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Reinaldo Azevedo

Bolsonaro e o "parabelo". A gente é Corisco e não se entrega ao capitão

Bolsonaro durante entrega de medalhas a atletas militares olímpicos, de programa criado pelo governo Lula em 2008. Convocação para a guerra - Wilton Júnior/Estadão
Bolsonaro durante entrega de medalhas a atletas militares olímpicos, de programa criado pelo governo Lula em 2008. Convocação para a guerra Imagem: Wilton Júnior/Estadão
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

01/09/2021 17h41

Lá vamos nós com a ironia, o recuso estilístico sempre mal compreendido. Mas nem por isso abro mão. O Brasil tem realmente coisas espantosas. Se não existisse, tenho cá minhas dúvidas se deveria ser inventado...

Jair Bolsonaro foi ao Rio, no Cefan (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes), da Marinha, para entregar a Medalha Mérito Desportivo Militar a cinco atletas militares e medalhistas que disputaram as Olimpíadas de Tóquio.

Mas não só. Também distinguiu um atleta com uma láurea de sua própria lavra. O boxeador Hebert Conceição, da Marinha, que ganhou ouro em Tóquio, recebeu também uma medalha bolsonariana que tem os seguintes dizeres: "Clube Bolsonaro: imorrível, incomível e imbrochável". Ouviu do "Mito" as seguintes palavras encorajadoras: "Enfia a porrada, Hebert".

Convenham: alguém com o perfil de Bolsonaro não seria criado nem em programa de humor bagaceira. Mesmo para rir de alguma coisa, é preciso haver um mínimo de verossimilhança, conceito obrigatório tanto nas tragédias como nas comédias gregas. É preciso que acreditemos que uma personagem possa chegar a certo grau de ridículo para que possamos rir.

Como o presidente invariavelmente ultrapassa essa linha da extravagância jocosa, então nem o riso nos vem. Só mesmo a sensação de estupefação. "É a sério? Ele entregou mesmo a um boxeador, militar, que foi ouro numa Olímpiada, uma medalha pessoal em que exalta as suas próprias e supostas virtudes masculinas? Inclusive a de ser, para crença de ninguém — com todas as vênias — imbrochável?" A propósito: ele é "incomível". Mas é também "incomedor"?

Sim, ele fez isso. Estes não são tempos normais.

PROGRAMA CRIADO POR LULA
Mas há algo de mais espetacular nisso tudo. Parte da milicada não se descola de Bolsonaro porque teme a vitória de Lula. O medo é ancestral e tem raízes entre históricas e psicanalíticas. Há ecos da já morta Guerra Fria, nem me estenderei a respeito, e há o fantasma do suposto internacionalismo das esquerdas... Sabem como é. Sempre há algum uniformizado temendo a entrega da Amazônia para os gringos... Piada pronta: "Antes que nos a tomem, incendiemo-la".

Lula foi o presidente que mais investiu nas Forças Armadas em muitas décadas. Pouca gente sabe, Hebert pertence a um programa das Forças Armadas de incentivo ao atletismo olímpico criado em 2008 pelo governo... Lula! Digam aí: se o país não existisse, seria o caso de inventá-lo?

LEMA DA GUERRA DISSUASÓRIA
Em seu discurso, Bolsonaro vomitou a seu modo um adágio latino, adaptado do "Tratado da Arte Militar", de Flávio Vegécio (Século IV d.C). Disse o bruto:
"Com flores não se ganha a guerra. Se você fala de armamento (?) Se você quer paz, se prepare para a guerra".

A frase, em latim, entrou para a história assim: "Si vis pacem, para bellum". Ou: "Se queres a paz, prepara a guerra". Tornou-se uma divisa da força dissuasória. Ao contrário do que, visivelmente, é a crença de Bolsonaro, um "mau militar" (segundo Ernesto Geisel); chutado do Exército por indisciplina; incapaz de articular um pensamento lógico, segundo seu superior na Força, não se trata de uma convocação para o ataque.

Esse é um lema de dissuasão. Uma vez preparado para a guerra, devidamente guarnecido para enfrentar o inimigo, é de se esperar, então, que ele recue, evitando o conflito. Entendê-lo requer um grau de elaboração que um incompetente beligerante jamais terá.

É claro que o arruaceiro está se referindo, de maneira velada, tanto ao 7 de Setembro, o evento mais próximo, como à disputa eleitoral do ano que vem, que vê como uma guerra. Afinal, ele próprio diz que seu destino é "cadeia, morte ou vitória".

Assim, na sua leitura estúpida do adágio latino, a dissuasão vira persuasão; o recurso para evitar o confronto vira um convite para o ataque. Trata-se de um delinquente também intelectual — além, claro!, de político, já que o convite nada sub-reptício é ao armamentismo.

GUERRA CIVIL
Os desastres do governo estão à mostra. A tão esperada recuperação da economia com que ele contava reverter uma possível derrota eleitoral encontra severos percalços.

Dificilmente ele contará com um golpe em sentido clássico — até porque não temos um número suficiente de oficiais-generais degenerados que se submeteriam a seu comando. Uma quartelada, de resto, teria vida curta.

Então a aposta aberta do "capitão" — e é impressionante que ainda esteja por aí, solto — é a convocação para a guerra civil.

Este sonho acordado — e sangrento — embala as noites insones do capitão celerado.

Sei não... Difícil acreditar que seja mesmo imbrochável alimentando essas ideias fixas. O erotismo não cabe aí, a menos que estejamos falando de alguma tara necrófila.

CURIOSIDADE
O que quer, o que pode essa língua? "Parabellum" é um nome cartucho desenvolvido entre o fim do século retrasado e o início do passado. Acabou designando a própria pistola que o utilizava. No Brasil, inclusive na linguagem popular, passou a ser sinônimo de pistola, de revólver.

- Se entrega, Corisco!

- Eu não me entrego, não!

Eu não sou passarinho

Pra viver lá na prisão

- Se entrega, Corisco!

- Eu não me entrego, não!

Não me entrego ao tenente

Não me entrego ao capitão

Eu me entrego só na morte

De parabelo na mão

- Se entrega, Corisco!

- Eu não me entrego, não!

(Mais fortes são os poderes do povo!)


Eis a música de Glauber Rocha e Sérgio Ricardo, do filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", lançado no ano da graça de 1964.

Pois é... A gente não se entrega ao capitão...