PUBLICIDADE
Topo

Reinaldo Azevedo

Partido Militar tenta barrar centrão na Casa Civil. Vice, cunhado, peculato

General Luiz Eduardo Ramos, que deve deixar a Casa Civil para dar lugar a Ciro Nogueira. Bolsonaro precisa daquilo que o militar não tem: votos no Congresso para se salvar - Fto: Ed Alves/CB/D.A Press)
General Luiz Eduardo Ramos, que deve deixar a Casa Civil para dar lugar a Ciro Nogueira. Bolsonaro precisa daquilo que o militar não tem: votos no Congresso para se salvar Imagem: Fto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Conteúdo exclusivo para assinantes
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

27/07/2021 05h26

Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil), o maior amigão que Jair Bolsonaro tinha no governo antes de Braga Netto (Defesa) entrar na concorrência pelo coração do presidente, tenta resistir. Que coisa! Nunca tantos generais, ainda que da reserva, disputaram assim o coração de um capitão indisciplinado. Parece romance ruim dos bastidores da caserna... Um pouco humilhante também. Fato: Ramos quer continuar no cargo que ficará com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do PP. Isso deve ser sacramentado nesta terça.

O Partido Militar não se conforma. Parte dele não se aceita ter de ceder ao centrão um naco de poder — e é possível que seja só esse. Bolsonaro tinha o sonho de ser presidente, com suas momices de extrema direita e a elite que conseguia reunir: gente como Fabrício Queiroz, o reclamão, que agora se sente desprestigiado.

Esses membros da ala mais reacionária das Forças Armadas que foi servir a Bolsonaro — e também se servir do poder: para si mesmos e para a corporação — sempre ambicionaram ter o controle do capitão semiescolarizado. Parecia um projeto de sonhos: finalmente um governo militar pelas urnas! Esqueceram-se dos demais Poderes da República. Tendo a, vamos dizer assim, "propriedade" do presidente, imaginaram que o resto viria por ação da gravidade.

Bem, não veio. Já são nove generais demitidos. Os que ficaram estão percebendo que aquele capitão meio arruaceiro tinha as suas próprias — e más — ideias. Não que as dos generais fossem muito melhores. Partilhavam com o candidato destrambelhado a convicção de que ONGs, em parceria com interesses estrangeiros, queriam internacionalizar a Amazônia. E se tem o desastre ambiental em curso. Viam um país corroído pela corrupção e pelos interesses subalternos dos políticos — é assim desde os anos pré-1964, diga-se —, e o lavajatismo veio para conferir verossimilhança a esse moralismo estridente e ignorante.

Não tinham uma impressão muito generosa sobre o povo brasileiro, quem sabe preguiçoso demais, apegado a privilégios demais... Não os militares, claro! Estes apenas amam a Pátria incondicionalmente. E, finalmente, queriam fazer o que julgavam ser uma justiça histórica: banir a esquerda do poder para nunca mais. Daí que o Sergio Moro, que condenou Lula sem provas, gozasse de grande prestígio entre uniformizados. Mas ainda era preciso dar um tempero para atrair o mercado: eis Paulo Guedes. Nunca foi o preferido da turma, mas vá lá... Era o preço a pagar para ter a turma do dinheiro.

DEU TUDO ERRADO
A equação -- que repudia a democracia por princípio, diga-se, porque não prevê a política -- já vinha dando errado antes da pandemia. Com ela, os desacertos se tornaram mais agudos. E então se fez a mais desastrada de todas as opções: entregou-se a um general bronco e obediente o comando do Ministério da Saúde. Já passamos a contagem dos 550 mil mortos por Covid-19 e começou a dos 560 mil.

A soma de desastres levou à CPI da Pandemia, e esta tornou visível um fantasma que costuma fazer apenas ruídos: o impeachment. Mais: Bolsonaro tem algumas tarefas pela frente. Uma delas é aprovar André Mendonça para o Supremo. Pode não ser um seguro, mas sempre pode ajudar.

Os militares, à diferença do que se supõe, também não têm um projeto de poder que não seja apenas reativo. Sabem o que fazer tanto quanto Bolsonaro. Não custa lembrar que, naquela espetacular reunião de 22 de abril de 2020, Braga Netto, então na Casa Civil, tinha as suas próprias ideias sobre um projeto de desenvolvimento. Foi torpedeado por Paulo Guedes, aquele que é apenas tolerado pela turma. Mas também é nome em que os mercados ainda têm alguma confiança. Governo, propriamente, não há.

Pior: os militares, que chegaram ao poder com o golpe da República, tinham a ambição, no fim do século 19 e começo do século 20, de fazer do conhecimento científico uma espécie de religião. O Positivismo — talvez por alguns aspectos reacionários — era a sua metafísica. Hoje, temos um Braga Netto a vituperar contra urnas eletrônicas. E coube a um general instituir o picareta "tratamento precoce" contra a Covid-19, em oposição a medidas sanitárias de contenção do vírus. O resultado se conta em milhares de corpos. Os fardados do lema "Ordem e Progresso" da bandeira passaram a acreditar em bruxaria.

ELE PRECISA
Bem, Bolsonaro precisa do centrão. E o centrão pode ou não precisar de Bolsonaro porque sempre tem como se ajeitar nos desvãos do poder. O sonho dos milicos, vocês se lembram, era emparedar o Congresso, não negociando nada com aqueles que general Augusto Heleno chamava de "ladrões" por força da rima. Guedes teve uma de suas fabulosas ideias: conseguiria apoio do Congresso por intermédio das chamadas "bancadas temáticas" -- uma forma delicada de dizer que achava possível governar o país acima dos partidos.

Bem, o resultado é o que se vê aí. Em vez de os generais conduzirem Bolsonaro, ele é que os conduz. O ministro da Defesa ousou bater o porrete na mesa, dando uma espécie de ultimato a Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara: ou voto impresso ou nada de eleições. Ao mesmo tempo, o presidente achou que poderia jogar o Fundão Eleitoral no colo daqueles que seguram a sua barra no Parlamento.

Falhou. E Ciro Nogueira deve ir mesmo para a Casa Civil de Luiz Eduardo Ramos, que será encostado na Secretaria-Geral da Presidência. O Partido Militar pode até ameaçar com as armas — a questão é saber quanto tempo se manteria no poder se as usasse —, mas não tem votos. E que se note: Ramos não vai sair por indisciplina ou porque tenha ideias próprias sobre qualquer assunto. Ele não tem aquilo de que Bolsonaro precisa: votos no Congresso.

MOURÃO E O CUNHADO
Outro general foi tratado aos chutes nesta segunda, o que não é novidade: Hamilton Mourão. Em entrevista a uma rádio da Paraíba, Bolsonaro se referiu assim a seu vice:
"O Mourão faz o seu trabalho, tem uma independência muito grande. Por vezes aí, atrapalha um pouco a gente. Mas o vice é igual cunhado, né? Você casa e tem que aturar o cunhado do teu lado. Você não pode mandar o cunhado embora".

É de lascar! Não está falando de um qualquer, mas do vice-presidente da República, que foi eleito. De resto, não se conhece até hoje uma deslealdade do vice. É provável que o desamor mais recente se deva ao fato de que Mourão tratou como absurda a hipótese de não haver eleições em 2022, com ou sem o voto impresso.

De resto, note-se: Mourão não pode ser demitido porque foi eleito. Segundo Andrea Siqueira Valle, irmã de Cristina, ex-mulher do presidente e mãe de Jair Renan, Bolsonaro, quando deputado, demitiu um cunhado, sim: André Siqueira Valle. Este foi funcionário do gabinete do "Mito" — nos moldes em que o clã costuma contratar familiares — e teria descumprido as regras da rachadinha — conhecida no Código Penal por "peculato".

Vejam o caminho escolhido pelo Partido Militar para "arrumar" o Brasil. Podem até ter arrumado a própria aposentadoria. Mas sabem que são protagonistas do período mais tenebroso da nossa história. E seus nomes serão devidamente honrados pela historiografia.