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Reinaldo Azevedo

Lula, Bolsonaro e PSDB juntos, em favor da extrema direita de linha morista

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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

24/11/2021 07h01

Sozinho, pode até ser que Sergio Moro não vá muito longe. Com a ajuda de Jair Bolsonaro, de Lula e dos tucanos, as coisas podem ficar mais fáceis para ele. Vou explicar.

O ex-juiz e ex-ministro, pré-candidato do Podemos à Presidência, esteve nesta terça ao Senado para, segundo consta, marcar posição da legenda, na qual acaba de ingressar, contra a PEC dos Precatórios. Mobilizou uma multidão de microfones. Ele tenta se virar como pode ao dissertar sobre economia, mas, é visível, seu entendimento do conjunto da obra não é muito superior ao de Bolsonaro. As falas saem esquemáticas, como quem lê um quadro sinóptico, mas sem distinguir direito a causa da consequência.

Dou um exemplo. Afirmou:
"A perspectiva para o próximo ano, infelizmente, é de estagnação ou recessão, o que gera desemprego, e esse é um produto direto da irresponsabilidade fiscal do governo."

Não peçam para o candidato demonstrar que a estagnação ou a recessão de 2022, que foram sendo contratadas ao longo deste ano, são frutos da irresponsabilidade fiscal... do ano que vem!

Disse mais:
"Não vamos fechar os olhos para as consequências dessa política do teto de gastos. [Isso] Vai gerar aumento da inflação, que terá de ser respondido pelo Banco Central com o aumento dos juros".

O teto, gastos excepcionais da pandemia à parte, será respeitado em 2021. A lambança fiscal feita pelo governo diz respeito a 2022. E, no entanto, a inflação está aí. E, com efeito, o BC responde com elevação da taxa de juros. Mas, insista-se, os desacertos em curso não nasceram com a determinação de furar o teto.

Ah, sim, Moro é a favor das coisas boas e contra as coisas ruins. Afirmou:
"A grande questão, em verdade, que se coloca hoje é se responsabilidade social é incompatível com responsabilidade fiscal. A resposta que a bancada do Podemos do Senado tem a acrescentar é que as duas caminham juntas".

O que isso quer dizer? Nada. Trata-se de uma mera declaração de princípios, até porque ninguém se atreveria a dizer o contrário, não é? Imaginem isto: "Ou bem se tem responsabilidade social ou bem se tem responsabilidade fiscal". Impossível, certo? Está, portanto, dizendo palavras ao léu.

Moro também sabe olhar o povo, ora vejam, com "compaixão":
"O Podemos é absolutamente favorável ao combate à pobreza. É um dos objetivos fundamentais escritos na Constituição. Não há como não ter compaixão pelos brasileiros que passam fome decorrente do desemprego e de uma política econômica equivocada".

À parte seu ataque ao desrespeito ao teto de gastos no ano que vem, o que mais ele acha "equivocado" na política econômica em curso? Cumpre não fazer perguntas difíceis. Ele ainda está tateando essas coisas. Primeiro a candidatura à Presidência. As ideias vêm depois.

Consta que ele recorreu aos serviços de uma fonoaudióloga para cuidar da voz, que lembra, às vezes, um grasnado. Pelo visto, o trabalho de Affonso Celso Pastore pode ser mais difícil. Mas nada, ora vejam, que Lula, Bolsonaro e os tucanos não possam facilitar.

NICARÁGUA E OUTRAS CASCAS DE BANANA
Petistas e outros entusiastas da pré-candidatura de Lula se esforçam para dourar a pílula. Os mais ousados acusam a imprensa de produzir "fake news" ao noticiar que ele comparou os mandatos sucessivos do ditador Daniel Ortega aos 16 anos de Angela Merkel na Alemanha e aos 13 de Felipe González na Espanha. Mas o fato é que fez precisamente isso. Os respectivos partidos de ambos disputaram eleições livres, e seus opositores não estavam na cadeia.

No pior momento, Lula disse não saber por que os adversários de Ortega tinham sido presos e lembrou que ele próprio, no Brasil, ficou 580 dias na cadeia. Pois é: o exemplo mais aponta para a gravidade do que se passa na Nicarágua do que o contrário. Numa democracia, que vive um mau momento, Lula foi condenado sem provas e foi encarcerado ao arrepio da Constituição e do Código de Processo Penal. Dá para imaginar a independência — não é mesmo, senhor ex-presidente? — de um Judiciário que foi escolhido a dedo por um ditador. Recomendo ao petista que converse com nicaraguenses que fugiram do regime de Ortega — muitos deles, diga-se, de esquerda. E os há também no Brasil.

Sim, na resposta inteira, o ex-presidente se diz favorável à alternância do poder, o que exclui, na prática, regimes como o nicaraguense, venezuelano ou o cubano. Justiça se faça: tinha popularidade e apoio no Congresso, se quisesse, para mudar a Constituição e arrancar um terceiro mandato — e venceria no primeiro turno —, mas preferiu outro caminho.

Os governos petistas não podem ser acusados de interferência na Polícia Federal ou no Judiciário, por exemplo. Ou as investigações havidas não teriam prosperado. Assim, a entrevista de Lula não faz justiça nem a seu próprio governo. E outras cascas de banana virão. Por que não a defesa da democracia e pronto?

Não acho que Moro tenha muito a crescer por seus próprios méritos. Mas os adversários sempre podem oferecer aquela mão solidária, não é?

BOLSONARO
Na segunda, o presidente da República ameaçou, em conversa com seus apoiadores, não renovar a concessão da Globo:

"A Globo tem um encontro comigo no ano que vem. Encontro com a verdade. [?] É igual parada matinal [do quartel]. Tem que estar arrumadinho. Qualquer empresa".

Sim, qualquer empresa. Mas citou a Globo, que considera sua adversária. Nesta terça, em entrevista à Rádio Correio Sat, da Paraíba, apontou supostas agressões ao que ele considera liberdade de expressão:
"É um absurdo o que acontece por aí nessas questões. Você pode criticar tudo, o papa, quem você bem entender. Agora, não pode criticar um sistema eleitoral?"

E aí não só justificou como defendeu a censura durante a ditadura militar:
"Esse tipo de censura não existia no período militar. O que não era permitido, muitas vezes, era uma matéria ser publicada, daí o pessoal botava uma receita de bolo ou espaço vazio. É porque eles [esquerdistas] davam recados, naquela época, para os seus comparsas aqui no Brasil através daquele tipo de matéria. Então por isso que houve a censura naquele momento".

Para registro: a afirmação de que esquerdistas usavam matérias de jornal para "dar recados" a seus aliados é uma fantasia estúpida alimentada pela ditadura. Nunca aconteceu. Como se nota, ao mesmo tempo em que Bolsonaro defende o vale-tudo que beneficia seus aliados nas redes, deixa entrever o seu mundo ideal: aquele em que o governante tem o poder de calar a voz dos adversários. O homem não consegue conviver com a democracia. E, claro!, acata os argumentos da ditadura.

VOLTO AO PONTO
O autoritarismo da linha morista estava em festa ontem. Surfou na suposta destreza do ex-juiz para falar de economia -- apesar das incoerências e platitudes --, viu Lula tropeçar na ditadura de Daniel Ortega e ouviu Bolsonaro a dizer as boçalidades de sempre. A propósito: na entrevista à rádio, o presidente atacou Moro deste modo:

"Moro esteve comigo um ano e quatro meses, depois pediu demissão. E ele tinha um objetivo próprio aqui na Presidência. Raramente contava uma piada, conversava com alguém, e não estava, no meu entender, atendendo aos nossos propósitos. Eu nunca tentei interferir em nada da PF".

Só faltou pedir voto para seu adversário e um beijo hétero...

Enquanto isso, o pau comia no tucanato. Moro, diga-se, ainda teve tempo de espichar um olhar benevolente para os tucanos, com a mesma superioridade de quem diz ter "compaixão" dos brasileiros. Afirmou, certo de que vai comer tucano assado com batatas:
"O PSDB é um grande partido. A gente tem que respeitar, eles vão tomar a decisão deles no tempo deles".

ENCERRO
Os adversários de Moro -- aquele que quer um tribunal de exceção à moda ucraniana no país -- parecem dizer: "Pode contar com a gente!"