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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro admite governo zumbi. E mais uma lição aos militares pretensiosos

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

28/07/2021 06h47

O Brasil viveu mesmo dias do balacobaco. Só um conjunto formidável de excepcionalidades e aberrações, que já caracterizei muitas vezes ao longo do tempo, explica a eleição de Jair Bolsonaro. A rusticidade de seu pensamento é de tal ordem que, mesmo sabendo tudo o que sabemos, ainda há lugar para a estupefação. O modo como o presidente justificou a ida do senador Ciro Nogueira para a Casa Civil é espantoso — embora, se deva notar, goste-se ou não, seu governo passará a ter, pela primeira vez, um eixo. Se vai facilitar ou dificultar a campanha eleitoral dos adversários, vai dizê-lo o tempo. Tendo a achar que dificulta. Mas isso fica para outra hora.

Comecemos pela metáfora a que recorreu o presidente em entrevista a uma rádio. Afirmou estar entregando a Nogueira -- e, pois, ao centrão -- o que chamou de "a alma do seu governo". Por alguma razão, achou que isso pode se confundir com um autoelogio. Nem o ex-presidente Lula, hoje seu alvo principal, foi tão, como direi?, fundo... Disse o petista nas redes sociais:
"E o Bolsonaro que ficava falando que ia acabar com a 'a velha política'... Qual é a nova política dele? Ficar refém do centrão? Não cumpriu uma coisa que ele falou. Falava tanto de corrupção... Ainda ontem à noite eu vi o Queiroz ameaçando ele".

O presidente até tentou responder. Mas não se deu bem. Convenham: um refém estaria contrariado. Bolsonaro já passou da fase da "Síndrome de Estocolmo". Entregou logo a alma. Seu governo, pois, agora é um zumbi. A pergunta que se tem de fazer, com resposta imediata: "Ele tinha saída?" Não!

Bolsonaro deve ter achado que estava sendo duro e ferino com o opositor ao responder o seguinte:
"O Ciro está feliz. Ele falou para mim que o sonho da vida dele era ocupar um ministério como esse. E dizer ao senhor presidente Lula (que) não é o Ministério das Minas e Energia, onde o orçamento é milionário. Não é o Transporte, não é o Desenvolvimento Regional. É a chefia da Casa Civil, é a alma de um governo. É realmente a nossa interlocução aumentando com o Parlamento de forma salutar e não de forma comprada como acontecia no passado".

Ciro, claro!, deve estar muito feliz. Mas prestem atenção ao que diz o presidente. Começo pelo fim: aquele a quem ele entrega "a alma do governo" apoiou os governos Lula e Dilma. Em entrevista concedida em 2018, chamou Bolsonaro de "fascista" e disse que o petista foi o maior presidente da história do Brasil, especialmente bom para o Piauí.

Observem que ao responder ao adversário, destaca que o novo ministro não vai lidar com verbas — embora a Casa Civil seja a pasta mais importante no direcionamento e execução dos gastos do governo. Mas, com efeito, a pasta não tem sua própria dotação orçamentária, exceto recursos destinados ao custeio da máquina. É como se o presidente dissesse: "Ele não vai roubar porque não terá como". É do balacobaco!

A rigor, não está dando essa resposta a Lula, que sabe muito bem como funciona a máquina pública. Tenta mobilizar os seus fanáticos, que ficaram sem discurso. Não que eles tenham para onde migrar, convenham: continuarão com o "Mito" até o fim. Desenvolveu-se nesses bolsões uma espécie de seita milenarista, de que o presidente é o profeta. Tem-se a impressão de que, se o Jim Jones do Cerrado pedir que tomem veneno, todos tomarão. Fica aqui uma ideia para consideração. Um teste e tanto de confiança... Exagero? Não! Muitos deixam de tomar vacinas por espírito de fidelidade ao líder — e, assim, se expõem ao risco de morte.

MILITARES DESPREPARADOS
A imprensa ficou sabendo que Nogueira ocuparia a cadeira de Luiz Eduardo Ramos antes do general, seu amigo há quase 40 anos e grande entusiasta de seus dons... Ramos deixou o Comando Militar do Sudeste para substituir o também general Santos Cruz na Secretaria de Governo. Por algum tempo, exerceu o cargo estando na ativa.

Dali saltou para a Casa Civil, substituindo o incompetente Braga Netto — aquele que deveria ter coordenado os esforços contra a Covid-19... —, que migrou para a Defesa. Bolsonaro já tinha percebido que este era ruim o bastante para não resistir a ordens absurdas. Por isso decidiu se livrar de Fernando Azevedo e Silva. Queria alguém que realizasse a tarefa de usar as Forças Armadas para ameaçar os Poderes da República. Conseguiu.

Uma das observações que os críticos do governo fazem com frequência diz respeito ao despreparo dos militares para lidar com as questões políticas. E também com as administrativas, é bom dizer. Os fardados de pijama respondem por boa parte da ruindade do governo. Não foram feitos para isso.

E como é que Bolsonaro explicou a migração de Ramos, o último a saber, para a Secretaria-Geral da Presidência, onde poderá, por exemplo, cuidar do estoque de leite condensado e de papel higiênico dos Palácios? Assim:
"Coloquei o Ciro porque preciso melhorar a interlocução com o Congresso. O general Ramos é uma excepcional pessoa, é meu irmão. Agora, com o linguajar do parlamento, ele tinha dificuldade. É a mesma coisa que pegar o Ciro Nogueira e botar ele para conversar com generais do Exército. O Ciro não saberá falar com eles por melhor boa vontade que tenha."

Ficamos sabendo, então, que o presidente reprovava o desempenho do seu amigão. Dada a fórmula acima — que, digamos de passagem, está essencialmente correta —, então é preciso demitir todos os militares que ocupam cargos que os obriguem a se relacionar com os políticos. Agora vem outra pergunta de resposta também óbvia: "e qual não obriga?" Nenhum! Obviamente, há uma penca de ministros disfuncionais que nunca passaram pelo quartel. Mas os que passaram disfuncionais são. Estão no lugar errado. "Ah, é Tarcísio Freitas, da Infraestrutura?" Era burocrata estatal já fazia tempo. Poucos se lembram de que serviu ao governo Dilma na CGU, no DNIT e na Secretaria Especial do Programa de Parceria de Investimentos (PPI), De resto, tem a rara qualidade de ser competente em criar a fama de que é competente...

CONCLUO
Bolsonaro está mudando o governo -- entregando a terceiros a sua alma -- no esforço de se manter no poder, de tornar viável a sua candidatura à reeleição e de melhorar a interlocução no Senado. O afastamento de Nogueira do Senado implica que deixará a CPI, substituído pelo sempre inacreditável Luiz Carlos Heinze (PP-RS), o que eleva Flávio Bolsonaro à suplência. Mas esse é um efeito colateral. O objetivo da nomeação é bem mais amplo.

O "capitão" vai se disciplinar? Ciro teria pedido "carta branca" para fazer a articulação no Senado. Esse documento-fantasma já foi dado a Paulo Guedes e a Sergio Moro. E nada vale porque, afinal, nada há escrito nela. Só não chamem o que Bolsonaro está fazendo de tiro no pé. Trata-se de um ato em favor de sua sobrevivência no governo.

Braga Netto ameaçou Arthur Lira com um golpe por intermédio de Ciro Nogueira. Não vai ter golpe. Vai ter centrão.