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Reinaldo Azevedo

Depoimento de Terra evidencia algo além do negacionismo: é o "negocionismo"

O deputado e médico Osmar Terra durante depoimento à CPI. Foi a mais repulsiva e compulsivamente mentirosa de todas as participações - Pablo Jacob/Agência O Globo
O deputado e médico Osmar Terra durante depoimento à CPI. Foi a mais repulsiva e compulsivamente mentirosa de todas as participações Imagem: Pablo Jacob/Agência O Globo
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

22/06/2021 22h49

O deputado Osmar Terra (MDB-RS) foi, de muito longe, a figura mais repulsiva que prestou depoimento à CPI da Covid. E sabemos que falou porque quis. Foi, sim, convocado, mas é bom que fique claro: não era obrigado a fazê-lo. Bastaria ter lembrado ao comando da CPI o que dispõe o Parágrafo 6º do Artigo 53 da Constituição:
§ 6º Os Deputados e Senadores não serão obrigados a testemunhar sobre informações recebidas ou prestadas em razão do exercício do mandato, nem sobre as pessoas que lhes confiaram ou deles receberam informações.

Mas Terra, que as redes sociais batizaram de "Enterra" em razão do efeito prático que têm a suas ideias — que não são só suas, mas é fato que atua como conselheiro do presidente da República —, fez questão de falar. E nunca antes nesta CPI alguém mentiu de forma tão determinada. E, no seu caso, sabemos, o desdobramento possível deveria se dar no Conselho de Ética da Câmara. Não vai acontecer. E os reacionários do Rio Grande do Sul já tem o seu bastião para a Câmara em 2022. É possível, inclusive, que o deputado tenha feito uma torção à extrema direita para mudar seu eleitorado.

Quem ainda não o fez deve assistir ao documentário "A Terra é plana?", que retrata o encontro anual de terraplanistas. Destaco um aspecto em particular da turma, que é mais divertida, note-se, do que os negacionistas brasileiros. Em seus esforços, eles colhem evidências de que a Terra é... redonda. Diante do dado escancarado, afirmam algo como: "Está vendo, não falei?" Há muitos grãos de loucura no grupo.

Não é caso do cloroquinismo no Brasil. O negacionismo também é um "negocionismo". Também envolve, por óbvio, interesses. O que nos terraplanistas é loucura autofinanciada é, no "bolso-terrismo", exercício de poder e política deliberada para mobilizar setores do eleitorado e a parte mais atrasada do empresariado. Como temos visto. E Terra decidiu emprestar a sua cara de "médico" ao delírio anticientífico. Se aqueles do documentário negam o que veem por maluquice, Terra não tem receio em dizer os maiores disparates por cálculo.

Afirmou, por exemplo:
"As previsões que eu fiz foram baseadas não num estudo matemático apocalíptico como foi o do Imperial College, mas nos fatos que existiam na época, em março. Fevereiro e março".

No dia 11 de março, com atraso — e não há cientista responsável que conteste a demora —, a Organização Mundial de Saúde declarou a existência da pandemia. Em março do ano passado, este senhor declarou que, em 12 ou 13 semanas, o ciclo da pandemia chegaria ao fim porque é esse o comportamento do vírus.

Em julho, muito além das tais treze semanas, ele estava liderando os esforços contra a quarentena. E falou nestes termos à CNN:
"Eu tenho muito receio de botar apelido nas pessoas. Então tenho que chamar os que defendem a quarentena de apocalípticos, de catastrofistas. Hoje está um esforço muito grande da mídia, não coloco a CNN nisso, de assustar as pessoas. Assustar, assustar, não explicam nada, não falam dos ciclos virais, como funcionam, não mostram luz no fim do túnel. É medo, medo, caixão, caixão, cova rasa, só para assustar as pessoas. Tratam as pessoas de forma infantil, acham que têm que botar medo para as pessoas ficarem trancadas dentro de casa".

No dia 31 de julho do ano passado, contavam-se 92.568 mortos. Nesta terça, segundo a contabilidade do consórcio dos veículos de comunicação, são 504.897. Que importa que, em 11 meses, o número de óbitos tenha se multiplicado por mais do que cinco?

Terra se negou a reconhecer os erros do passado e continua a defender as mesmas teses. Seu compromisso não é com os fatos, mas com o eleitorado que busca cativar. E sua condição de médico serve apenas para tentar emprestar certa credibilidade ao deputado. E o deputado enlameia a reputação do médico porque, no fim das contas, o que ele quer é chafurdar no pântano das disputas políticas mesquinhas. E pouco importa quantos morram no meio do caminho.

Reitero: ele depôs porque quis. A Constituição lhe garantia o direito de não depor. Nem precisaria recorrer ao Supremo. Na prática, preferiu usar o negacionismo e o morticínio como palanque.

O CASO DA SUÉCIA
A cara de pau é de tal sorte que chegou a apontar a Suécia como um caso bem-sucedido de combate à Covid-19 porque ali não houve lockdown. Que se note: houve, sim, medidas restritivas, mas bem mais leves no que nos países vizinhos. E o país é um caso de gestão desastrosa da Covid. Tanto é assim que o governo caiu, em meio à terceira onda da doença.

O primeiro-ministro Stefan Löfven recebeu, pela primeira vez na história do país, voto de desconfiança. O país conta com 141,7 mortos por 100 mil habitantes, contra 14,7 na Noruega, 17,5 na Finlândia e 43,2 na Dinamarca. No Brasil, com efeito, são 238 por 100 mil. Mas comparem as condições da pobreza brasileira com as da pobreza sueca.

Terra, reitere-se, não tem compromisso com os fatos. Negou o que a ciência comprova de modo peremptório e irrespondível: os lockdowns funcionam para fazer despencar as curvas de contaminação e morte, como evidencia a cidade de Araraquara, no Brasil. Ou o Reino Unido, que o deputado citou como exemplo negativo, onde teria havido surtos gigantescos apesar dos lockdowns. Não! É o contrário. Boris Johnson hesitou em recorrer à medida. Aliás, quem popularizou no mundo a expressão "imunidade de rebanho" foi o gabinete de Johnson. E experimentou a tragédia.

Mas ele, ao menos, aprendeu com o erro. Johnson passou a adotar os lockdowns, e o número de contaminados e mortos despencou, números consolidados depois com uma ampla vacinação.

ASQUEROSO
Chamei seu depoimento de repulsivo porque se nota ali a retórica de alguém que pretende torturar a medicina para obrigá-la a confessar o que quer o político. Mas ele conseguiu ir além, sendo asqueroso. Afirmou, por exemplo, que, se isolamento funcionasse, não haveria tantas mortes em asilos. É boçal. Isso aconteceu não porque os idosos tenham ido colher o vírus nas ruas, mas porque o vírus invadiu os estabelecimentos a partir daqueles que mantinham contato com o mundo externo. E, aí sim, o confinamento torna tudo pior porque se supõe um contato mais próximo entre as pessoas confinadas do que em outros ambientes.

Terra não sabe disso? Sim, ele sabe disso.

E, claro!, negou que tenha feito parte de um gabinete paralelo quando vídeos, testemunhos e fatos apontam o contrário. Nomeado numa reunião informal pelo próprio presidente, foi uma espécie de coordenador daqueles que resistiam às orientações da ciência.

Em março do ano passado, o deputado previu que o novo coronavírus mataria no Brasil menos do que o H1N1, que matou 796 pessoas em 2019. Já são 504.897 mortos. Ele errou, digamos, 634,29 vezes. Mas o "Enterra", como o chamam as redes, exibe a convicção, que deve ser falsa, de que fez a coisa certa. Os fatos não são do seu interesse.

Foi à CPI caçar votos.

Depois de Bolsonaro, ele é o mais agressivo dos homens públicos a fazer uso da necropolítica: a política da morte.

Não é só negacionismo. Também é "negocionismo".