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Reinaldo Azevedo

Protesto reúne milhares em Cuba; a retórica autoritária só muda de inimigos

Agentes cubanos, disfarçados de povo, prendem um manifestante. Bolsomínions poderiam copiar, com pequenas alterações, a cascata contada pelo "Granma", órgão oficial do Partido Comunista - AFP/Vídeo: EPV
Agentes cubanos, disfarçados de povo, prendem um manifestante. Bolsomínions poderiam copiar, com pequenas alterações, a cascata contada pelo "Granma", órgão oficial do Partido Comunista Imagem: AFP/Vídeo: EPV
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

12/07/2021 02h11

Milhares de pessoas foram às ruas neste domingo, em vários pontos de Cuba, incluindo Havana, a capital, para protestar contra o governo, que convocou membros do Partido Comunista a fazer uma espécie de contramanifestação, que foi ineficaz. Houve centenas de detenções.

Os manifestantes protestavam contra a crise econômica e o combate ineficaz à Covid-19. Para registro: moram na ilha 11,2 milhões de habitantes, e os números oficiais apontam 1.537 mortos. Se o Brasil tivesse a taxa de Cuba, haveria por aqui 29.093 cadáveres, não 533.546. Isso quer dizer que, dadas as respectivas populações, a doença mataria em Banânia mais de 18 vezes o que mata por lá. Isso dá conta do tamanho da nossa tragédia, sim. Mas também pode indicar que há subnotificação em Cuba, uma das acusações feitas pelos manifestantes.

Interessa-me a retórica de governos quando os descontentes protestam. Cuba, obviamente, é uma ditadura, em que a oposição está proibida de se organizar em partidos. O enfrentamento ao governo tem de se dar de modo clandestino. O Brasil é uma democracia, mas conta com um ogro na chefia do governo e do Estado. Foi eleito segundo as regras do jogo, mas, no poder, busca solapá-la. Nos últimos tempos, ele vem ameaçando o país com um golpe de Estado. Nota recente do Ministério da Defesa, com a assinatura dos três comandantes militares, faz supor quer seu delírio encontraria algum eco nas Forças Armadas.

A ideologia oficial de Cuba não tem nenhuma intimidade com o, vá lá, "pensamento militar" brasileiro. Tampouco o mandatário daqui tem simpatia pelo regime de lá. Ao contrário: recentemente, Bolsonaro sugeriu no Twitter que esquerdistas teriam importado um método cubano para intimidar o STF, que, então, teria imposto derrotas ao bolsonarismo. É só delírio estúpido e paranoico.

Miguel Diaz-Canel, presidente de Cuba e primeiro secretário do Comitê Central do Partido Comunista — o único legal na ilha —, fez um pronunciamento na televisão. E, para a surpresa de ninguém, culpou pela crise em curso o imperialismo americano e o embargo econômico imposto pelos EUA. Por trás da manifestação, haveria pessoas interessadas na desestabilização do regime. Até chegou a admitir que "pessoas revolucionárias" também estavam protestando, mas seriam, coitadas!, manipuladas por malfeitores das redes sociais.

Vale ler no "Granma", órgão oficial do partido, o relato sobre a manifestação e a resposta do governo. A coisa tem lá a sua graça. Os bolsominions poderiam pegar a estrutura de texto dos comunistas cubanos e usá-la para defender o "Mito". Bastaria trocar Díaz-Canel por "Bolsonaro"; os EUA por "as esquerdas"; imperialismo por "globalismo"; socialismo por "valores cristãos" e pronto!

Por aqui, Bolsonaro anuncia que não haverá eleição se não for a seu modo. Díaz-Canel dramatizou:
"Terão que passar por cima de nossos cadáveres se querem enfrentar a revolução. Estamos dispostos a tudo". E foi adiante: "A ordem de combate está dada. Não vamos permitir que nenhum contrarrevolucionário, mercenários vendidos ao império americano (...), desestabilizem o país".

Por aqui, os supostos inimigos do regime são os "comunistas". Por lá, os "anticomunistas".

A simplificação ignora o fato de que os manifestantes, descontentes também com a falta de remédios — e a com a dificuldade do governo para receber ajuda humanitária, já que considera exemplar seu sistema de saúde —, gritavam "Abaixo a ditadura!" e "Liberdade!". A propósito: Cuba é uma ditadura, sim, onde inexiste liberdade política.

Infelizmente, setores relevantes das esquerdas brasileiras, que ocupam as ruas contra o governo golpista de Jair Bolsonaro, vão fingir que, em Cuba, são os contrarrevolucionários que fazem o mesmo — o que até Díaz-Canel admite ser mentira, embora aponte que o povo estaria sendo manipulado.

Pois é. Entendo restar um caminho às pessoas decentes no Brasil: manifestar-se contra um presidente que perdeu completamente a condição de governar, sufocado por sua própria delinquência e por uma penca de crimes. Ocorre que ao povo cubano não resta alternativa à luta por liberdade política.

É claro que o embargo contra a ilha é uma estupidez. Tomá-lo, no entanto, como a causa de haver uma ditadura naquele país é uma bobagem. Sem ele, mas conservados os parâmetros do Partido Comunista, Cuba seria só uma ditadura mais próspera, mas ditadura ainda assim.

Ah, sim: dezenas de prisões foram efetuadas por agentes à paisana do regime, que se misturam às pessoas comuns. É uma tática para desestimular protestos e para incentivar a denúncia anônima contra os ditos "inimigos do povo".