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Reinaldo Azevedo

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

PF reage a ataque de Moro, diz que ele mente e quer prova. Ele nunca tem!

Stock Photos/Reprodução
Imagem: Stock Photos/Reprodução
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Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa "O É da Coisa", na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário - e frequentemente é necessário -, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

16/02/2022 06h55

Sergio Moro, pré-candidato do Podemos à Presidência da República, acostumou-se a disparar acusações por aí na certeza de que, também na guerra política, tudo vale. Assim construiu, note-se, a sua carreira de juiz, empurrando o país para o abismo em que estamos. Mas pode acontecer de cutucar, com sua vara curtíssima, não exatamente pessoas, mas uma instituição. E aí pode vir, como veio, o contra-ataque.

Na segunda, ele concedeu uma entrevista a uma emissora de rádio e desferiu, como de hábito, duros ataques à Polícia Federal, um de seus sacos de pancada. Acontece que a PF reagiu. Tornou pública, nesta terça, uma nota em que chama o ex-ministro de mentiroso, que é o atributo de quem mente. Reproduzo a nota em azul, com comentários em preto.

Moro mente quando diz que 'hoje não tem ninguém no Brasil sendo investigado e preso por grande corrupção'. A Polícia Federal efetuou mais de mil prisões, apenas por crimes de corrupção, nos últimos três anos.
Neste mesmo período, a PF realizou 1.728 operações contra esse tipo de crime. Somente em 2020, foram deflagradas 654 ações -- maior índice dos últimos quatro anos.

O que diz o candidato, com a consequente resposta da PF, é bem mais grave do que parece. As ações policiais, como se nota, estão aí -- e tais números dizem respeito apenas à investigação de crimes de corrupção. Ocorre que Moro quer "os presos por grande corrupção". Este senhor não consegue imaginar uma outra forma de governo que não se imponha pelo terror.

Bolsonaro pode ter percebido com razoável celeridade que Moro via o Ministério da Justiça e Segurança Pública como um aparelho de sua ambição pessoal. Deixado à sua vontade, o então ministro continuaria a comandar uma máquina de prisões exemplares, impondo-se como o condestável da República, até que chegasse o momento de colocar o próprio presidente contra a parede. Sigamos com a nota da PF.

Moro também faz ilações ao afirmar que 'esse é o resultado de quantos superintendentes eles afastaram e que estavam fazendo o trabalho deles'.
O ex-ministro não aponta qual fato ou crime tenha conhecimento e que a PF estaria se omitindo a investigar. Tampouco qual inquérito policial em andamento tenha sido alvo de ingerência política ou da administração.
Vale ressaltar que a Polícia Federal vai muito além da repressão aos crimes de corrupção. Em 2021, bateu recorde de operações. No total, foram quase dez mil ações, aumento de 34% em relação ao ano anterior.

Ora, é claro que Moro não aponta fato ou crime de que tenha conhecimento. Conserva, como político, os hábitos que diligentemente cultivou quando magistrado: o ataque genérico, sem prova, destinado a inflamar a opinião dos desinformados.

Qualquer um que tenha tido, por exemplo, a curiosidade de ler a sentença em que condenou Lula, no famoso caso do triplex, viu como age um elemento nefasto para o estado de direito, tão perigoso como o relapso: o "juiz de condenação". A denúncia da Lava Jato era imprestável porque os elementos probatórios não foram apresentados. E o ex-presidente foi condenado mesmo assim porque, atenção!, tinha sido presidente da República. Insisto: leiam a sentença.

Usa a mesma tática com a PF: "Ah, superintendentes foram trocados..." Isso, por si, evidencia algum malfeito? De resto, o trabalho da PF é acompanhado pelo Ministério Público e pela própria Justiça.

Todos conhecem o que penso sobre o governo Bolsonaro: é um desastre civilizatório. E o presidente só não foi impichado porque permitiu que facções do Congresso raptassem o Orçamento. Acabei perdendo as contas, na ponta do lápis, dos crimes de responsabilidade que cometeu: são mais de 30.

Entendo, no entanto, que a Polícia Federal tem se comportado dentro das regras do jogo, evitando o estardalhaço e trabalhando nos marcos do devido processo legal. Há dias, a delegada Denisse Ribeiro, que presidente os inquéritos das "fake news" e das milícias digitais, entregou ao ministro Alexandre de Moraes o relatório parcial sobre a segunda apuração — entrou em licença-maternidade. Pode-se apostar que Bolsonaro não gostou do que leu. Segue a PF,

O ex-juiz confunde, de forma deliberada, as funções da PF. O papel da corporação não é produzir espetáculos. O dever da Polícia é conduzir investigações, desconectadas de interesses político-partidários.
Moro desconhece a Polícia Federal e negou conhecê-la quando teve a chance. Enquanto Ministro da Justiça não participou dos principais debates que envolviam assuntos de interesse da PF e de seus servidores.
Com o intuito de preservar a imagem de umas das mais respeitadas e confiáveis instituições brasileiras, a Polícia Federal repudia a afirmação feita pelo pré-candidato Moro de que a corporação não tem autonomia.
Por fim, a PF - instituição de Estado - mantém-se firme no combate ao crime organizado, à corrupção e não deve ser usada como trampolim para projetos eleitorais.
A Polícia Federal

Observo que a nota não vem assinada por Paulo Maiurino, diretor-geral, mas pela "Polícia Federal", o que dá peso institucional à resposta. Se Moro sabe, além da fofoca, de casos que deixaram de ser investigados ou de situações que vão além do chororô de ressentidos ou de aspirantes políticos, que ele, então, diga com clareza.

Sim, um dos aspectos que me agrada na atual gestão da PF é justamente a eliminação do espetáculo. Maiurino proibiu delegados de dar entrevistas depois de operações em que simples investigados eram condenados em praça pública, sem chance de defesa. Aliás, considero tal prática — comum também entre membros do Ministério Público — um exemplo arreganhado de abuso de autoridade.

A candidatura de Moro ficou muito aquém do que esperavam seus entusiastas, e a convergência do centro e da centro-direita para o seu nome não aconteceu. Contam-se entre os motivos a sua óbvia inexperiência e, sobretudo, suas generalidades e platitudes. Setores reacionários do empresariado e dos mercados que veem um Bolsonaro inviável chegaram a depositar suas esperanças no ex-juiz. Durou pouco.

Moro entende que sua única chance de chegar ao segundo turno é tomando fatia considerável do eleitorado do atual presidente. Para tanto, não tem nenhum pudor de, por exemplo, desfilar por aí ao lado do senador negacionista Eduardo Girão (Podemos-CE). Na segunda, lá estava o parlamentar morista a comandar audiência no Congresso com propagadores de "fake news" sobre as vacinas.

O ataque à Polícia Federal busca dizer a parcela do bolsonarismo: "O verdadeiro Bolsonaro sou eu". Nesse particular, convenham, ele está certo.

ENCERRO
E não nos esquecemos jamais daquela que Moro pretendia que fosse a sua grande obra à frente do Ministério da Justiça e da Segurança Púbica: o "pacote anticrime". Ele abrigava, nada menos, que "excludente de ilicitude", que é um burocratês jurídico para justificar a morte de pretos e pobres.

Sob o seu nariz, Bolsonaro armou o país até os dentes com sucessivas decisões flexibilizando o porte de armas. Moro nunca viu razão para deixar o Ministério. Só caiu fora quando percebeu que não poderia, ele sim, fazer da Polícia Federal o que lhe desse na telha.

Está politicamente obrigado a responder à nota.