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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Enquanto Bolsonaro vomita preconceito antinordestino, Lula faz acordo em PE

Governador Paulo Câmara, de Pernambuco, e Lula. Encontro selou apoio do PT a candidato do PSB para  o governo do Estado. E, claro!, fortalece a candidatura de Lula - Ricardo Stuckert/Reprodução
Governador Paulo Câmara, de Pernambuco, e Lula. Encontro selou apoio do PT a candidato do PSB para o governo do Estado. E, claro!, fortalece a candidatura de Lula Imagem: Ricardo Stuckert/Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

04/02/2022 05h42

Não sei se o petista Luiz Inácio Lula da Silva vai ou não vencer a eleição presidencial. Não sou adivinho e não me dedico a previsões. O que faço é analisar atitudes e conjunturas e apontar: "Fulano está tomando decisões que, entendo, concorrem para fortalecer seu nome" — ou, então, o contrário. Também não é raro que faça um esforço para retirar da realidade o glacê das aparências para tentar chegar à massa do bolo propriamente. A política é, com frequência, uma arte do despiste.

Desde quando Lula me concedeu uma entrevista, no dia 1º de Abril do ano passado, venho apontando: "Ele buscará seus aliados de esquerda de sempre, mas seu esforço mesmo se volta para conquistar o centro". E não era coisa do Dia da Mentira. Observei ainda que nada havia de rancor em suas respostas. Sejamos claros: essa segunda parte, a qualquer um, seria a mais difícil. Suponho que o ex-presidente já esteja com a alma lavada. Do ponto de vista pessoal, o passado passou em razão do formidável desdobramento das ações judiciais de que era alvo.

Vai ganhar? Não sei. Falta, sim, bastante tempo até a eleição, mas também há elementos estruturais nessa disputa, que enlaçam personagens e dados da vida real, que jogam a seu favor. O Copom deu ontem uma pancada, para surpresa de quase ninguém, de 1,5 ponto percentual na taxa de juros, o que alveja diretamente investimentos, crescimento e empregos em ano eleitoral. E se sabe que o efeito da decisão demora até devolver os preços a seu leito. A inflação voltou a ser um tormento, especialmente para os mais pobres. Quando tiver refluído, restarão os malefícios decorrentes do baixo crescimento.

É claro que, em termos estritamente eleitorais, esse conjunto beneficia Lula, que tem um discurso identificado com os mais pobres. Ademais, desde a deposição de seu partido, foi um crítico das escolhas feitas pelos atuais gerentes do poder. Isso ainda não diz tudo: também os donos do dinheiro, daqui e de fora, estão cansados de irresponsabilidade, inconstância, incerteza, crispação, confronto. Por mais que isto desagrade a muitos reacionários disfarçados de liberais, a verdade é que o petista começa a ser visto como fator de estabilidade.

O passado no Brasil é incerto, mas não é menos verdade que também temos sido mal aquinhoados pela sorte em eleições presidenciais. Não custa lembrar que a de 2014 sofreu um solavanco com o desastre aéreo que matou Eduardo Campos. Não se conta a história que não houve. Mas aquele evento, fora de qualquer expectativa, obrigou os candidatos a redesenhar discursos e estratégias. Em 2018, houve a facada em Bolsonaro, que o retirou dos embates eleitorais, desobrigando-o de ser confrontado com sua escancarada incapacidade intelectual e política. Num ambiente já intoxicado pela antipolítica, plasmado pela Lava Jato, chegamos aonde chegamos.

Assim, além de não ter bola de cristal e de não fazer previsões, procedo à análise possível, que se dá no terreno do que é ponderável, torcendo, obviamente, para que o incerto não nos deixe, mais uma vez, à deriva. Precisamos de previsibilidade.

OS PAUS DE ARARA
O pernambucano Lula recebeu ontem em São Paulo o governador do seu Estado natal, Paulo Câmara, do PSB, e definiu que o PT apoiará a candidatura de Danilo Cabral à sucessão de Câmara. Cabral, também PSB, ainda pontua mal nas pesquisas. O senador petista Humberto Costa aparece bem à frente nos levantamentos. Mas o martelo está batido, e os petistas não terão candidato próprio no Estado. Pernambuco é um dos bastiões do PSB.

Não chega a ser um sacrifício para Costa, cujo mandato se estende até 2026. De resto, caso Lula seja eleito, o senador sempre pode integrar os quadros do governo. Já foi, por exemplo, ministro da Saúde. O PSB é peça importante na estratégia de Lula e do PT. Geraldo Alckmin pode migrar para a legenda para ser o vice na chapa petista. São muitas as lideranças do PSB que defendem a formação de uma federação com PT, PCdoB, PV e, quem sabe, Rede.

Bolsonaro também passou ontem, à sua maneira, pelo Nordeste naquela sua live pavorosa. Comentava críticas que recebeu por ter revogado decretos de luto baixados por presidentes que o antecederam. E aí comentou, com aquele seu estilo característico:
"Dadas as nossas revogações, feitas há pouco tempo, falaram que eu revoguei o luto de Padre Cícero, lá de Pernambuco".

Aí ele próprio emendou:
"É isso mesmo? De que cidade fica lá?"

Como houve alguma hesitação entre os assessores presentes, disparou:
"Está cheio de pau de arara aqui e não sabem que cidade fica padre Cícero?"

E aí responderam ao ilustríssimo que Padre Cícero nasceu no Crato e viveu em Juazeiro do Norte, ambos no Ceará.

"Pau de arara" se refere a caminhões que transportavam, em situação precária e insegura, os migrantes que fugiam da seca. O termo é empregado de modo pejorativo e preconceituoso para designar os nordestinos.

Entenderam?

Enquanto Lula — na cabeça de Bolsonaro, um "pau de arara" — faz uma aliança em Pernambuco que tem repercussão na própria chapa presidencial e pode desobstruir o caminho para a formação de uma federação, o esparrama-farofa, que fala com orgulho viril do próprio arroto, apela a uma expressão degradante para se referir à população da segunda região mais populosa do Brasil, que lhe confere índices de candidato nanico. E por boas razões, como se vê.

ENTÃO ESTÁ TUDO DEFINIDO?
"Então a eleição está definida, Reinaldo?" É claro que não. Escrevo nesta sexta uma coluna na Folha apontando que a eventual formação de federações pode alterar o quadro eleitoral. Afirmo no texto, vejam lá -- e reproduzo trecho aqui no UOL --, que elas podem dar à luz um candidato realmente conservador, que chamo de "segunda via".

Não! Esse nome não é nem Bolsonaro nem Moro. Estes, sim, são derivações teratológicas da política e poderiam ser chamados de "terceira via" porque estão fora da saudável polarização — esta real — entre "progressistas" e "conservadores".

Bolsonaro e Moro são íntimos da disrupção e precisam do conflito permanente para crescer. As federações podem mudar a natureza da disputa. Até agora, não temos um conservador democrata com chances. Talvez as federações contribuam para isso.

A eleição não está definida. O que vemos são pré-candidatos que fazem coisas certas e erradas para a sua própria postulação. Lula errou muito pouco até agora. Celebrou a aliança com o governador de Pernambuco. E Bolsonaro? Além de esparramar farofa cenográfica, chama os nordestinos de "paus de arara".

CORREÇÃO
O encontro entre Lula e Paulo Câmara ocorreu em São Paulo, não em Pernambuco, conforme havia afirmado na versão original do texto. A informação já foi corrigida.