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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro é um depredador da Petrobras, dos fatos, do bom senso e da lógica

Bolsonaro, em live, critica o que considera lucro excessivo da Petrobras. Eis aquele que alguns liberais julgavam ser seu porta-voz... - Reprodução
Bolsonaro, em live, critica o que considera lucro excessivo da Petrobras. Eis aquele que alguns liberais julgavam ser seu porta-voz... Imagem: Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

28/10/2021 22h36

O presidente Jair Bolsonaro, como é sabido, não debate nada porque não se informa sobre nada. É um depredador da razão. E também é espantosamente preguiçoso. Consta que dorme pouco. Se eu me ocupasse disto, teria curiosidade de saber em que emprega o tempo em que deveria estar dormindo. Certamente não estuda os temas do governo.

A Petrobras voltou a ocupar a sua metralhadora de besteiras. Ele insiste em dizer que é preciso acabar com o suposto monopólio, que beneficiaria a empresa no refino de petróleo. Tal monopólio quase existe na prática, é verdade. Mas inexiste na lei. Acabou em 1997, assim como o da exploração. Neste segundo caso, há concorrência. No primeiro, quase não há. A empresa mista, com capital majoritário da União, responde por 98% do que se processa aqui. Das 17 refinarias existentes, 13 pertencem à Petrobras.

Uma das explicações para que a concorrência não entre na área é justamente o fato de a Petrobras ser controlada pelo Estado, e o setor ficaria à mercê de injunções do poder público, como controle de preços. Parece-me uma justificativa um tanto preguiçosa. Ou não haveria capital privado em área regulada. E há.

Bolsonaro se insurgiu nesta quinta contra o que considera excesso de lucro da Petrobras, que é uma empresa de economia mista. Disse numa rápida transmissão nas redes sociais:
"Se é uma empresa que exerce um monopólio, ela tem que ter seu viés social, no bom sentido. Ninguém quer dinheiro da Petrobras para nada; queremos que a Petrobras não seja deficitária obviamente, invista também em gás --com mais atenção em gás-- e não apenas em outras áreas. Então a gente quer uma Petrobras voltada para isso, mas carecemos de mudança de legislação que passa pelo Parlamento".

E ainda:
"Repito: ninguém vai quebrar contrato, ninguém vai inventar nada. Mas tem que ser uma empresa que dê um lucro não muito alto como tem dado. Porque além de lucro alto para acionistas, a Petrobras está pagando dívidas bilionárias de assaltos que ocorreram há pouco tempo na empresa".

Está tudo errado. E é impossível saber o que ele quer.

1: Inexiste lei que imponha à Petrobras que corrija o valor do combustível de acordo com a variação do petróleo ou com a variação cambial. Isso é política da empresa. Mas, claro, como uma gigante que obedece às regras do mercado, sua contabilidade se altera se passa a praticar "preço social". A simples suspeita de intervenção do governo faz despencar as ações;

2: Bolsonaro tem falado em privatização da Petrobras. Digamos que isso fosse possível, já que, isto sim, teria de ser aprovado pelo Congresso. Mas venham cá: ele quer privatizar na esperança de que conseguiria, então, regular o preço dos combustíveis? Mas isso não seria facilitado justamente se a empresa fosse inteiramente estatal? Quem vai querer comprar a Petrobras se suspeitar que os preços dos combustíveis serão regulados pelo governo?;

3: notem que Bolsonaro está criticando a Petrobras justamente no ponto em que ela se comporta como... empresa de mercado. O que ele quer? Que as refinarias privadas se multipliquem — e eu não veria mal nenhum nisso — na esperança de que isso facilitaria o controle de preços?;

4: digamos que a saída fosse a privatização "para controlar os preços". Bem, que pare de reclamar como um ranzinza de botequim e peça, então, à sua equipe que elabore uma proposta objetiva a respeito, coisa que ele, obviamente, não vai fazer;

5: o ataque a gestões anteriores — os "assaltos do passado" — é só depredação de adversários. O preço dos combustíveis não tem nada a ver com o que possa ter acontecido de errado na empresa. E, sim, por óbvio, o preço do combustível tem muito a ver com a desvalorização do Real — e, em boa parte, os desatinos do mandatário (ele próprio) estão na raiz dessa desvalorização;

Esse gênio da raça foi adiante nas suas incompreensões. Disse:
"Não é justo! Você vive num país em que se paga tudo em real, um país praticamente autossuficiente em petróleo, e tem o preço do seu combustível atrelado ao dólar. Realmente ninguém entende isso, mas é coisa que vem de anos, que você tem que buscar maneiras de mudar".

Pois é.

A soja está atrelada ao dólar.

A carne está atrelada ao dólar.

Tudo aquilo que é commodity, enfie-se no tanque ou no estômago, está atrelado ao dólar. E o dólar, em parte ao menos, está atrelado às maluquices do governante de turno.

Vamos ver. Dia desses, as ações da Petrobras subiram um pouquinho, mesmo na depreciação geral da Bolsa, com essa conversa de privatização. Nesta quinta, o mestre resolveu "pensar no social" e sugeriu que a empresa tem de visar menos os lucros e praticar, sei lá, um preço social.

Se alguém acreditar que isso facilita a privatização, talvez aposte na empresa. Mas o mais provável é que Bolsonaro ainda acabe, em prazo curto, depreciando capital público e privado apenas porque tem a necessidade de dizer que nada tem a ver com os problemas do Brasil, a começar do preço dos combustíveis.

Os responsáveis são sempre os outros.

Ele não quer nem nunca quis governar. Só queria experimentar a glória de mandar. Quando percebeu que nem a Presidência lhe dava isso de modo absoluto, então tentou dar um golpe.

Tendo falhado no golpe, só pensa em transferir responsabilidades.