipe de Eduardo Pazuello. O país precisa saber o que está efetivamente sendo feito para pôr fim ao morticínio em massa que está em curso.

E, sim, por óbvio, todos aqueles que, desde o primeiro momento, foram encarregados de cuidar da política oficial de combate à covid-19 têm de falar. O país precisa saber, por exemplo, por que o governo federal não fez, desde que o vírus foi detectado no Brasil, uma campanha de esclarecimento e de advertência de abrangência nacional. Não é só a área de Saúde que tem de ocupar a cadeira dos depoentes. Também os que responderam e respondem pela área de comunicação precisam explicitar a teoria e os termos nos quais se embasaram para ser esta que temos — que é quase nenhuma — a política oficial de informação.

Há uma questão nessa área que precisa ser respondida: desde que se confirmou o primeiro caso de covid-19 no Brasil, no dia 16 de fevereiro do ano passado, quanto o governo federal gastou em verba publicitária. Desse total, que percentual foi dedicado ao combate à doença — afinal, essa era e é a questão mais importante e mais urgente do país.

Conhecemos — ainda que faltem muitos detalhes — a irresponsabilidade do governo na compra das vacinas e os desatinos com a produção e incentivo ao uso da cloroquina e outras drogas inúteis. Tudo isso requer uma investigação minuciosa, e os protagonistas têm de ser chamados a dar explicações. Mas precisamos ter mais clareza sobre as balizas que orientaram o governo. Assim, aquela cadeira está a convidar também Paulo Guedes.

O ministro que responde pela condução da economia fez as devidas advertências ao governo, destacando que, com a doença em descontrole, o colapso não se limitaria à área de Saúde? Em algum momento, ao longo desses 14 meses, definiu-se lá no Planalto que combater a doença era a precondição de todas as outras escolhas?

É evidente que o ex-chefe da Casa Civil e hoje ministro da Defesa, Braga Netto, também tem a sua imensa cota de esclarecimentos. Relatório do TCU aponta a omissão de sua pasta. E a razão é simples: era ela que coordenava o programa nacional de combate à doença. Assim, temos de conhecer os planos de contingência e as urgências que orientaram o homem destacado pelo governo federal para cuidar do assunto. Adicionalmente, o general da reserva pode explicar a quantas anda o programa do Exército de produção de droga comprovadamente inócua no combate à doença.

Uma CPI não precisa ater-se apenas a ouvir autoridades do governo. É preciso que também os cientistas e os médicos sejam chamados. Em uma de suas lives em defesa do tratamento com drogas ineficazes, Bolsonaro utilizou um comunicado do Conselho Federal de Medicina, que jamais desaconselhou o tratamento sabidamente inútil. Segundo o comando do órgão, a questão diz respeito à relação de confiança entre médico e paciente. Assim, inexistindo uma droga para enfrentar a doença, perguntam por lá, ainda que de maneira oblíqua, por que não a cloroquina? Mas, então, pergunto eu: por que não chá de camomila ou suco de limão?

É preciso que o tal Ribeiro nos diga qual a diferença entre a fumaça de solda proposta por Ivo Cassol, ex-governador de Rondônia, e cloroquina, hidroxicloroquina e outras drogas inúteis. As evidências de efetividade desses remédios e da fumigação de Cassol são as mesmas. Então é preciso que ele explique por que a cloroquina pode ser tolerada pelos médicos, mas não a fumaça de solda.

TENTATIVA DE GOLPE
Para registro: o governo ainda não desistiu de tentar golpear a CPI. Osmar Azis (PSD-AM) deve ser o presidente. Se acontecer mesmo, como tudo indica, convidará Renan Calheiros (MDB-AL) para relator. Na vice-presidência, fica Randolfe Rodrigues (Rede-AP) -- aquele em quem Bolsonaro gostaria de dar um sopapos --, autor do requerimento.

Na sexta à noite, Eduardo Girão (Podemos-CE), o autor do requerimento da "CPI do Bolsonaro" — que, ao arrepio da Constituição, pretendia investigar governadores — lançou a sua candidatura ao comando da comissão. Como o governo tem apenas quatro votos, isso seria impossível.

Por essa razão o Planalto pressiona o PSD para que substitua Aziz e Otto Alencar (BA) — dois nomes críticos à política federal de Saúde — por senadores governistas. É pouco provável que aconteça. Mas isso dá conta dos temores que a comissão desperta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL