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Reinaldo Azevedo

Datafolha: voto evangélico, falso Messias, a mão de Deus e o pé de frango

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

17/09/2021 16h51

Pois é.

Aqueles que entendem mais de verba do que do Verbo — e "o Verbo era Deus" (isso também é João...) — passam a falsa impressão de que 100% dos evangélicos estão com o falso Messias... Vocês sabem: o Jair Messias. Ah, mas não estão mesmo.

Vamos aos números, antes das prosopopeias. Segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem, com levantamento feito entre os dias 13 e 15, se a eleição fosse hoje, Luiz Inácio Lula da Silva teria 34% dos votos dessa comunidade no primeiro turno; 38% escolheriam Bolsonaro. Em relação a julho, o petista variou três pontos para baixo, e aquele que não é "o" filho de Deus (e filho de Deus?) manteve o mesmo percentual. A margem de erro para esse recorte é de três pontos — embora o da pesquisa, como um todo, seja de dois.

No segundo turno, há um empate quase rigoroso, com Lula numericamente à frente do presidente: 44% a 43%.

MAIS DO QUE NO TODO...
Sim, é verdade: Bolsonaro tem entre os evangélicos mais votos do que no conjunto da sociedade. Segundo o Datafolha, Lula conta, no primeiro turno, com, respectivamente, 42% e 44% dos votos nos dois cenários testados. No embate com Bolsonaro, no segundo, venceria por 56% a 31%. Mais: o petista é rejeitado por 38% no conjunto dos eleitores e por 47% dos evangélicos. Ocorre que 44% deles dizem que não votariam de jeito nenhum no Jair Messias -- no Brasil como um todo, esse índice é de 59%.

Não sei se perceberam: também na rejeição, há um empate técnico entre os evangélicos, à diferença do que se supõe. Não pretendo acabar com a alegria de ninguém, é claro. Detesto fazer isso. Por mim, vale a máxima da musiquinha da Xuxa: "Todo mundo tá feliz? Tá. Todo mundo quer dançar? Quer dançar".

O fato é que os evangélicos não formam um bolsão de resistência bolsonarista que dê conforto ao ogro golpista, ora acoelhado. Conforto é outra coisa. É, por exemplo, aquele que Lula tem no Nordeste, com 61% dos votos na pesquisa estimulada e espetaculares 42% no voto espontâneo. A região representa 26% da amostra do Datafolha, que espelha a distribuição populacional do país.

O FENÔMENO DO PÉ DE FRANGO
Por razões que não cabem neste texto, sabe-se que, de maneira geral, evangélicos são mais fiéis à orientação de líderes religiosos em aspectos da vida mundana do que, por exemplo, os católicos. Não se veem -- e nem chega a ser imaginável -- os demais candidatos a circular por aí com padres a tiracolo. Seria, de resto, inútil essa associação para o eleitorado católico.

O catolicismo marcou um encontro com a laicização de muitos aspectos da vida a partir do Concílio Vaticano II (1963-1965). Os católicos foram orientados a esperar menos eventos miraculosos de Deus, decorrentes exclusivamente da fé, para se concentrar no que, na vida em sociedade, depende da luta social e da luta política. O cristianismo, nessa visão, não é só matéria de fé. Também é uma ética. É a razão essencial, diga-se, porque sou católico. Igrejas que fazem por hora mais milagres do que Cristo em sua passagem pela Terra não me interessam. Tampouco aquelas que são mais novas do que o uísque que eu bebo. A fé genuína de muitos milhões é frequentemente explorada por vigaristas.

Volto a restringir a abordagem para chegar ao entretítulo acima. Sim, a forte adesão de pastores à candidatura de Bolsonaro e o proselitismo político descarado de muitas denominações religiosas surte, como se vê, efeito. Mas o "rebanho de Deus" não é sinônimo do chamado "gado bolsonarista" que se manifesta nas redes.

Parte considerável dos evangélicos brasileiros é constituída de gente pobre. Reproduzo trecho de uma reportagem do Estadão, publicada nesta quinta:
"Com o preço do boi nas alturas e outras carnes também mais caras, o pé de frango virou a opção ao alcance do bolso do consumidor, ainda que também tenha subido. O quilo do frango inteiro estava a R$ 8,41 nesta quarta-feira, 15, acumulando alta de 43% este ano, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da Escola Superior de Agronomia da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). Em janeiro, o quilo estava a R$ 5,90. No mesmo período, o preço do pé de frango, considerado o corte mais barato, subiu 100%, passando de R$ 2,50 para R$ 5 no atacado. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial do País, acumula alta de 5,67% de janeiro a agosto e, em 12 meses, chega a 9,68%.

A média de preço alcançada pela ave este mês é a maior desde 2004, quando o Cepea iniciou o monitoramento. E o pé do frango nunca foi tão valorizado. Para produtores e especialistas, devido à crise causada pela pandemia, a carne de frango teve o consumo aumentado por ainda ser a mais barata. Na região de Sorocaba, o preço médio do quilo de frango para o consumidor, em agosto, ficou em R$ 11,01, enquanto o quilo da carne bovina de segunda custou R$ 30,30 e a suína, R$ 22,24. Já o quilo da carne bovina de primeira teve média de R$ 42,01."

Ah, não!

Não estou aqui a dizer que seja inútil a pregação raivosa de certos líderes religiosos em favor de Bolsonaro. Alguns deles seriam capazes de encontrar no Evangelho até o estímulo ao uso de armas, uma das pregações constantes do presidente. Não é que submetam a Bíblia ao livre exame: encontram no Livro Santo rigorosamente o que lhes dá na telha. São malabaristas da baixa retórica.

O presidente precisa de gente assim para manter o percentual que, por enquanto, o leva ao segundo turno, dificultando ou o surgimento de uma terceira via ou a vitória de Lula no primeiro turno — em um dos cenários do Datafolha, essa possibilidade está na margem de erro.

Que Bolsonaro tenha um percentual de votos maior nesse estrato da população do que no conjunto dos brasileiros não é surpreendente. O que a pesquisa evidencia, mais uma vez, é que, mesmo com a crescente virulência dos pastores de palanque em favor da "messianização" do "Mito" e na demonização de Lula, metade desse eleitorado resiste à mistura sempre perniciosa entre política e religião.

Os mercadores de Deus podem muita coisa. O charlatanismo produz milagres em penca, de que Deus literalmente dúvida. Trata-se da mentira e do embuste como expressão da liberdade religiosa.

Mas ainda é incapaz de transformar pé de frango em, ao menos, carne de segunda. O músculo já está sendo vendido a R$ 40.

Obra do Messias. Do falso Messias.